Cena

Britânica J.K. Rowling, genial e polêmica, chega hoje aos 60 anos

31/07/2025 Gustavo Klein
Divulgação

Quando Harry Potter e a Pedra Filosofal chegou às livrarias britânicas em junho de 1997, poucos imaginavam que o livro infantojuvenil, escrito por uma autora até então desconhecida, mudaria o mercado editorial global e influenciaria toda uma geração de leitores. Mais do que um best-seller, o universo mágico criado por J.K. Rowling se tornou um fenômeno cultural, responsável por resgatar o prazer da leitura, ampliar o alcance da literatura entre jovens e crianças e reinventar o papel da fantasia na ficção contemporânea. Ao mesmo tempo, sua criadora, Joanne Rowling, viveu uma trajetória de superação e sucesso meteórico, seguida de disputas públicas, cancelamentos e polêmicas que vêm ofuscando parte de seu legado literário.

Sucesso mundial
Nascida em 31 de julho de 1965, em Yate, no sul da Inglaterra, Rowling teve uma infância marcada pela paixão por livros e histórias. Ainda criança, escrevia contos e criava personagens. Estudou Letras Clássicas e Francês na Universidade de Exeter, trabalhou como secretária bilíngue e, depois de uma breve temporada em Portugal, voltou para o Reino Unido como mãe solo e desempregada. Passando por dificuldades financeiras e enfrentando um quadro de depressão, encontrou refúgio na escrita. Foi durante esse período que completou os primeiros capítulos de seu livro de estreia.

Com o manuscrito em mãos, enfrentou uma série de recusas de editoras até conseguir, finalmente, um contrato com a pequena Bloomsbury. A decisão de publicar sob o nome “J.K. Rowling” — ocultando seu primeiro nome, Joanne — partiu da preocupação da editora com o fato de que meninos poderiam não se interessar por um livro escrito por uma mulher. A estratégia funcionou. O livro vendeu bem, foi premiado e logo atraiu a atenção internacional. A versão americana chegou às livrarias em 1998 com o título alterado para Harry Potter and the Sorcerer’s Stone, numa adaptação que buscava tornar o termo “filósofo” mais atrativo ao público infantojuvenil dos Estados Unidos.

Harry Potter

De 1997 a 2007, Rowling publicou sete livros da série. Cada novo título que chegava às lojas era acompanhado por filas imensas, lançamentos à meia-noite e recordes sucessivos de vendas. A febre Harry Potter não apenas estimulou jovens leitores ao redor do mundo, como consolidou uma nova lógica de consumo cultural em torno da literatura. Os livros foram traduzidos para mais de 80 idiomas, venderam mais de 500 milhões de cópias e originaram uma franquia de oito filmes que também bateu recordes de bilheteria.

Com personagens complexos, temas como morte, lealdade, preconceito, política, liberdade e identidade foram tratados de forma acessível e cativante. A ambientação mágica de Hogwarts, os dilemas morais vividos por Harry e seus amigos, os vilões carismáticos e o universo repleto de criaturas fantásticas conquistaram leitores de todas as idades. A criação de Rowling se tornou referência na cultura pop e acadêmica, influenciando desde a formação de clubes de leitura até pesquisas em literatura comparada, filosofia e educação.

Obras adultas

Depois do fim da saga, Rowling se dedicou a novos projetos. Em 2008, lançou Os Contos de Beedle, o Bardo, livro de fábulas do universo bruxo. Em 2012, publicou Morte Súbita, seu primeiro romance voltado ao público adulto, com tom satírico e crítica social. Em 2013, estreou no gênero policial sob o pseudônimo Robert Galbraith, com O Chamado do Cuco, primeiro da série protagonizada pelo detetive Cormoran Strike. Ao ser revelada como autora do livro, as vendas dispararam.

Além da literatura, participou ativamente da produção dos filmes derivados Animais Fantásticos, escreveu roteiros originais, colaborou com o site Pottermore e continuou expandindo o chamado “mundo bruxo”. Criou também a peça Harry Potter and the Cursed Child, encenada em Londres a partir de 2016, que propõe uma continuação da história com os filhos dos personagens principais.

Figura pública

Apesar do prestígio literário e do sucesso comercial, Rowling passou a enfrentar crescente rejeição pública nos últimos anos, em especial por declarações envolvendo a comunidade trans.

Comentários publicados em seu perfil no X (ex-Twitter), bem como textos em seu site pessoal, foram considerados transfóbicos por ativistas, fãs e parte da crítica. Embora afirme que apoia os direitos das pessoas trans, Rowling defende a centralidade do sexo biológico em legislações voltadas a mulheres, o que motivou boicotes, protestos e o afastamento público de atores da franquia cinematográfica, como Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint.

O embate polarizou parte da base de fãs, dividindo quem critica sua postura e quem a defende em nome da liberdade de expressão. As polêmicas também levaram a debates sobre separação entre autor e obra, e sobre os limites da influência pública de figuras literárias. Em resposta, Rowling manteve sua posição e intensificou sua atuação em causas que considera prioritárias, como o apoio a vítimas de violência doméstica e o financiamento de projetos educacionais através de suas fundações.

Legado

Mesmo diante das controvérsias, J.K. Rowling segue como uma das autoras mais influentes do século XXI. Estima-se que sua fortuna ultrapasse os 600 milhões de dólares — valor que já foi maior, mas foi parcialmente destinado a ações filantrópicas. A escritora é fundadora da Lumos, voltada à proteção de crianças institucionalizadas, além de apoiar projetos relacionados à saúde, educação e assistência a mães solo.

Em sua biografia, o que chama atenção não é apenas o sucesso literário, mas a trajetória que mistura fracasso, reinvenção, persistência e ousadia. Rowling transformou o mercado editorial, atraiu gerações inteiras para o universo dos livros e construiu um mundo ficcional complexo que continua vivo nos corações de milhões de leitores.

Ao mesmo tempo, seu percurso recente levanta questões sobre responsabilidade, impacto e os dilemas enfrentados por figuras públicas em tempos de redes sociais e identidades em disputa.