
Enquanto a equipe paralímpica de Santos brilha na primeira etapa dos Jogos Paralímpicos do Estado de São Paulo, na capital, o treinador Eduardo Leonel vê um projeto mágico e vitorioso completar vinte anos de existência: a equipe Fast Wheels.
A história começa em 2005, quando Leonel trabalhava no Centro Esportivo Rebouças, com esporte de reabilitação, e se deparou com um paratleta cadeirante. A curiosidade tomou conta do jovem ao ver uma cadeira com três rodas. “Em um determinado momento, a Prefeitura passou a encaminhar pessoas com deficiência para a academia de lá devido ao trabalho que fazíamos e nós chegamos a ter mais participantes PCDs e idosos do que os convencionais. Foi nessas indicações que surgiu Jaciel Paulino. Ele apareceu com uma cadeira diferente, com três rodas, me chamou bastante atenção”, conta. “Ele chegou dizendo que gostava de corrida de rua e começou a treinar à noite, com outro professor. Este professor indicou para que ele treinasse comigo e foi aí que comecei a entender o que era aquele esporte, pesquisar, correr atrás. Fizemos corridas regionais, depois o brasileiro e então o mundial, em 2005. Foi quando decidimos fundar a Fast Wheels”.
A trajetória de sucesso de Eduardo Leonel é resultado de muito estudo e esforço para abrir caminhos no para-desporto. O treinador ressalta que o treinamento dos paratletas é tão intenso e desafiador quanto o do atleta convencional. “Quando falamos em alto rendimento, esta é a realidade. O treinamento é intenso, com volume e carga de treinamento altos. Esporte de alto rendimento não é sinal de saúde, nem de falta dela, mas os atletas vivem o extremo, no limite, para performar da melhor forma”, afirma. “O que passamos aos treinadores é a importância do conhecimento da deficiência do atleta. Muitas vezes, os planejamentos dependem da limitação dos atletas. A deficiência não é uma doença, mas às vezes é resultado de uma doença. Então, o treinador tem que entender a origem da deficiência para aplicar o treinamento de maneira equilibrada”, conclui.
Superação?
No quesito social, Leonel tem opiniões fortes. Ele acredita que é preciso mudar a visão de que o paratleta é um herói, um exemplo de superação, só por ser deficiente e praticar um esporte. “Eu discordo disso. Nós trabalhamos para mudar essa visão. As pessoas têm que começar a enxergar o atleta pelo atleta. A deficiência é um processo. Atletas têm que ser inspiração para os outros, todo atleta tem a superação em seu dia-a-dia, e resumir um atleta paralímpico só a ‘exemplo de superação’ é diminuir esta pessoa à limitação que ela tem”, afirma. “É óbvio que o esporte é uma oportunidade para uma pessoa com deficiência, existem ainda essas questões sociais. Mas, eu não costumo associar a deficiência como um motivador. É um atleta. E existem atletas que não chegam lá, têm preguiça, não têm gás. Isso faz parte do processo”.
Ele ressalta a importância de saber diferenciar um atleta de uma pessoa com deficiência que pratica esportes. “Para ser um atleta é preciso viver como um. Dormir, comer, treinar e aguentar a pressão. Em muitos lugares, querem colocar pessoas com deficiência no esporte para competir, mas não é assim. Santos dá um salto muito grande ao instituir seu plano municipal de esportes e englobar o lúdico, social, educacional… para pessoas com deficiência”, conclui.
Potência Brasileira
O esporte paralímpico vem crescendo e conquistando seu espaço com cada vez mais força e isso é provado com os números do Brasil nos jogos paralímpicos. Em Paris 2024, por exemplo, a delegação brasileira garantiu 89 medalhas, sendo o quinto lugar na classificação geral do quadro, uma campanha histórica em que atletas e treinadores da equipe Fast Wheels tiveram participação expressiva com Beth Gomes conquistando o ouro no lançamento de disco e a prata no arremesso de peso, Vanessa Cristina figurando entre o top 10 da maratona paralímpica da classe T54 e Eduardo Leonel e Roseane Farias compondo a equipe técnica.
Esta potência, de acordo com Eduardo, se deve ao investimento brasileiro em estrutura para os esportes paralímpicos. “O Comitê Paralimpico Brasileiro (CPB) faz um trabalho incrível. Para mim, o maior legado das Olimpíadas Rio 2016 foi a construção do centro paralímpico, que hoje é um grande celeiro para novos talentos. O CPB atua também no quesito social, trabalhando para mudar paradigmas acerca das deficiências. E tem feito isso com maestria. Isso é um caminho sem volta. O Brasil tem o maior evento escolar paralímpico do mundo, por exemplo. Ainda falta muito, mas estamos no caminho”, diz.
Para além do alto rendimento, Eduardo analisa que é necessário ainda muito investimento para que treinadores possam ter maior participação na formação dos atletas. “O treinador paralímpico transita muito entre a base e a seleção, por assim dizer. E, muitas vezes, falta investimento, também porque o para-desporto é algo novo. Os primeiros movimentos para atletas paralímpicos começaram em 1945, então, ainda estamos em evolução. É preciso este investimento para que a gente possa oportunizar às pessoas com deficiências e também aos treinadores, para poderem se especializar e revelar novos talentos”.
Pela medalha
Eduardo Leonel ainda sonha e trabalha para a conquista da medalha olímpica na corrida em cadeira, modalidade que lhe inseriu no esporte paralímpico. “Eu tenho fé que ela vai chegar. É uma modalidade muito complicada de se trabalhar no atletismo. Eu não sei se seria meu encerramento ou se abriria novas portas, mas acho que para o esporte seria a abertura de uma nova trilha. Esta medalha seria a coroação de um trabalho de toda a vida”, conta.


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