Cena

‘Dores de Amores’ volta a discutir arte, violência e resistência feminina

29/10/2025 Isabela Marangoni
Reprodução/Redes Sociais

Depois de uma primeira edição em 2019, o projeto “Dores de Amores” retorna neste sábado (1), a partir das 13 horas, no Futrica Café, na Rua XV de Novembro, reafirmando o poder da arte e da escuta como ferramentas de transformação social. Com o tema “A violência digital contra mulheres”, a segunda edição propõe um dia inteiro de atividades gratuitas, reunindo oficinas, exposição, bate-papo e show musical.

Idealizado pelas jornalistas Raquel Alves e Nara Assunção, o evento é promovido pelo coletivo Chega!, em parceria com a designer gráfica Márcia Okida, e conta com o apoio do Facult. “A ideia do projeto vem desde quando a gente começou o Chega!, lá em 2019”, lembra Raquel. “Na época, tivemos um primeiro encontro com uma mobilização grande, muitas alunas participando e várias atividades. Esse tema toca fundo as mulheres”.

Arte e reflexão

As oficinas que exploram Escrita Criativa, Fotografia e Artes Visuais serão ministradas por Raquel Alves, Nara Assunção e Márcia Okida, com atividades que exploram a arte como linguagem de expressão e ativismo. “A gente parte da escrita, passa pela fotografia e chega na criação artística”, explica Nara. “Vamos compor uma narrativa conjunta com os participantes — uma oficina conversa com a outra”.

Para Raquel, a arte é uma aliada poderosa na compreensão e superação da violência. “Falar sobre isso faz com que muitas mulheres reconheçam situações que já viveram. Antes, muitas nem viam aquilo como violência. A arte colabora nesse sentido — permite uma conversa mais leve sobre um assunto muito sério”.

Roda de conversa

O destaque do encontro será o bate-papo com a comunicadora e influenciadora Sheylli Caleffi, referência nacional no debate sobre violência online e segurança digital. A conversa acontece às 17h30, com mediação da jornalista e produtora cultural Juliana Bordallo. “A tecnologia ampliou o nosso mundo, mas também o alcance da violência contra a mulher”, observa Nara. “Hoje, o ambiente digital é mais um espaço de violação”.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), cerca de 1,5 milhão de mulheres tiveram fotos e vídeos íntimos vazados sem consentimento no último levantamento. “Isso mostra o quanto a gente está vulnerável. E muitas vezes nem se dá conta de que está sofrendo uma violência digital”, destaca Raquel.

Releitura artística

Durante o evento, será inaugurada a exposição “Na história da arte ou na vida real, toda mulher já sofreu algum tipo de violência”, com obras de Márcia Okida. As imagens, inspiradas em uma frase que se tornou símbolo do coletivo Chega!, apresentam releituras de pinturas clássicas sob uma ótica feminista e serão exibidas pela primeira vez em formato físico. “Essas obras nasceram dentro do coletivo e agora ganham uma projeção maior com a mostra”, comenta Nara.

Retomada do coletivo

O evento marca também a retomada do projeto Chega!, criado na Universidade Santa Cecília (Unisanta) a partir de um episódio marcante. “Uma aluna compartilhou em sala que sofria violência física do parceiro. Aquele relato terminou num choro coletivo. Foi quando eu e Nara percebemos que precisávamos fazer alguma coisa”, relembra Raquel.

Desde então, o coletivo promoveu rodas de conversa, oficinas e ações artísticas sobre violência de gênero e empoderamento feminino. A pandemia interrompeu as atividades, mas agora o grupo retorna com novo fôlego. “Esse evento é um marco de retorno. A gente quer redesenhar o projeto para o próximo ano, junto com a universidade”, diz Nara.

Educação e transformação

As organizadoras reforçam que o enfrentamento à violência começa pela educação e pelo diálogo. “Enquanto houver violência na educação, haverá violência na sociedade”, reflete Nara. “A gente precisa repensar desde a primeira infância como educamos. Não adianta ensinar uma criança a não ser violenta usando violência”.

Empoderamento

O evento se encerra com o show “Elas Cantam Elas”, com Raffa Pereira, Letícia Alcovér e Carla Mariani, celebrando a arte, a força feminina e a alegria de estar junto.

Mais do que um evento, “Dores de Amores” é um espaço de acolhimento e reflexão coletiva. “A gente espera que as pessoas participem, se divirtam, mas também olhem para suas trajetórias e promovam pequenas mudanças ao redor”, diz Raquel. “Essas transformações são contagiosas. Uma conversa pode acender um ponto de luz sobre algo que estava obscuro”.

“É sobre transformar dor em força e vulnerabilidade em consciência”, conclui Nara. “A arte é o caminho para isso”.