Cena

MISS recebe mostra fotopoética no Dia Mundial da Fotografia

19/08/2025 Isabela Marangoni
Claudio Freitas

Poesia e fotografia se encontram na exposição “Em Honra da Nossa Fuga”, resultado de um processo artístico que atravessou anos, parcerias duradouras e a resiliência diante de fracassos e recomeços. O projeto reúne o poeta Guilherme Monteiro, seu parceiro literário desde 1984, Mauro Panella, e o fotógrafo Claudio Freitas, em uma experiência que combina poesia, imagem e design gráfico.

Em celebração ao Dia Mundial da Fotografia, a exposição estreia hoje (19), no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS), e permanece em cartaz até 12 de setembro, com entrada gratuita, de segunda a sexta-feira, das 14 às 20 horas.

Inspirada no livro Poemas Invocados, a mostra começou há seis anos. “Eu e o Panella escrevemos juntos desde 1984. É uma amizade absurda. Quando vi as fotos do Cláudio, percebi que não era para ilustrar a poesia, mas transformar a fotografia em poesia também. Foi um casamento”, explica Guilherme.

Exposição

A mostra apresenta 30 composições fotopoéticas, selecionadas a partir de mais de 50 imagens e poemas do livro. A ideia inicial era publicar a obra, mas o projeto não foi aprovado no edital do ProAC. “Transformamos esse limão em limonada. Decidimos apostar na exposição, que foi aprovada no Facult. Meses depois, o livro também foi aprovado no Promicult. Estamos sendo abençoados”, celebra.

A curadoria é de Carlos Zibel, enquanto o design gráfico ficou a cargo de Dalton Flemming, que elaborou composições visuais integrando poesia e imagem. “Ele virou mais um parceiro. Em algumas obras, construiu o poema em torno da cabeça de um personagem. É uma integração total”, destaca Guilherme.

O conceito da mostra é urbano, social e crítico. “Nossa poesia é urbana, pop — de um pop mais antigo, inspirado em nomes como The Doors. Brincamos com a linguagem, mas também denunciamos o absurdo da vida, a miséria humana e o racismo”, explica. Um exemplo é um poema inspirado em um erro na lousa de uma professora: “Ela escreveu ‘critica midiatica’, sem acento. Para nós, aquilo virou poesia, um retrato da precariedade da educação. Não é culpa dela, é resultado de gerações despreparadas”.

O título da exposição vem de um verso de Jim Morrison. “Não quisemos usar o mesmo nome do livro, Poemas Invocados. Morrison fala sobre como construímos pirâmides e coisas enormes para justificar a fuga. Em cada imagem urbana, há uma porção de ações de fuga. Essa é nossa chave de leitura”.

Aos 72 anos, Guilherme encara o projeto como uma renovação. “É envelhecimento ativo e criativo. Muita gente se aposenta e passa o tempo. Nós não. Queremos continuar produzindo”. Ele ressalta ainda a importância dos editais públicos: “Hoje deixamos de ser apenas escritores. Temos que ser empreendedores. Só no primeiro ano, aprovamos cinco projetos”.

A expectativa é despertar novos olhares, principalmente entre os jovens. “Minha esperança é que eles descubram novas leituras, tanto nas palavras quanto nas imagens. O texto não é só palavra — é imagem também. Se saírem com essa percepção, já teremos cumprido nosso papel”.

Inspirações

Após mais de quatro décadas de trabalho em repartições públicas, Guilherme reencontrou sua voz artística na aposentadoria. “Passei 46 anos na burocracia. Isso frita o cérebro do artista. Quando me aposentei, fiquei quase dois anos sem conseguir sentar no computador”.

A retomada veio de repente. “Um dia, alguma coisa me fez retomar. Estava tudo represado. Coloquei dois, três livros prontos de uma vez. Quando a escrita é um expurgo, é difícil de entender. Mas com o tempo, a produção se apura e fica mais clara”.

Guilherme também reflete sobre o cenário cultural santista. “Falta um elemento agregador”. Ele cita iniciativas como o Café com Letras, organizado pela escritora Regina Alonso, e aponta a necessidade de maior integração. “A profusão de ações é ótima, mas é preciso organizá-las para atingir mais pessoas. Não é que a população não goste de cultura, é que ninguém mostra para ela”.

A exposição fica em cartaz até 12 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 14h às 20h, com entrada gratuita. “Nosso poema é a imagem. É imagético. A imagem é poesia escrita”, conclui.