Cena

Vevss Barba: grafite é instrumento para arte e resistência

30/08/2025 Da Redação
Claudio Vitor Vaz

O som da lata de spray ecoa pelo cômodo com janela para a pequena e movimentada Rua Santa Catarina, no bairro de José Menino. Era para ser uma passagem bucólica, entre a gruta de Nossa Senhora de Lurdes, no trilho do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), e a orla da praia, mas o fluxo intenso de veículos, incluindo caminhões, dá o tom urbano ao ateliê de Vevss Barba, grafiteira e artista plástica de 35 anos.

Ela mora num antigo casarão, com seus dois filhos, Alice, 11, e Pedro, 8, e com Arü, uma pessoa trans que a ajuda na divulgação do seu trabalho artístico. Nascida em São Paulo e radicada em Santos há dois anos, Vevss é o nome artístico de Veruska Luísa Barba, que se inspirou no avô paterno falecido, que era fã do humorista Mussum e a chamava de “Vevis”.

“Foi ele quem me incentivou a pintar na rua”, conta a artista, que cresceu em diferentes bairros da megalópole, de onde traz na memória o medo da rua e os desenhos que fazia nas carteiras escolares e, depois, na mesa do trabalho como atendente de telemarketing.

“Como a minha mãe (a dona Cristiane) não me deixava ir para a rua, eu me concentrava em desenhar em casa”, lembra. Na escola, Vevss desenhava na carteira, para passar o tédio: “Isso deu muito buchicho, já tive de lavar carteira. Quando cresci, também ouvia incentivos do tipo ‘vai fazer na rua, vai fazer na parede’, mas como eu sempre tive a autoestima artística baixa, tinha medo e vergonha de pintar na rua. Então, comecei a desenhar no trabalho, e já perdi trabalho por isso”.

Como ela só falava de tinta e de desenho, resolveu escutar os amigos e investir no grafite, entre 2015 e 2016, quando começou a criar coragem de pintar em muros abandonados. Mas sua arte ganhou força quando foi morar em Itapevi, Zona Oeste de São Paulo, por volta de 2022: “Pintava todos os dias, foi lá que perdi mesmo o medo da rua, como eu não queria morar em Itapevi, mas no meio do caminho tive que morar lá por um tempo, eu fiquei meio revoltada e esse foi o combustível para pintar”.

O início

No começo, grafitava imagens pequenas, para terminar rápido e voltar logo para casa, mas, com o tempo, seu medo diminuiu enquanto o desenho aumentava. Vevss não faz ideia de quantos muros pintou na Capital, mas não se esquece do maior que fez, na Estrada dos Romeiros, no Centro do município de Santana de Parnaíba (SP).

Tema recorrente na arte de Vevss, a menina negra, de olhos grandes, cabelos espalhados e sorriso torto já ilustrava os muros que pintava: “Eu a faço essa menina desde que tenho memória desenhando”, conta ela, que acredita que a personagem surgiu como resposta à advertência “neguinha não pode fazer isso ou aquilo”. Na sua arte, neguinha pode tudo, até ter um terceiro olho, como forma de demonstrar a força dessa personagem, uma quase super-heroína.

“A gente está fadada a sofrer por uma coisa que não tem escolha, como a cor da nossa pele, mas eu sinto necessidade, não só na arte, mas em tudo o que eu faço, de mostrar que a gente pode tudo. É muito legal as manas se verem representadas, minha arte é um ativismo, e o retorno é mais rentável que dinheiro”, reflete.

Morar na praia

Entre as demonstrações da capacidade de Vevss em realizar tudo o que quer está a conquista do sonho de morar na praia: “Quando eu estava nessa pira de receber advertência na minha mesa de trabalho por desenhar, comecei a pesquisar possíveis cidades litorâneas em que eu poderia morar com crianças, gato e cachorro. Eu conhecia Bertioga, mas achei muito cara”.

Em Santos, alugou uma casa no morro da Penha, e avisou a família que estava de mudança. A matriarca tentou convencer a filha para que deixasse os netos na Capital, até que conseguisse um meio de sobreviver no Litoral. Mas a filha não aceitou: “Eu disse ‘confia que vai dar certo’, mas, no início, não deu, foi bem pesado, nada dava certo, eu pensei em desistir, mas a teimosia fala mais alto. Estou aqui, resistindo”, reconhece a artista.

Entre as principais dificuldades que enfrentou em Santos foi perder os eletrodomésticos trazidos na mudança, pois eram de voltagem 110: “Ficamos sem geladeira, liquidificador, mas com o tempo foi melhorando”.

Vevss não consegue contar quantos grafites fez em Santos. Sua menina do terceiro olho pode ser vista em diversos bairros e muros da Cidade, geralmente de terrenos abandonados, de estabelecimentos lacrados ou próximos a córregos “Quanto mais eu vou pra rua, pintar, mais convites surgem. A rua movimenta o meu trabalho, é minha autodivulgação”, reconhece a artista, que também pinta objetos diversos como garrafas, cinzeiros, xícaras, acessórios e peças de roupa, que são muito procurados em feiras e internet. “Hoje, a principal fonte de renda vem da minha arte”, revela a artista, que continua fazendo bicos em restaurantes.

Em Santos, Vevss encontrou terreno fértil para crescer e se fazer representar: “Tem muito campo aqui, e eu participo de tudo o que é evento, pra ganhar visibilidade e criar pontes. Sempre estou pintando em todos os lugares para que as mulheres se sintam representadas. A gente é invisível para algumas pessoas, mas as nossas representações, de alguma forma, vão chegar a todos”.

Em tempo: neste sábado (30), a partir das 17h, Vevss vai integrar a coletiva “Mulheres no Centro”, na sede da Futrica Economia Criativa (Rua XV de Novembro, 146, Santos); e, no domingo (31), das 14h às 20h, ela faz parte do evento GaleRUA, também em Santos, na DC Conveniência (Av. Afonso Schimidt, Castelo, 1.129).

Esta reportagem, parceria do Jornal a Orla com os jornalistas Carlota Cafiero e Claudio Vitor Vaz, faz parte do projeto Por Dentro do Ateliê II, contemplado na 11ª edição do Facult. A cada 15 dias, o Jornal da Orla vai mostrar um dos 10 registros produzidos pela Carlota e pelo Claudio, que vão integrar um livro e também serão tema de uma exposição no Centro de Cultura Patrícia Galvão.