Cena

Documentarista traz o olhar de Lévi-Strauss sobre a Baixada

21/10/2025 Isabela Marangoni
Claude Lévi-Strauss/Reprodução

O diretor e documentarista Douglas Gadelha Sá prepara o lançamento de seu novo filme, A praia de Lévi-Strauss (2025), que revisita a passagem do antropólogo e intelectual francês Claude Lévi-Strauss pelo litoral paulista em 1935 — episódio que completa 90 anos neste ano. Antes da estreia formal, ainda sem data confirmada, Douglas já realizou sessões em escolas da Praia Grande e planeja exibir o documentário em Santos e Cubatão, caso o longa não seja selecionado por festivais.

A ideia do projeto nasceu de uma longa imersão em arquivos históricos. “Desde que voltei para a Baixada Santista, percebi como temos poucas imagens do nosso passado. Comecei a me perguntar como era a região há 50, 60, 80 anos — e descobri que essas memórias visuais simplesmente não estavam disponíveis. Desenvolvi uma verdadeira obsessão por arquivos, fotografias ou imagens em movimento, porque eles nos transportam no tempo”, conta o diretor.

Durante essa pesquisa, Douglas se deparou com fotografias feitas por Lévi-Strauss em Praia Grande, o que o levou a aprofundar a relação entre o litoral paulista e o olhar de estrangeiros que, ao retratá-lo, ajudaram a moldar a consciência local sobre identidade e pertencimento.

Arquivo e afeto

O foco do filme é o próprio Claude Lévi-Strauss, que veio ao Brasil nos anos 1930 para colaborar na criação dos departamentos de ciências humanas da recém-fundada USP. “Lévi-Strauss tirou muitas fotos de São Paulo naquele período, registrando o cotidiano, o trabalho, a vida noturna e a transformação urbana. Ele era jovem, entusiasmado com o país, e registrava antes de teorizar. O cinema também é isso: uma construção de história através das imagens”, observa.

Em A praia de Lévi-Strauss, o diretor retorna à primeira metade do século XX, em pleno Estado Novo, quando imagens em movimento sobre o Brasil ainda eram raras — e, nesse caso, produzidas por um dos primeiros antropólogos a olhar os povos originários sob uma perspectiva anticolonial. Durante sua estadia em São Paulo, o francês costumava descer ao litoral nos fins de semana.

De sua passagem, restaram nove fotografias da Baixada Santista: quatro retratando pescadores e bois nas areias de Praia Grande, uma no alto da Serra do Mar , em Cubatão, e três na área do cais do porto de Santos.

O conjunto, publicado no livro Saudades de São Paulo (1991), revela uma conexão simbólica entre praia, indústria e porto — dimensões centrais da economia e da paisagem regional. No texto que acompanha as fotos, o próprio Lévi-Strauss relembra o contraste entre a modernidade nascente e as práticas culturais arcaicas da época.

Filmagem analógica

O documentário refaz o trajeto do antropólogo — Cubatão, Praia Grande e Santos — reinterpretando o olhar estrangeiro e confrontando-o com o presente. A proposta é discutir como as relações de trabalho, lazer e paisagem se transformaram ao longo de nove décadas.

Para evocar esse tempo, Douglas optou por filmar em película analógica, resgatando a estética das imagens de 90 anos atrás. O projeto, realizado em parceria com o fotógrafo santista André Calvão, combina registros contemporâneos em 35mm e Super-8 com ampla pesquisa de acervos históricos — entre eles, o do historiador Claudio Esterque, com imagens das primeiras casas da orla da Praia Grande, e o da Cinemateca Brasileira, com registros da Rodovia dos Imigrantes nas décadas de 1940 e 1950. “Lévi-Strauss passou por Guarujá, Santos, Praia Grande e Bertioga. Há fotos curiosas, como bois puxando redes de pesca na praia. O pescador caiçara faz essa junção entre o mar e a terra — o peixe pertence à praia, o boi ao interior, e o homem organiza isso. Lévi-Strauss captou esses detalhes”, comenta o diretor.

Baixada em transformação

O filme também reflete sobre as mudanças na paisagem e nos modos de vida. “Hoje, os pescadores se viram de outro jeito; a areia está tomada por prédios e pessoas. Onde antes havia bois e peixes, agora há vendedores fantasiados de Homem-Aranha, pipas e açaí. A Praia Grande mudou, mas continua sendo o lugar onde o trabalho e a diversão se encontram. Espero que o público perceba essas transformações e reflita sobre a história do lugar”.

Douglas destaca o “olhar de fora” de Lévi-Strauss como ferramenta de autoconhecimento. “O estrangeiro enxerga o que nós não vemos — mas também deixa de perceber o que para nós é essencial. É uma triangulação entre o olhar de si e o do outro. E é nesse estranhamento que nascem novas formas de entender nossa própria história”.

Trabalhar com arquivos exigiu paciência e técnica. “As imagens são antigas, difíceis de encontrar em boa resolução, e há desafios de direitos autorais. A fotografia analógica pede um olhar mais lento — quase um enamoramento com a imagem”, descreve.

Real e simbólico

Para Douglas, o documentário é uma escola do real. “O documentário é feito na rua, no contato direto com a realidade. É dali que nascem as histórias que podemos contar”.

Financiado pela Lei Paulo Gustavo, via Ministério da Cultura e Prefeitura de Praia Grande, o filme está previsto para circular ainda este ano por festivais da Baixada Santista. “Quero que o público perceba que a história da Praia Grande não é tão curta quanto parece. Que já havia, há muito tempo, pessoas interessadas em compreender essa região — e que há uma dimensão afetiva e profunda na nossa história”, conclui o diretor. Mais informações estão disponíveis no Instagram @dougadelha.