Cena

A cultura da distração e a obra de Jung estão em mostra do MIS-SP

08/01/2026 Da Redação
Reprodução

A alma humana é um enigma que a gente tenta desvendar enquanto vive. Claro que nem todos têm tanta curiosidade e disposição, mas não deixa de ser intrigante e instigante quando o tema se levanta. Pois é a alma humana, na perspectiva do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, quem motiva esta conversa, enquanto as sobras do réveillon nos distraem, ainda, ocupando lugar no freezer, e o mal estar da ressaca está quase curado.

Faz tempo que Jung entrou na minha vida. E com a intimidade que o tempo e a admiração por ele criaram, corri ao Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, para chegar ainda mais perto do mestre e mergulhar no seu imenso saber, com a mostra “A alma humana, você e o universo de Jung”.

Sabia que seria desafiada pelo “contundente convite ao autoconhecimento” anunciado pelos organizadores, mas não imaginava ser impactada, logo ao chegar, pela pergunta inquietante nos degraus que levam à mostra: “Do que tanto você tenta fugir quando se distrai?”.

O que não falta é distração neste mundo de redes sociais, de influenciadores, de alto consumo, de ganância, de polarização, de apelos à beleza, à juventude eterna, ao status, ao efêmero, à superficialidade, à falta de escrúpulos, à estupidez. Vale qualquer coisa que desvie seu olhar de você mesmo, que lhe mantenha inconsciente e lhe prometa a felicidade já.

Olhar-se e não gostar do que vê pode conduzir alguém por dois caminhos: quebrar o espelho ou querer conhecer a pessoa ali refletida. Garanto que a segunda opção não leva à iluminação que tantos prometem, mas pode “tornar consciente a escuridão”, como bem provocou Jung. Percebo, com profunda preocupação e uma ponta de tristeza, que a maioria prefere quebrar o espelho e seguir alienado.

Não são poucas as manifestações pessoais (ansiedade, alergias, burnout, câncer, solidão, depressão) e do coletivo (fome, desemprego, dívidas, ilhas de lixo, queimadas, feminicídio), quando caminhamos em descompasso com a alma. Os sintomas, didaticamente apontados em uma das instalações da mostra, deveriam, pelo menos, nos fazer pensar e indagar: isso está acontecendo comigo? O que é isso que me angustia, que faz doer o estômago, a cabeça, que me tira o sono, a fome, a serenidade, a fé, o tesão, o horizonte?

A exposição no MIS é bem ousada ao passar os conceitos de Jung, usando instalações que dispensam legendas, embora elas estejam lá. Como um teto inteiro de cartelas vazias de comprimidos! (Quem não tem um estoque de remédios pra chamar de seu?) Ou uma “geladeira” com produtos de alto consumo, em frascos com rótulos explícitos: drogas, feed infinito nas telas, compulsão alimentar, maratonar série atrás de série, sexo-sexo-sexo, álcool sem medida… Qual a sua ‘distração’? E a pergunta que, na mostra, nos tira da zona de conforto: “O que você faz quando se depara com um sintoma?”. Aliás, deixa contar uma coisa: não existe zona de conforto.

Sintomas do nosso adoecimento, por mais que queiramos negar. Para Carl Gustav Jung, profundo conhecedor da alma humana, “qualquer sintoma – seja ele físico, emocional, comportamental, ambiental, social – é uma expressão do inconsciente em busca de se realizar, de ser enxergado, significado e, assim, poder ser integrado à vida em prol da evolução individual e coletiva”. A vasta obra do cientista suíço no MIS é uma síntese incômoda se você não estiver distraído, se você não se fizer surdo ao chamado da alma.

O pensamento comum é que o ano está começando. Sabemos, entretanto, que não há fim, não há começo. Tudo é, simplesmente, nesse movimento em que, ao longo da história, mudam os atores, mas o drama obedece a um roteiro nada novo, também exaltado na mostra: “O mundo lhe perguntará quem você é, e se você não souber, o mundo lhe dirá”. Neste sentido, a voz do coletivo é implacável e lhe deixará refém do som ensurdecedor do canto da sereia.

Não tenho receita. Como no poema Cantares, do poeta espanhol Antonio Machado, “faz-se caminho ao andar”. Mas podemos aprender, todos os dias, alguma coisa, e deixo-lhes, para grudar na geladeira, a lenda que narro a seguir e tem origem incerta.

Um explorador branco, ansioso para chegar logo ao seu destino no coração da África, contratou carregadores para levar sua bagagem. Para alcançar seu intento em breve tempo, ele pagava um dinheiro extra para que os carregadores índios andassem mais rápido. Durante vários dias, os carregadores apressaram o passo.

Certa tarde, porém, todos se sentaram no chão e depositaram seus fardos, recusando-se a continuar. Por mais dinheiro que lhes fosse oferecido, os índios não se moviam. Quando, finalmente, o explorador pediu uma razão para aquele comportamento, obteve a seguinte resposta: “Andamos muito depressa e já não sabemos mais o que estamos fazendo. Agora precisamos esperar até que nossas almas nos alcancem”.

Proponho que nos sentemos. Em algum momento nossas almas nos alcançarão e o mundo não terá que nos dizer quem somos.

* Texto de Vera Leon, jornalista e analista junguiana.