Cena

‘O Filho da Geni’, com Luiz Fernando Almeida, é espetáculo necessário

25/10/2025 Gustavo Klein
Renato Domingos/Divulgação

Na próxima semana, Santos recebe O Filho da Geni, um monólogo que encara um tema indigesto, doloroso e muitas vezes evitado, mas absolutamente necessário. Luiz Fernando Almeida mergulha em histórias reais de homens que sofreram abuso sexual na infância, transformando silêncio e trauma em teatro de confronto e sensibilidade. O espetáculo propõe uma reflexão sobre a violência contra meninos e adolescentes, uma realidade muitas vezes invisibilizada pela cultura do silêncio. Baseado em pesquisa extensa e entrevistas realizadas no Brasil e na Europa, o trabalho faz do palco um espaço de escuta e reconhecimento, onde as palavras ganham corpo e a dor ganha voz.

A apresentação acontece na quinta-feira, 30 de outubro, às 20h, no auditório do Sesc Santos, dentro do projeto Baixada em Cena. O espetáculo marca a estreia do terceiro solo de Luiz Fernando Almeida, após 14 anos com Dama da Noite e 9 com Gotas de Codeína — dois trabalhos que se tornaram sucessos de público e crítica em todo o país. O filho da Geni, com dramaturgia de Diego Lourenço e direção de Matheus Lípari, aprofunda uma investigação artística e social sobre as marcas deixadas por traumas silenciados.

O personagem interpretado por Almeida retorna ao Brasil depois de anos de subemprego na Europa e é obrigado a confrontar seu passado. Ele percorre memórias perturbadoras da infância e adolescência, revelando a dimensão dos abusos que sofreu, perpetuou e aprendeu a normalizar. A narrativa, construída com tom ora inocente, ora cômico, desnuda as feridas de uma sociedade que empurra o sofrimento para o esquecimento. O título faz referência à música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, e pode ser lido como metáfora da exclusão social, da desigualdade e da vulnerabilidade de quem vive às margens.

Números alarmantes

Os números que contextualizam o espetáculo são alarmantes. Segundo o IBGE, cerca de 1,8 milhão de meninos e homens no Brasil sofreram violência sexual ao longo da vida. A subnotificação é uma das maiores barreiras: estima-se que apenas uma pequena parcela dos casos chegue às autoridades. O filho da Geni surge nesse cenário como denúncia e resistência, questionando o silêncio que cerca o sofrimento masculino e revelando o quanto a sociedade ainda se cala diante dessa dor.

Durante temporadas em São Paulo, homens que viveram experiências semelhantes enviaram mensagens ao perfil do espetáculo nas redes sociais, relatando histórias e encontrando na peça um espaço simbólico de acolhimento. Esse impacto fora do palco mostra a força de um trabalho que ultrapassa o limite da arte e toca a urgência social. A dramaturgia, nascida de uma pesquisa iniciada em 2021 e 2022, conduzida em parceria com o sociólogo Diego Lourenço, foi construída com extremo cuidado para preservar o anonimato e a integridade emocional de cada depoimento. O resultado é um monólogo que não apenas narra, mas ilumina o mecanismo silencioso de uma sociedade que prefere ignorar o sofrimento dos homens e perpetua o ciclo de trauma e negligência.

Persistência

A trajetória de Luiz Fernando Almeida é marcada por coragem e persistência. Formado pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT) de Antunes Filho, ele já participou de mais de 30 espetáculos e construiu uma carreira sólida em projetos que exploram a condição humana e o impacto das feridas emocionais. Além dos palcos, é reconhecido como produtor e empreendedor cultural na Baixada Santista, idealizador de projetos como o Bazar Cafofo — pioneiro na economia criativa da região —, o Sansex – Mostra da Diversidade de Santos, o Festival Santista de Teatro, o Combo Cultural, o Teatro nas Bibliotecas e o Verão Teatral. Atualmente, atua também como produtor e educador líder no Instituto KondZilla, dedicado à capacitação e educação de jovens.

O filho da Geni foi contemplado pelo edital PROAC 01/23, destinado à montagem de espetáculos teatrais inéditos no Estado de São Paulo. Em 2024, cumpriu duas temporadas de sucesso na capital paulista, com ótima recepção de público e crítica. A nova apresentação em Santos reafirma a importância de levar à cena temas que raramente ganham espaço no debate público.

O teatro de Luiz Fernando Almeida é um território de confronto e humanidade. Em cena, ele alterna vulnerabilidade e força, conduzindo o público a uma travessia incômoda e transformadora. O filho da Geni é um espelho daquilo que a sociedade tenta esconder — um gesto artístico de coragem que rompe silêncios e questiona tabus. O espetáculo convida o público a atravessar a escuridão com os olhos abertos, provando que o teatro, quando se recusa a ser conivente, pode fazer o trabalho sozinho, sendo luz e denúncia.