Inclusão

Campanha alerta para prevenção ao suicídio em pessoas com TEA

20/09/2025 Isabela Marangoni
Ilustração/Divulgação

O Setembro Amarelo é a principal campanha de conscientização e prevenção ao suicídio no Brasil. O movimento busca reduzir estigmas, informar sobre sinais de risco e divulgar formas de ajuda, como o Centro de Valorização da Vida (CVV) e os serviços de saúde mental. Para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a campanha ganha ainda mais relevância, ao dar visibilidade a um grupo com vulnerabilidades específicas.

Riscos elevados

O TEA envolve desafios em áreas como comunicação, interação social e, em alguns casos, habilidades cognitivas. Esses fatores podem gerar isolamento, frustração e baixa autoestima, aumentando a vulnerabilidade à depressão. Além disso, dificuldades para reconhecer ou expressar emoções frequentemente atrasam o diagnóstico e o início do tratamento adequado.

Estudos indicam que a taxa de depressão entre adolescentes e adultos autistas é significativamente maior do que na população em geral. O risco aumenta diante da falta de suporte emocional e social, do bullying, das dificuldades escolares ou profissionais e do acesso limitado a serviços de saúde mental. Quando o TEA é associado à deficiência intelectual, esse risco se intensifica, ampliando sentimentos de incapacidade e barreiras ao cuidado adequado.

Suicídio e autismo

O Censo 2022 do IBGE estimou que cerca de 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de TEA, o que representa 1,2% da população. Esse levantamento ajuda a dimensionar a população que enfrenta riscos elevados de transtornos mentais, especialmente depressão, e comportamentos suicidas.

Pesquisas nacionais e da Organização Mundial da Saúde mostram que pessoas autistas têm probabilidade significativamente maior de sofrer com depressão ao longo da vida. Enquanto cerca de 15% da população apresenta sintomas depressivos em algum momento, em adultos com TEA a prevalência pode chegar a 40%.

No Brasil, ainda faltam estudos em larga escala que detalhem a incidência de depressão e suicídio entre pessoas com TEA, dificultando a criação de políticas públicas voltadas a esse grupo. Entre os fatores de risco estão isolamento social, bullying, falta de profissionais capacitados e a sobreposição entre sinais do TEA e de transtornos mentais. “Muitas vezes a depressão passa despercebida, porque é atribuída ao próprio espectro. Isso atrasa o diagnóstico e o início do tratamento”, alerta a psicóloga Paola Buck Gianini.

Para ela, a campanha Setembro Amarelo cumpre papel fundamental. “A campanha ajuda a divulgar uma realidade vivida por muitas famílias e serve de alerta para que as políticas públicas respondam a essa necessidade”, afirma.

Ela destaca fatores de risco como dificuldades de comunicação, isolamento social, sobrecarga sensorial, resistência a mudanças e comorbidades como depressão e ansiedade. Outro ponto é a chamada “camuflagem social”, quando a pessoa com TEA tenta esconder suas dificuldades para se adaptar, dificultando a percepção do seu sofrimento.

Sinais de alerta

Entre os principais sinais de sofrimento em pessoas com TEA estão: perda de interesse em atividades antes prazerosas, aumento do isolamento, regressão no autocuidado, intensificação de comportamentos repetitivos ou autoagressivos, alterações no sono e no apetite, queda no desempenho escolar ou profissional e aumento de crises emocionais. “É fundamental que esses sinais sejam avaliados por especialistas em saúde mental”, reforça Paola.

O cuidado intensivo impacta diretamente os familiares, especialmente as mães, que muitas vezes enfrentam sobrecarga física e emocional. Segundo Paola, essa dedicação pode levar à exaustão, ansiedade, depressão e sensação de solidão. “A identidade pessoal da mãe pode se diluir no papel de cuidadora, agravando ainda mais sua saúde mental”, explica. Os sinais de alerta entre cuidadores incluem cansaço extremo, crises de choro, alterações de sono e apetite, além de irritabilidade constante.

Para reduzir riscos, é essencial criar redes de apoio envolvendo familiares, escolas, clínicas e instituições de convivência. Também é necessário capacitar profissionais de saúde mental para lidar com as especificidades do TEA, além de investir em políticas públicas inclusivas e grupos de apoio entre pares. “Conhecimento é a principal arma contra o preconceito e a estigmatização. Falar abertamente sobre suicídio e as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com TEA é essencial para salvar vidas”, conclui Paola.

Se você ou alguém que você conhece está em sofrimento, procure ajuda. O CVV oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188 ou pelo site www.cvv.org.br.