
No coração do Boqueirão, em uma vizinhança muito conhecida pelos santistas, está o Super Centro Boqueirão, o primeiro shopping da América Latina, que em 2025 completa seis décadas de existência. Inaugurado em setembro de 1965, o espaço nasceu de um projeto visionário do arquiteto Sérgio Bernardes — que trabalhou ao lado de mestres como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.
A inauguração foi um marco na cidade: ruas iluminadas, distribuição de sorvetes, apresentações de dança e uma atmosfera de festa. Sessenta anos depois, esse espírito de convivência e acolhimento continua presente, mantido por gerações de lojistas e clientes que fizeram do local um verdadeiro patrimônio afetivo.
Flores e memórias
Entre os guardiões dessa história está Felipe Alvarez, proprietário da Gardênia Flores, que vê o Super Centro como muito mais do que um espaço comercial. “É memória, tradição e convivência”, define. Ele relembra que o terreno já foi ocupado pela Força Pública — utilizada na Revolução de 1932 e durante a Segunda Guerra — e, depois, pela garagem do Expresso Brasileiro. A transformação começou em 1961, com a demolição da antiga estrutura e a construção do centro comercial.
Nos primeiros anos, a maioria dos lojistas era formada por antigos feirantes. Muitas das famílias continuam até hoje, renovadas pelas novas gerações, e outras vieram. O projeto de Sérgio Bernardes também chamava atenção: jardins amplos, fontes com peixes e tartarugas, além de pequenos animais como papagaios e macacos que divertiam as crianças enquanto os pais faziam compras.
Outro detalhe curioso e que confunde os visitantes até os dias de hoje é o layout: um verdadeiro labirinto pensado para estimular a circulação. “A pessoa fica rodando, procurando uma loja, mas acaba conhecendo todas. E se encanta”, conta Felipe.
A história da própria Gardênia Flores se mistura à do centro. A família de Felipe trabalha com flores desde 1937, tradição que segue viva. “O que eu acho mais bonito é participar de emoções. A gente está presente em momentos importantes da vida das pessoas”, afirma.
Mesmo na pandemia, a floricultura manteve sua conexão com a comunidade, distribuindo flores gratuitamente nos semáforos e criando o buquê ‘Compartilhe o Amor’, que segue em venda até hoje.
Felipe, que agora vê o filho se integrar ao negócio, resume. “Quando você entra no Super Centro, sente conforto, um colo. Todo mundo se conhece e se respeita. Chegar aos 60 anos é um milagre, um presente”.

Adoçando gerações
Outro ícone do Super Centro é a Bomboniere Boqueirão, comandada há 43 anos por Florinda de Abreu Imakawa e sua irmã Audett de Abreu Faria.
O negócio nasceu do sonho de Florinda, que trabalhava em uma perfumaria no próprio local e desejava ter uma doceria. Anos depois, comprou uma bomboniere já existente, mudou o nome e expandiu o cardápio, que passou a incluir também salgados.
Entre os clássicos que conquistaram gerações estão os salgados e o doce português “Papo de Anjo”, mantido desde os primeiros tempos. “O que marca a gente é a fidelidade do cliente. Tem gente que volta depois de anos e ainda lembra do bolinho de queijo ou do cappuccino”, conta Florinda.
Para Florinda, a trajetória é de muito trabalho, mas também de grandes recompensas: “Comércio não é só abrir a porta e esperar. É dedicação, cuidado com o cliente e convivência. Aqui todo mundo se respeita e se frequenta. É uma comunidade”. Já a tradição de oferecer café com pão de queijo nas celebrações de aniversário do Super Centro segue firme. O que não falta no local são boas tradições, como as lojas da família Lascane e o salão Essência, da Maria do Carmo (a Katy). São mais de 200 lojas.
Um patrimônio vivo
Mais do que um centro de compras, o Super Centro Boqueirão se consolidou como espaço de encontros e memórias. Cada flor entregue e cada doce servido contam um pedaço dessa história que atravessa gerações.
Ao completar 60 anos, o espaço segue firme, se reinventando sem perder sua essência: ser um ponto de convivência, onde tradição e afeto caminham lado a lado.


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