Inclusão

Fabíola Souza transforma os desafios do TEA com coragem e propósito

25/10/2025 Isabela Marangoni
Arquivo pessoal

Com determinação e sensibilidade, Fabíola Souza é mãe atípica de João Vitor, um menino autista não verbal, com nível 3 de suporte, e de Mateus, de 5 anos. Além de mãe, é empresária e presidente do Instituto Autismo Brasil.

Foi a experiência com o diagnóstico do filho mais velho que a inspirou a fundar o Instituto. “Mesmo com todos os privilégios — instrução, estabilidade financeira, apoio familiar — sentimos o baque, o susto e a solidão. E se foi assim conosco, imagino o que passam as famílias em situação de vulnerabilidade”, conta Fabíola.

O sonho da maternidade sempre a acompanhou, mas os medos e as pressões sociais a fizeram adiar esse desejo. “Queria ser mãe desde que me entendo por gente, mas tinha muito medo. Depois dos 30 anos, vinha aquele estigma da mulher — na minha geração, 30 era o limite. A gente achava que o relógio biológico estava correndo e que já era tarde demais”, lembra.

Fabíola mergulhou no trabalho e, algum tempo depois, casou-se com Fabrício Julião, CEO do Grupo Brasil Export e pai de dois rapazes. “Foi a maior prova de amor que ele me deu. Ele insistia: ‘Quero ver você sendo mãe, quero que tenha essa experiência’. Eu tinha 37 anos e decidi realizar meu sonho”, recorda.

A gestação de João Vitor foi marcada por ansiedade e cuidados extremos. “Ficava tensa com cada exame, achando que algo poderia estar errado”. Desde cedo, ela percebeu que o filho apresentava características diferentes: atenção aos detalhes, resistência à dor e dificuldade de socialização. “Com quatro meses ele foi para o berçário e eu só o via à noite. Trabalhava muito e percebia que ele era diferente, não se socializava com as outras crianças”.

As suspeitas de autismo começaram a se confirmar à medida que ela buscava informações. “Fiz a pior coisa que poderia: procurei no Google. Escrevi ‘meu filho não fala, não gosta de outras crianças, é resistente à dor’ — e tudo levava ao autismo. Meu coração parou. Entrei em negação. Me diziam que cada criança tinha seu tempo, mas no fundo eu sabia”.

Aos 40 anos, Fabíola engravidou novamente, de Mateus. A gestação coincidiu com a pandemia e com um momento difícil: João Vitor havia sofrido um grave acidente doméstico. “Foram três meses de curativos diários, grávida e sem ajuda. Foi um período duríssimo, mas também de muito aprendizado”.

Durante a mudança de São Paulo para Santos, Fabíola buscou uma nova pediatra. Levou João Vitor à consulta para “testar” a médica antes do nascimento do segundo filho. “Pensei: vou levar o João só para ver se gosto dela. Mas assim que entrei, ela perguntou: ‘Você não está aqui por causa do João Vitor?’. Tentei desconversar, mas ela insistiu com cuidado. Quando ouvi ‘Fabíola, você sabe do João, né?’, comecei a chorar. Disse a ela: ‘Preciso respeitar o Mateus. Não quero falar disso agora’. Foi a primeira vez que alguém confirmou o que eu receava”.

Maternidade atípica

Mesmo diante do diagnóstico, Fabíola manteve a força e o foco. “O primeiro passo é a terapia — e quase nenhuma mãe tem acesso. Por isso defendo projetos que ofereçam apoio psicológico às mães. Não existe criança desenvolvida com uma mãe quebrada. Se a mãe não estiver minimamente equilibrada, não tem como”.

Sobre a maternidade e o autismo, ela reflete. “Cada fase traz uma nova luta. Errei, fechei os olhos algumas vezes por falta de força, mas sigo aprendendo com eles. É uma batalha contínua, mas é amor puro”.

O autismo, explica, se revela aos poucos — e as demandas mudam com o tempo. “Descobri recentemente que ele é nível 3. Isso não significa gravidade, e sim necessidade de suporte constante. Ele precisa de ajuda 24 horas por dia, todos os dias. Estamos treinando atividades da vida diária — hoje ele já leva o prato à pia, abre a geladeira e escova os dentes com ajuda”.

Apesar das dificuldades, Fabíola celebra cada conquista. “Foram sete anos sem dormir à noite. Agora ele dorme — e estou no paraíso. Não sei o motivo: novos medicamentos, terapias, o clima da casa… talvez ele apenas esteja com sono. Mas é uma vitória”.

Instituto Autismo Brasil nasce para realizar projetos

O Instituto Autismo Brasil nasceu quase pela perseverança de Fabrício. “Ele é muito resolutivo, fazedor. Quando sugeriu o instituto, eu neguei. Dizia: ‘Não consigo nem cuidar do meu filho, como vou cuidar de um instituto?’”.

Enquanto ele pensava em um projeto social ligado ao Brasil Export, Fabíola sonhava com algo voltado à profissionalização de jovens em vulnerabilidade social. O lançamento oficial aconteceu em 2023, na Associação Comercial de Santos — uma noite marcada por emoção. “Fiz o discurso tremendo. Muita gente chorou, inclusive pessoas atípicas. Foi lindo” e iniciou as atividades de fato em 2025.

A sede oficial foi inaugurada em 6 de junho deste ano, no aniversário de sete anos de João Vitor — um símbolo de recomeço. “A maternidade foi minha primeira virada. Depois veio o autismo. Agora, quero ajudar outras mães a receber o suporte que eu não tive. Juntas, podemos transformar o país e tornar a inclusão mais eficaz e real”.

Para ela, o segredo está em encontrar propósito mesmo na dor. “Minha psiquiatra sempre diz: ‘Você nunca vai estar livre da dor, mas precisa aprender a conviver com ela’. E eu li algo lindo: quando a dor encontra o propósito, tudo muda”.

O contato com o empreendedorismo social também foi decisivo. “Visitei um abrigo em São Paulo e vi meninos finalmente tendo um lar. Aquilo foi um clique. Percebi que eu também podia fazer a diferença. Hoje me sinto preparada e confiante para liderar o Instituto. Este ano, finalmente, desabrochamos de verdade”. Fabíola já planeja os próximos passos do projeto e promete novidades em breve, que serão anunciadas no Jornal da Orla.