Cena

Jornalista reafirma a importância da literatura latino-americana na região

11/11/2025 Isabela Marangoni
Isabela Marangoni

Apaixonado pelo Porto de Santos e pela literatura latino-americana, o jornalista, escritor e colunista do Jornal da Orla Alessandro Atanes completa 30 anos de profissão em 2025. Formado em Jornalismo em 1995, ele recorda que a escolha pela profissão nasceu da curiosidade sem fronteiras. “Eu sempre gostei de vários assuntos e achava que ser jornalista era uma forma de poder falar sobre tudo. Mesmo que a gente se especialize, o jornalismo permite mudar de editoria, de tema, de olhar”, conta.

Logo após a graduação, Atanes se mudou para Cuiabá em busca das primeiras experiências na área. “A faculdade de Jornalismo da Federal do Mato Grosso tinha acabado de abrir e faltava gente. Era uma capital com vários jornais diários, emissoras de TV e assessorias de imprensa. Um professor comentou que precisavam de jornalistas”, lembra. “A turma que se formou em 1995, como a minha, foi quase toda para lá. A gente criou uma comunidade — foi uma época muito rica”.

Em Cuiabá, cobriu de tudo — inclusive economia e agronegócio. “Sobrevoei o Pantanal, o Xingu, o Cerrado… já gastei minha cota de andar em bimotor”, brinca. Mas a literatura, ele diz, “sempre esteve por perto”. Desde os tempos de faculdade, sabia que seu caminho profissional passaria por ela.

Do jornalismo à pesquisa literária

A virada aconteceu quando retornou a Santos. “Passei em um concurso da Prefeitura de Cubatão e isso me deu estabilidade para voltar a estudar. Fiz especialização, depois mestrado… já são 25 anos de estudos entre uma coisa e outra”.

Foi nesse período que Atanes se debruçou sobre o romance ‘Navios Iluminados (1937)’, de Ranulpho Prata — obra que se tornaria o eixo central de sua trajetória acadêmica. “É o tema da minha monografia, da dissertação de mestrado e o principal foco das análises que faço até hoje”, diz.

O reconhecimento veio quando a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) republicou o romance ‘Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos’, citando sua dissertação como referência. “Foi uma sensação de sentido, de utilidade. É um trabalho muito solitário, então ver o livro republicado com base em parte do que estudei foi marcante”.

A descoberta da obra foi quase acidental, durante um curso de História e Historiografia. “Aprendi que estudos históricos sobre arte e literatura também podem ser fontes de pesquisa. Achei fascinante pensar a cidade a partir da ficção” Foi então que encontrou, em um livro da professora Wilma Therezinha Fernandes de Andrade, uma breve menção a ‘Navios Iluminados’. “Era uma pequena cartilha, e lá estava esse romance que se passava em Santos. Fui atrás e me apaixonei”.

O livro retrata a vida de um migrante baiano que chega à cidade e trabalha como estivador no porto entre 1926 e o início dos anos 1930, antes das leis trabalhistas. “Ele mostra um mundo talvez parecido com o de agora, depois que as leis voltaram a ser flexibilizadas. Há uma cena magnífica: os estivadores veem pela primeira vez uma escavadeira, que faz em horas o trabalho de dias. Ranulpho descreve a máquina como um demônio com mandíbulas que se enfiam no ventre do navio e arrancam as cargas. É de uma força impressionante”.

Para Atanes, a literatura revela verdades por meio da invenção. “O Alberto Martins faz isso em ‘História dos Ossos (2005)’, quando cria a cena de um cemitério transformado em pátio de contêineres. É ficção, mas diz muito sobre o impacto das operações portuárias. Derrubar um cemitério é simbólico — um golpe na memória coletiva. Isso é mais forte do que muitas reportagens”.

Viagens literárias

Para Alessandro, o Porto de Santos é mais que um ponto de chegada e partida — é um símbolo de conexões entre histórias, autores e culturas. Desde os anos 2000, o pesquisador vem mapeando obras que mencionam Santos ou fazem referência à cidade. “Por ser porto, quem viajava para o Brasil entrava por aqui. Inclusive escritores que vinham divulgar livros ou conhecer gente”, comenta. Entre eles, cita Pablo Neruda, Elizabeth Bishop — que escreveu o poema ‘Chegada em Santos’ — e o belga Blaise Cendrars, traduzido por Patrícia Galvão, a Pagu, nos anos 1950.

Santos também aparece em obras estrangeiras, como ‘O Sonho do Celta (2010)’, de Mario Vargas Llosa, que menciona a cidade no início do século XX. “O cônsul britânico Roger Casement esteve aqui em 1905, 1906. A cidade era calma — o que ele mais fazia era tirar marinheiro inglês bêbado da cadeia”, diverte-se.

As leituras o levaram a outros portos do mundo. “Quando comecei a encontrar poemas sobre o Porto de Santos, principalmente o do Neruda, fui atrás do original, analisei, e acabei achando textos sobre Buenos Aires, Lima, Barcelona…”

Portos e páginas

Essas descobertas renderam a coluna Porto Literário, publicada no site PortoGente, e mais tarde a newsletter Notas do Atanes. “Se juntar tudo o que anotei, dá mais de cinco mil páginas”, conta. O primeiro deles, lançado em 2013, reuniu parte desse trabalho de duas décadas. “Comecei a estudar em 2000, e o livro saiu em 2013. Hoje escrevo com mais calma — não quero publicar só por publicar”.

Entre seus temas recorrentes estão as relações entre literatura e história latino-americana. “A literatura do continente se desenvolve muito em relação ao receio do Brasil, porque o Brasil era império”, observa. “Nos sebos de Buenos Aires há livros sobre o ‘perigo do Brasil-império’. E eles têm razão: o que fazem os impérios? Se expandem”.

As viagens renderam também parcerias internacionais. No Peru, conheceu o poeta Óscar Limache, autor de ‘Viagem à Língua do Porco-Espinho (1989)’. “A língua do porco-espinho é metáfora para a literatura”, explica. “São poemas sobre cidades — reais, míticas, transformadas. Fizemos edições artesanais em Santos, com capas de artistas como Costa Villar e Nice Lopes”.

Da amizade nasceu uma rede de tradução entre o Brasil e o Peru. “Limache começou a traduzir poetas de Santos, como Ademir Demarchi e Paulo de Toledo, e jovens peruanos passaram a traduzir Cecília Meireles e Machado de Assis. É um fluxo bonito — o que antes vinha da Europa, agora vem direto de Lima para cá”.

História e literatura

Para Atanes, a literatura latino-americana é um espelho crítico da história. “Esses autores mostram que a fronteira entre o real e o ficcional é também a fronteira do nosso olhar sobre a violência, a política, o cotidiano. A literatura é uma forma de ver o mundo”.

Ativo desde 2017, o SUR — Clube de Literatura Latino-Americana reúne, a cada duas segundas-feiras, leitores e estudiosos interessados na produção literária do continente.

O grupo se dedica a textos raros e inéditos em português — “os lados B da literatura” —, com destaque para escritoras e autores jovens. “A literatura latino-americana está se transformando — e para melhor”. O próximo encontro está marcado para o dia 17 de novembro, na Associação Cultural José Martí da Baixada Santista.