
Brincar com os clássicos, reinventar histórias e convidar o leitor a mergulhar em versões inesperadas de narrativas consagradas. É assim que nasce ‘Recapitulações’, novo livro de contos de Maria Valéria Rezende, escritora e educadora santista. Reunindo doze narrativas curtas, a obra reafirma o talento da autora como contista, combinando humor, inventividade e um diálogo direto com a tradição literária.
Os textos estabelecem pontes com grandes obras e autores, transformando referências conhecidas em novas aventuras narrativas — diferentes das originais, mas mantendo semelhanças sutis. Em alguns momentos, Maria Valéria mimetiza o estilo dos escritores revisitados; em outros, segue por caminhos próprios, deixando que a narrativa encontre sua forma com liberdade.
Segundo a autora, a origem do livro está numa prática antiga, cultivada quase como brincadeira ao longo da vida. “Eu sempre fiz isso: ou transformo outros escritores em personagens e invento histórias sobre eles, ou pego algo que eles escreveram e digo: ‘não foi nada assim’, e reconto de outra maneira”, explica. Antes dispersos entre arquivos pessoais e exercícios literários, esses textos foram reunidos em um único volume.
Escrita como hábito
A produção constante também é fruto de método e disciplina. Maria Valéria participa de um clube do conto em João Pessoa, onde vive atualmente, que se reúne semanalmente. “Todo sábado nos reunimos e escrevemos. Então eu escrevo um conto por semana, com certeza”. Muitos desses exercícios acabaram incorporados ao livro.
‘Recapitulações’ reúne referências a autores consagrados. As escolhas surgiram “meio ao acaso”. “Eu não me sentei para fazer esse livro inteiro. Fui juntando ao longo da vida.” A própria trajetória da autora ajuda a explicar esse percurso fragmentado: Maria Valéria só começou a publicar literatura aos 60 anos. “Foi meio por acaso que eu me tornei escritora. E foi bom, porque eu já não estava mais capaz de andar com mochila nas costas pelo meio dos canaviais”, diz. “Arrumei outra profissão. E é a melhor coisa do mundo”.
Escrita, reescrita e humor
Partindo de obras de autores como Machado de Assis, Franz Kafka e Guy de Maupassant, ‘Recapitulações’ borra as fronteiras entre escrita e reescrita. Ao atualizar narrativas ou propor novos desfechos para histórias conhecidas, Maria Valéria questiona a ideia de originalidade e lembra que toda obra literária se alimenta de um vasto repertório prévio.
O jogo intertextual aparece de forma explícita. Um dos contos favoritos da autora parte do poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade. “Eu pego aquele poema e digo: ‘não, não foi nada assim’, e reconto a história toda. Eu me diverti muito fazendo aquilo”. Para ela, o gesto é ao mesmo tempo homenagem, brincadeira e provocação. “Eu espero que um dia alguém faça isso com um livro meu. Eu me divertiria muito”.
Essa liberdade criativa se ancora numa concepção clara de literatura: a escrita como parceria entre autor e leitor. “Eu sei o que escrevi nas linhas. Mas o que está nas entrelinhas é o leitor que me diz. O bom leitor cria junto com o escritor.” Por isso, Maria Valéria valoriza as leituras que fazem de seus livros. “Os comentários me revelam coisas que estavam ali e que eu mesma não sabia”.
O humor atravessa toda a obra. “Tudo o que eu escrevo tem um pouco de humor, porque senão não é possível viver.” Em tempos sombrios, ela vê o riso como forma de resistência. “Temos que nos defender do horror através do humor”.
Olhar crítico
Leitora voraz, Maria Valéria acompanha atentamente a produção contemporânea, mas faz uma ressalva ao excesso de complexidade em parte da literatura atual. Sua escrita segue outro caminho. “Sempre me perguntam para quem eu escrevo. Eu escrevo para os meus personagens. As pessoas que inspiraram esses personagens têm o direito de ler suas próprias histórias”.
Ao final, o convite ao leitor é simples e direto. “Divirta-se. Muitos textos são realmente humorísticos. E, se puder, releia os autores aos quais eu me refiro”. Para Maria Valéria, reler é também se reler. “Cada vez que eu leio um livro, eu sou outra. E o livro vira outra coisa”.
A autora venderá exemplares com dedicatória por meio de sua loja virtual. Mais do que um livro de contos, ‘Recapitulações’ é uma celebração da leitura como memória, diálogo e invenção.


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