Cena

Maria Helena Marques lança segundo livro de trilogia poética

18/11/2025 Isabela Marangoni
Reprodução

Movida pelo desejo de ampliar a capacidade de sentir por meio da linguagem poética, transformando emoções fragmentadas em consciência e presença, a escritora e educadora Maria Helena Marques lança, em 5 de dezembro, das 18 às 20 horas, na Livraria Realejo, Um Deserto em Mim, segundo volume da trilogia iniciada em 2022 com Inquietações em Palavras. A série se encerra em 2026, com O Abrigo do Silêncio. “Essa trilogia nasceu num crescente”, afirma. “A poesia é algo que me resgata”.

Com longa trajetória na área da educação, comunicação e ética, Helena atuou durante anos na formação de professores e em projetos voltados à cultura de paz em escolas públicas de São Paulo, incluindo consultorias para a Unesco. Esse repertório atravessa sua escrita e sustenta a base conceitual da trilogia.

O título Um Deserto em Mim surgiu da percepção de que “quando visitamos nosso deserto, percebemos que dentro dele também é possível florescer”, diz. Assim, a poesia assume o papel de “gesto sensível capaz de resgatar o que há de mais humano em nós”.

Transformação 

A obra propõe um encontro com a dor que transforma, com a fé que restaura e com a esperança que persiste. Em textos breves, intensos e delicados, a autora conduz o leitor pelas profundezas da emoção humana, mostrando que até o deserto pode florescer — quando regado por lágrimas sinceras e por uma fé que insiste.

Para Helena, a poesia devolve ritmo e harmonia ao mundo interno. “Quando a gente sai desse ritmo, adoece. A poesia leva você a rever esses ritmos internos para devolver ao mundo um fazer mais harmonioso”.

Entre suas referências está o poeta francês Pierre Reverdy, a quem recorre para sintetizar seu caminho estético e ético. “A arte verdadeira nasce do silêncio interior. A sinceridade é a única força do poeta. A estética é a ética de dentro”.

Pensar, sentir e querer

A obra dialoga também com a antroposofia, especialmente com a visão trimembrada do ser humano — pensar, sentir e querer. Para a autora, a poesia age precisamente no campo do sentir, força que harmoniza a vida. “Se a gente pensa demais, enfraquece as forças do querer. Se faz tudo sem pensar, se arrepende. O sentir harmoniza. Por isso, digo que quero inaugurar uma pedagogia do sentir”.

Ela explica esse movimento em profundidade. “Nós transitamos entre o mundo externo — percebido pelos sentidos — e o interno, onde vivem pensamentos, sentimentos e valores. O que vem de fora é interiorizado, ganha significado e volta ao mundo como ação. Quando pensamos demais, paralisamos à vontade; quando agimos sem pensar, nos desequilibramos. O sentir, que nasce no coração e no ritmo da respiração, equilibra o ser e nos aproxima do que é bom, belo e justo”.

Recomeços

Os poemas falam de temas universais — saudade, luto, culpa, perda, fé e recomeço. Mas a fé evocada por Helena não se limita ao campo religioso. “Fé é valor que sustenta. É raiz. É o que restaura quando o chão falta”.

Para ela, escrever é um exercício de entrega. “Toda escrita é solitária e exige muita honestidade. Você abre algo que é só seu.” Dessa exposição nasce a estética. “A palavra tem valor e poder. Ela atravessa o outro — e isso é uma responsabilidade enorme”.

Lançamento

Lançar Um Deserto em Mim na Realejo tem um sentido de retorno. “Ali lancei meu primeiro livro, em 2009, e meu primeiro livro de poemas. Quero que a trilogia nasça toda ali”.

Para quem atravessa seu próprio deserto, ela deixa uma mensagem. “Todos nós atravessamos um deserto — e muitas vezes fugimos dele. Mas quando nomeamos nossos sentimentos, o deserto começa a florescer”.

E conclui com a convicção que orienta sua escrita. “A poesia me ensina todos os dias que sentir também é uma forma de pensar. A poesia é esse gesto sensível capaz de resgatar o que há de mais humano em nós — e de nos resgatar do nosso próprio deserto”.