
A cidade de Santos vai mergulhar mais uma vez no universo sonoro e inquieto de Gilberto Mendes, figura central da música contemporânea brasileira, com a realização da 7ª Semana Cultural Gilberto Mendes, entre os dias 10 e 13 de outubro. O evento, que transborda para ruas, praças, museus e até o espaço virtual, celebra os 103 anos que o compositor completaria em 2024, reafirmando sua importância como artista que fez da ousadia e da experimentação a base de toda criação.
Com abertura marcada para sexta-feira (10), às 18 horas, na Pinacoteca Benedicto Calixto, a programação reúne concertos, performances, palestras e intervenções artísticas que dialogam diretamente com a estética de Mendes: a música aleatória, a improvisação e a composição em tempo real. “É uma edição voltada para o imprevisível, para a experiência de colocar a arte em estado de risco, tal como Mendes defendia e praticava”, explica o curador Márcio Barreto.
Essa perspectiva coloca a Semana não apenas como homenagem, mas como uma espécie de laboratório vivo. A proposta não é repetir Mendes, mas, em espírito, acompanhar sua abertura ao novo, o que significa permitir que cada apresentação seja também um ato de criação coletiva.
A cidade como palco
A programação foi pensada para que a cidade respire Mendes em diferentes pontos. A abertura na Pinacoteca já indica a mistura: concerto com Lea Arafah, Paulo Hartmann e o coletivo Percutindo Mundos, seguido de dança com Ricardo Neves e Ryan Lebrão. Um diálogo entre música e corpo, entre estruturas sonoras e improvisação de movimento.
No sábado (11), a Casa das Culturas de Santos será ocupada por um debate instigante: “A arte experimental e a tradição caiçara”, com Márcio Barreto e mediação de Flávio Viegas Amoreira. Em seguida, o Sarau Gilberto Mendes promete reunir vozes, instrumentos e palavras em uma noite de partilha, incluindo artistas convidados como Bartolomeu Pereira de Souza, Alexandre Miguel de Souza, Clara Sznifer, Madô Martins e Cynthia Panca. A abertura do palco ao público segue outra lição de Mendes: a de borrar as fronteiras entre artista e plateia.
O domingo (12) leva o tributo para o coração do Centro Histórico, em frente ao Museu do Café. A intervenção de dança “Cais, entre futuros e memórias”, com Beth Bastos e artistas convidados, transforma a rua em palco, numa homenagem ao porto que tanto marcou o imaginário da cidade e da própria obra de Mendes. Ali, o espaço urbano se converte em partitura: cada passo, cada olhar, cada som ambiente se torna parte de uma composição viva.
Encerrando a programação, a segunda-feira (13) amplia os horizontes no ambiente digital. Pelo canal Percutindo Mundos no YouTube, será exibido o “Cine Mendes”, uma seleção de curtas-metragens e videodanças que revisitam sua trajetória e resgatam memórias de um criador que nunca se conformou com molduras fixas.
Mestre inquieto
Natural de Santos, nascido em 1922, Gilberto Mendes deixou um legado que extrapola a partitura. Suas composições foram executadas em palcos internacionais, levando a inventividade brasileira a encontros com o experimentalismo mundial. Mendes também foi professor da USP, membro honorário da Academia Brasileira de Música e recebeu a Ordem do Mérito Cultural, além de inúmeros outros prêmios.
Mas talvez seu gesto mais visionário tenha sido fundar, nos anos 1960, o Festival Música Nova, espaço de criação e experimentação. Era sua forma de dizer que a música podia e devia reinventar-se diante do mundo em mutação.
Não se tratava de buscar a beleza formal ou o virtuosismo previsível, mas de tensionar limites: usar o acaso como parceiro, transformar ruídos em melodias possíveis, abrir espaço para a surpresa. A música de Mendes não era feita para adormecer, mas para acordar.
A Semana Cultural é realizada pela Prefeitura de Santos, em parceria com o Imaginário Coletivo, Instituto Canoa e Percutindo Mundos, com recursos de emendas parlamentares de Chico Nogueira e Telma de Souza.



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