Cena

Portas dos mistérios

23/09/2025 Luiz Dias Guimarães
Reprodução

A vida é o que percebemos dela. E fato é que percebemos muito pouco. Nunca havia pensado no que li há dias: um diálogo imaginário entre dois fetos sobre o que haveria no pós-parto. Não é preciso usar IA para supor as dúvidas que talvez assombrem os pequenos antes de virem à luz, se é que já exista a consciência.

Seu mundo é aconchegante, o útero emana conforto e amor, às vezes sustos, decepções e raiva. Mas em geral, alimentados pelo cordão, pulsam sem saber que algo virá atrás da porta quando aberta ao mundo.

Seria então sua morte, fim do conforto maternal? Ou a passagem a um paraíso que às vezes é o céu, em outras um inferno? Na real, nada sabemos do porvir, e a amplitude da vida é, sim, um mistério. O Ano Santo que a Igreja Católica festeja a cada vinte e cinco anos, abrindo suas portas secretas em Roma, evoca a salvação e a misericórdia divina. Existencialmente, pode ser a renovação da esperança, ou o descortínio ao nada.

No século em que a astronomia desbrava o universo, abrem-se portas a revelarem a dimensão de um mundo que não sabíamos existir. Desde que acreditamos em um deus admitimos realidades que a rigor não costumamos vislumbrar na rotina dos nossos dias. Mas quando descobrimos o átomo e concebemos foguetes, começamos a conhecer múltiplos planos para a vida que talvez se sobreponham no mesmo espaço e tempo, um tempo cada vez mais relativo.

O que chamamos de mundo é mera poeira na chuva das galáxias, e quem sabe o que estamos encontrando pelos telescópios seja um nano universo dentro da célula de um cachorro, ou fragmento de um arroto cósmico.

As portas que se abrem ainda são de uma realidade que podemos enxergar ou prever. Como seria viver por séculos a bordo de uma nave espacial, rumo a um planeta habitável a anos-luz de distância da Terra? Esse é, na síntese da publicação Aventuras na História, a proposta de um concurso internacional que reuniu as melhores cabeças, desafiadas a projetar “naves de geração” capazes de abrigar até 1.500 pessoas em uma jornada interestelar de 250 anos.

Seriam embarcações autossustentáveis que garantiriam a sobrevivência da tripulação e também permitiriam que se prosperasse como uma sociedade coesa, adaptável e resiliente ao longo de gerações no espaço intergalático. O desafio teve vencedor, chamado Chrysalis, que criou uma nave de 58 quilômetros em forma de charuto. Dentro haveria moradias, parques, bibliotecas, fazendas e florestas tropicais.

Aquela gente que lá viveria a caminho do planeta prometido, uma dezena de gerações, só saberia da existência do nosso mundo fora da embarcação graças aos livros existentes nas suas bibliotecas.

Mas qual seria a percepção que teria essa gente da vida? Sabe, com tanto avanço, parece que sua real dimensão seria a eterna angústia, além das nossas crenças. Tudo parece se resumir mesmo à convivência com o mistério.

Mas, pensando nos fetos hipotéticos, acomodados no conforto do útero, será que em realidade gostariam de abrir sua porta secreta? E os habitantes da nave, nascidos e familiarizados com o mundo intra charuto de metal, estariam desejando em um dia chegar a um planeta?

As portas se abrem – ou não, depende de cada um ao decidir o caminho. Abri-las é se debruçar cada vez mais em imponderáveis possibilidades. Deixá-las fechadas é viver e morrer na particularidade da sua ilusão.