Inclusão

O poder da maketerapia no autocuidado para mães atípicas

04/10/2025 Isabela Marangoni
Arquivo pessoal

O diagnóstico de uma criança com deficiência ou transtorno do espectro autista (TEA) transforma profundamente a rotina de uma família. Muitas mães acabam dedicando toda a energia aos filhos, deixando o autocuidado em segundo plano. Foi nesse contexto que a consultora de beleza Luana Konno, mãe atípica de Leonardo, 13 anos, autista Nível 2 de suporte, criou a maketerapia, um espaço dedicado a ensinar e incentivar mães atípicas a se cuidarem, resgatando a autoestima por meio da maquiagem e do bem-estar que ela proporciona.

Vinda de Macapá para Praia Grande, Luana transformou a própria experiência em projeto. “Não foi inspiração, foi necessidade. Minha rotina era 100% dedicada ao meu filho, que levou quase dois anos para se adaptar à escola. Eu vivia cansada, sem dormir direito. Sentada no banquinho do Atendimento Educacional Especializado (AEE), conheci outras mães e percebi que muitas se abandonavam completamente”, lembra.

Com experiência como consultora de beleza, Luana percebeu que poderia usar a maquiagem como ferramenta de resgate da autoestima. “Enquanto esperávamos no AEE, pensei: ‘dá para fazer alguma coisa’. Conversei com a diretora da escola e começamos com pequenas sessões na sala dos professores. O impacto era imediato: a mãe se olhava no espelho, tirava uma foto e já se sentia bonita novamente”.

Primeiro encontro

O primeiro encontro oficial aconteceu em 2022, na sala de casa. “Não tinha roteiro nem expectativas grandes, queria apenas conversar e ajudá-las a se sentir bem novamente. Não foi fácil garantir a presença de todas, mas tivemos um bate-papo maravilhoso sobre filhos e vida, cheio de empatia e risadas”, recorda Luana.

O maketerapia vai muito além de um curso de maquiagem. Com descontração e leveza, a técnica de automaquiagem ensinada permite que as participantes riam de seus erros, tirem dúvidas, aprendam truques adaptados às suas necessidades e vivenciem a transformação do “antes e depois”. Mais do que estética, trata-se de revelar uma beleza muitas vezes esquecida pela falta de tempo dedicado a si mesmas. “O sorriso no rosto ao se olhar no espelho, os elogios nas redes sociais, a troca de experiências maternas e a sensação de reconhecer nossa própria beleza — do jeito que somos — fazem do maketerapia um momento único”, completa.

Acolhimento e propósito

O projeto cresceu e hoje funciona como um espaço de acolhimento e prática de automaquiagem, sempre com leveza e troca de experiências. “Eu não maquio ninguém, eu ensino. Mostro o passo a passo e cada uma pratica em si mesma. No final, sempre há café, conversa, fotos… e, às vezes, lágrimas também”, conta Luana.

Mais do que maquiagem, a maketerapia oferece um respiro necessário. “Sempre digo: esse é o seu momento de pausa. É preciso parar e olhar para si com carinho. Muitas nem sabem o que gostam em si mesmas. Ficam presas à vitimização. Eu acolho, mas também incentivo: bora reagir. Não dá para repetir histórias tristes o tempo todo”.

O projeto beneficia também a própria idealizadora. “É o meu momento de pausa. Mesmo cansada, faço porque me faz bem. Escuto, compartilho histórias e saio renovada”, afirma.

Atuação na Baixada

Atualmente, Luana atende em eventos e em um espaço adaptado em seu restaurante na Praia Grande, já realizou parcerias com clínicas e instituições, como o Instituto Autismo Brasil, e prepara ações especiais para datas como Outubro Rosa e o Dia Internacional da Mulher.

Para o futuro, ela sonha em publicar um livro com depoimentos de mães atípicas e abrir uma loja colaborativa. “Quero divulgar empreendedoras na área da beleza. Muitas têm talentos, mas falta oportunidade. Se ficarmos só no ‘deixa a vida me levar’, não rola”.

O contato pode ser feito pelo Instagram @maketerapia. “É como uma amiga diz: apesar de o diagnóstico ser o mesmo, não estamos no mesmo barco. Cada mãe tem sua dor, sua rotina, sua luta. Mas todas precisam, de vez em quando, desse momento de pausa”.