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Escritor Húngaro László Krasznahorkai vence o Nobel de Literatura 2025

10/10/2025 Da Redação Estadão Conteúdo
Divulgação

O escritor húngaro László Krasznahorkai, de 71 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura 2025. O anúncio foi feito pela Academia Sueca, responsável pela honraria, ontem pela manhã.

A honraria foi concedida ao autor “por sua obra convincente e visionária que, em meio ao terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”, conforme anunciou a instituição.

O Nobel de Literatura é concedido a um autor pelo conjunto de sua obra. O vencedor leva 11 mil coroas suecas, cerca de R$ 6 milhões na cotação atual.

Tradicionalmente, os organizadores do prêmio ligam para o escolhido antes do anúncio oficial. Durante o anúncio, Mats Malm secretário permanente e porta-voz da Academia Sueca, disse que tinha acabado de falar com László Krasznahorkai por telefone, “durante uma visita a Frankfurt, onde ele estava.”

Krasznahorkai era um dos nomes mais cotados para receber o Nobel de Literatura neste ano. Ele aparecia com chances de 10/1 nas principais casas de apostas da Inglaterra, ao lado da chinesa Can Xue. O escritor brasileiro Milton Hatoum chegou a aparecer entre as apostas, com chances de 24/1.

No ano passado, a Academia Sueca surpreendeu ao conceder o prêmio à romancista Han Kang, de 54 anos, a primeira sul-coreana a receber o Nobel de Literatura e uma das mais jovens a conquistar o feito.

Vida e obra

Nascido em Gyula, na Húngria, em 1954, Krasznahorkai estreou na literatura em 1985 com Satantango, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. A obra – único do autor traduzida no País- é chamada de “visionária” e “monstruosa” e acompanha a chegada de um homem misterioso a uma espécie de assentamento rural húngaro.

O livro venceu um prêmio de melhor romance traduzido para o inglês décadas depois, em 2013. Satantango também deu origem a um filme de mesmo nome de sete horas e meia, de 1994, do cineasta húngaro Béla Tarr, com quem Krasznahorkai manteve uma parceria criativa.

A Academia Sueca classificou o autor como um escritor épico da tradição literária da Europa Central, que vai de Kafka a Thomas Bernhard, e é caracterizada pelo “absurdo e pelo excesso grotesco”. O trabalho de Krasznahorkai é comumente descrito como pós-moderno, distópico e melancólico.

Em 2015, o escritor recebeu o celebrado Man Booker International Prize por sua contribuição para “a ficção no cenário mundial”. Na ocasião, os jurados do Booker elogiaram suas “frases extraordinárias, frases de comprimento inacreditável que vão a extremos inacreditáveis, com seu tom mudando de solene para enlouquecido, de irônico a desolador, à medida que seguem seu caminho errante”.

Krasznahorkai deixou uma Húngria ainda sob o regime soviético em 1987, quando passou um ano na Berlin ocidental com uma bolsa de estudos e foi inspirado por países do leste asiático. Nos anos seguintes, ele publicou livros como The Prisoner of Urga (1992), que acompanha a jornada de um homem pela ferrovia transiberiana da Mongólia à China.

Outros exemplos da influência oriental na prosa de Krasznahorkai são Destruction and Sorrow beneath the Heavens (2004), em que o narrador viaja pela China em uma busca por compreender a sociedade chinesa contemporânea, e A Mountain to the North, a Lake to the South, Paths to the West, a River to the East (2003) que tem como protagonista o neto do príncipe Genji Krasznahorkai também é autor de livros The Melancholy of Resistance (1989), War and War (1999), Destruction and Sorrow beneath the Heavens (2004), Baron Wenckheim’s Homecoming (2016).

‘Sátántangó’,única obra lançada no Brasil, virou filme de 7 horas e meia

Única obra de László Krasznahorkai publicada no Brasil, Sátántangó foi lançado pela Companhia das Letras. O romance, que marcou a estreia do escritor húngaro, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2025, saiu originalmente em 1985 e chegou ao País em tradução direta do húngaro feita por Paulo Schiller.

A estreia de Krasznahorkai foi elogiada pela Academia Sueca, que o descreveu como autor de “uma obra convincente e visionária que em meio ao terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. O romance recebeu em 2013 o prêmio de melhor livro traduzido para o inglês.

A história se passa em uma aldeia rural em constante chuva e acompanha a chegada de um homem misterioso, que pode ser um profeta, um vigarista ou o próprio demônio, a um povoado em ruínas. Entre os moradores estão camponeses esfarrapados, um médico alcoólatra que observa os vizinhos, jovens perdidas em um moinho destruído e uma garota com deficiência.

A notícia de que Irimiás, homem dado como morto, está voltando desperta expectativa e medo. À sua espera, as pessoas se reúnem em uma taverna, onde discutem, bebem e dançam ao som de um acordeão.

Em Sátántangó, cada capítulo é construído em um único parágrafo, recurso que intensifica o fluxo de pensamento e o clima de confusão que domina os personagens. A palavra “escuridão” aparece 76 vezes ao longo do texto, reforçando o tom sombrio e denso da história.

A obra também inspirou o cineasta Béla Tarr, que a adaptou em um filme de sete horas e meia, exibido no Festival de Berlim em 1994 e incluído entre as melhores produções de todos os tempos pela revista britânica Sight & Sound (EC).