
Funcionários técnicos e administrativos serão transferidos para o campus principal da instituição, em São Paulo
O campus Santos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), encerrará suas atividades na próxima segunda-feira (4), com a finalização da transferência dos funcionários técnicos e administrativos para o campus principal da instituição, em São Paulo. A unidade estava instalada desde 2012 no prédio do antigo Colégio Cesário Bastos, na Vila Mathias e abrigava atividades de ensino e pesquisa do curso de Engenharia de Minas e Petróleo, que foi deslocado para o Butantã em 2021. No prédio funcionavam apenas as atividades administrativas e o Laboratório Multiusuário InTRA-USP – onde atuam geólogos, engenheiros, químicos, físicos, além de pesquisadores de alunos de graduação e pós-graduação – que também será removido em 2026.
Essa remoção dos funcionários foi questionada na justiça. Trabalhadores resistentes à mudança, concursados e contratados pelo regime da CLT, que ainda atuam no prédio do Cesário, moveram uma ação tentando impedir a transferência. O juiz Samuel Angelini Morgero, da 4ª Vara do Trabalho de Santos, não concedeu a tutela antecipada, pois o contrato com a USP não prevê local fixo de prestação de serviços. No despacho, o magistrado apontou que a movimentação, por ser causada pela extinção das atividades do campus, configura em exceção prevista na CLT em casos de transferência.
“Diante da inexistência de cláusula contratual que assegure a fixação definitiva em Santos, da extinção das atividades acadêmicas na unidade local e da necessidade de continuidade dos serviços em São Paulo, não se verifica a probabilidade do direito alegado. Além disso, a concessão da liminar representaria risco de dano reverso à Administração Pública, com manutenção de servidor sem função definida e ônus ao erário, situação que compromete o interesse público”, declarou Morgero na sentença. O processo segue tramitando e as partes ainda aguardam a audiência.
DECISÃO ANTIGA
Por meio de nota oficial, a Poli-USP informa que já havia decidido pelo término do funcionamento em 2020 e que o fato foi discutido internamente em várias instâncias do estabelecimento de ensino, além de ter sido aprovado pelos conselhos do Departamento de Engenharia de Minas e Petróleo e o Técnico Administrativo da USP. Desde 2021, o único curso do campus foi transferido gradualmente para o do Butantã.
A instituição pública de ensino justifica a mudança pelo alto índice de abandono e perda de interesse dos alunos “Em 2019, apenas um candidato teria escolhido o curso como primeira opção no vestibular da Fuvest. O curso não era procurado e os que entravam em Engenharia de Petróleo em Santos tentavam trocar, o que deixava muitas vagas ociosas, causando prejuízo ao Estado”, pontuou na nota.
O aproveitamento acadêmico dos alunos em Santos era limitado, segundo a Politécnica. “Notou-se que era difícil para o estudante se manter em um local em que só há um curso, pois se perdia a vivência acadêmica e cotidiana de interação com outros cursos e alunos, além de não poder usufruir dos espaços de vivência disponíveis no campus da USP em São Paulo”, informa.
A dificuldade de infraestrutura para atendimento aos alunos, professores e funcionários foi outro fato destacado pela Poli no comunicado. “O Edifício Cesário Bastos é um prédio antigo, histórico, tombado pelo Patrimônio Público e com uma série de problemas estruturais. A restauração para adequação de um curso de Engenharia seria inviável do ponto de vista orçamentário”.
Outro fator apontado pela Universidade se refere à evolução na qualidade do curso de Engenharia de Petróleo após a mudança para o campus da Capital. “Subiu nos rankings internacionais e alcançou a melhor posição entre todos os cursos de graduação da América Latina, quando comparado internacionalmente aos seus iguais, no QS Ranking 2025”, enfatiza.
Deputados defendem permanência de atividades
A deputada estadual Solange Freitas (União) afirma que procurou as secretarias de Estado da Educação e da Ciência e Tecnologia, além do reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, para discutir o fim da Poli em Santos. “Diante dessa situação, vou discutir com o Estado e com a USP a possibilidade de abertura de cursos ligados à nossa realidade, como, por exemplo, na área portuária. Enquanto isso, em relação ao prédio, a Secretaria da Educação tem interesse em ocupar o espaço com a Diretoria de Ensino”.
Embora compreenda a justificativa de ausência de demanda de alunos na unidade, o deputado estadual Caio França (PSB) discorda do rumo adotado pela USP. “Apesar das atividades petrolíferas da Bacia de Santos não terem um cenário de crescimento concretizado, não significa que o Estado tenha o direito de nos fazer retroceder em uma conquista histórica para a região. Sou absolutamente contra o encerramento das atividades do campus Santos da USP. Estamos encaminhando requerimento de informações junto a Universidade e a secretaria de Ciência e Tecnologia, sobre a viabilidade de manter o campus, instalando outros cursos ligados à atividade marinha, logística ou portuária, para que a gente não perca essa unidade aqui em nossa região”. (JC)


Deplorável esse retrocesso. E inadmissível a inércia da sociedade, que deixou escorrer pelos dedos uma conquista histórica, ao custo de muita luta. Essa manifestação dos deputados estaduais veio tarde demais. E as alegações da USP são mera retórica burocrática. Se o curso específico não tinha demanda, abrissem-se outros. Aliás, é preciso parar com essa lógica de que focar só em cursos na área portuária-naval-petroleira. É preciso diversificar a oferta de formação e a economia local.