
Um assalto, uma experiência traumática e uma reflexão urgente sobre violência urbana, classe média e segurança pública. Foi desse episódio que nasceu o ensaio “Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão”, do sociólogo e escritor Evandro Silva, publicado na edição 44 da Revista Serrote em 2023. O texto, que o próprio autor define como uma escrita de sobrevivência, ganhou leitura ampla e, mais recentemente, se transformou em uma adaptação teatral homônima dirigida por Lucas Mayor e protagonizada por Rafael Cristiano. A apresentação acontece neste sábado (13), às 20 horas, no Sesc Santos.
O espetáculo tem origem em um texto que, inicialmente, nem pretendia ser dramaturgia. Evandro lembra que o ensaio surgiu de forma quase instintiva. “Eu sofri um assalto, cheguei ao quarto do hotel e escrevi. Era só um diário, uma maneira de desopilar daquela experiência”, afirma. O material cresceu, ganhou forma e repercussão. “Eu achava que era uma história muito pessoal, mas começou a ressoar”.
Foi então que o diretor Lucas Mayor entrou em cena. “Um dia ele me mandou mensagem dizendo que queria transformar o texto em peça”, conta Evandro. Sem vínculos anteriores com o teatro, o escritor aceitou a proposta com uma condição: não interferir no processo. “Quis que fosse inédita para mim tanto quanto para o público”. Ele lembra da estreia. “Fiquei sabendo de tudo na hora. Foi arrematador”.
Dramaturgia latente
Para Lucas, o impacto do ensaio foi imediato. “Não por acaso o texto ultrapassou o espaço da revista e chegou a podcasts, universidades”, observa. O que chamou sua atenção foi a força rara da primeira pessoa. “É incomum ver no teatro um personagem negro, intelectual, refletindo em cena sobre uma situação que condensa tantas questões da nossa sociedade”. O diretor viu ali uma dramaturgia pronta para ganhar corpo. “Esse texto, se chegasse ao palco, seria muito potente”.
A adaptação preserva integralmente o ensaio original. “A dicção do Evandro está lá”, diz Lucas. A única camada adicionada foi a incorporação de elementos biográficos do ator Rafael Cristiano, homem negro da periferia do Grajaú. “Foi a junção perfeita para aproximar o Rafa do Evandro”.
Escrever o desconforto
Ao tratar de segurança pública, Evandro buscou fugir do óbvio. “Se começo dizendo que homens negros são vítimas de violência e termino dizendo a mesma coisa, é uma banalidade”. Para ele, a arte precisa arriscar. “Fico impressionado com quem escolhe formas artísticas impopulares para dizer coisas populares. Pelo menos se arrisca”.
Por ser autobiográfico, o texto exigiu ainda outros cuidados. “Eu não queria que quem lesse sentisse pena de mim”. Evandro deliberadamente se colocou em posições incômodas. “Meu sofrimento não pode ser escudo para eu não dizer coisas complicadas”.
Entre suas referências está James Baldwin, “o melhor que conheço em usar o ensaio pessoal para tratar de temas maiores”. O texto passou por nove versões até chegar à Serrote, sempre se afastando do tom acadêmico. “Eu estava viciado em explicar. O editor dizia: ‘Você está dando muita aula, está se expondo pouco’”.
Política, afeto e humor
A presença de Rafael Cristiano trouxe ao espetáculo camadas inesperadas — especialmente de humor. “Jamais imaginei que dizer ‘eu sou um homem intelectual’ pudesse ser engraçado. Mas na boca do Rafa fica patético — e maravilhoso”, diz Evandro. Lucas concorda. “Isso equilibra a dureza do tema”.
A peça também costura política e afeto. A seção mais teórica do ensaio foi transformada em uma peça sonora que, segundo o diretor, “dialoga com Racionais e incorpora elementos do álbum, numa espécie de colagem que amplia o que o Evandro propõe no texto”. Já os trechos biográficos — da formação de Evandro na Baixada Santista às suas referências musicais — aparecem como respiros no espetáculo.
Perturbar para pensar
Evandro é direto quanto ao que deseja causar. “Quero perturbar as pessoas. Não tem nada mais prazeroso do que perturbar os outros”. Ele considera este o texto mais importante que já escreveu: “Foi o único em que eu disse tudo o que eu queria dizer”. Lucas complementa. “O teatro vive do encontro — e esse texto continua reverberando em cena”.


Importantíssimo profissional o socilólogo!! deveria ser mais valorizado!