
O mundo da música perdeu dois de seus grandes ícones nesta segunda-feira: Rick Davies, vocalista e fundador da banda britânica Supertramp, e Angela Ro Ro, cantora e compositora brasileira de grandes sucessos. Enquanto ele foi marcado pela discrição, ela enfrentou a vida em velocidade acelerada e em meio a muitas polêmicas e escândalos.
Ela estava internada desde julho, quando passou por uma traqueostomia. Nascida no Rio de Janeiro em 1949, Angela Maria Diniz Gonsalves recebeu esse nome em homenagem à cantora Angela Maria. Filha única, começou a estudar piano clássico na infância.
Lançou o primeiro disco, que levava apenas seu nome, em 1979. Genial como compositora e pianista e com um discurso libertário, moldado pelo humor e pela irreverência, Ro Ro ficaria para sempre associada à palavra escândalo, o que, por muitas vezes, lhe trouxe dissabores na carreira.
Em 2018, ao ser questionada pela apresentador Pedro Bial para onde havia direcionada sua compulsividade, a cantora respondeu, no programa Conversa com Bial: “Para a música, mulheres…Sim, eu sou gay”, disse.
Ro Ro, então, afirmou, nessa mesma entrevista, que foi espancada cinco vezes por homofobia nos anos 1970 e 1980, e que havia perdido a visão do olho esquerdo em uma das ocasiões. No primeiro semestre de 2025, Ro Ro pediu ajuda. Disse estar doente, sem dinheiro e com uma conta bancária bloqueada.
Muitos a ajudaram; outros tantos duvidaram – resquícios dos tempos nos quais Ro Ro se envolveu em grandes polêmicas que lhe deram a pior fama possível, em contraste ao seu enorme talento, que nunca foi questionado. Angela Ro Ro morreu sendo personagem do próprio grande escândalo – de talento e de vida – que se tornou: uma mulher gay que ousou falar de amor em uma sociedade preconceituosa.
A ALMA DO SUPERTRAMP
Rick Davies foi fundador, vocalista e pianista da banda. Ele morreu aos 81 anos em sua casa em Long Island, depois de uma longa batalha contra o mieloma múltiplo. Vai-se uma das vozes mais singulares do rock, mas permanece a música de um artista que atravessou décadas sem perder a intensidade do primeiro acorde.
Nascido em Swindon, na Inglaterra, Davies cresceu em uma família simples, embalado pelo jazz, pelo blues e pelo rock’n’roll. Foi ao piano que encontrou sua verdadeira voz, e daquele instrumento tirou a sonoridade que se tornaria inseparável de sua trajetória. O timbre inconfundível do piano elétrico Wurlitzer, aliado ao peso e calor de sua interpretação, ajudou a moldar a identidade do Supertramp.
O começo da banda foi quase um acaso. No fim dos anos 60, insatisfeito com os rumos de sua carreira, Davies colocou um anúncio em um jornal musical britânico procurando parceiros. A resposta veio de Roger Hodgson, e dessa improvável união nasceu uma das formações mais emblemáticas do rock progressivo.
No palco, Rick Davies nunca precisou de gestos grandiosos. Seu magnetismo vinha da discrição: bastava se sentar ao piano, fechar os olhos e deixar que os dedos corressem pelas teclas. Quem o viu ao vivo lembra da entrega genuína, sem artifícios, marcada apenas pelo peso da música e pela força de sua interpretação.
A vida pessoal caminhava ao lado da carreira. Sua esposa, Sue, que também foi empresária do Supertramp, esteve sempre presente, sustentando uma relação de cumplicidade e afeto. Foi ela quem o acompanhou nos anos mais difíceis, quando o diagnóstico de câncer o obrigou a interromper uma turnê em 2015.
Mesmo assim, Davies ainda encontrou energia para se apresentar em grupos menores, como Ricky and the Rockets, mantendo viva a chama de estar em contato com o público. Sua morte encerra um ciclo, mas suas composições continuam a soar como trilha de vida para milhões de pessoas.


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