Cena

Emily Brontë, a escritora de uma única obra que marcou a literatura

30/07/2025 Gustavo Klein
Reprodução

Poucas escritoras produziram tão pouco e deixaram tanto. Com apenas um romance publicado em vida, Emily Brontë se firmou como uma das vozes mais intensas e misteriosas da literatura inglesa do século XIX. O Morro dos Ventos Uivantes, lançado em 1847 sob o pseudônimo Ellis Bell, foi recebido com espanto e até repulsa, mas acabou se tornando uma obra-chave da literatura ocidental, relida ao longo das décadas por diferentes gerações, escolas críticas e movimentos culturais.

Selvagem, indomável e radical em sua visão da paixão humana – seja no amor ou no ódio, o livro é hoje visto como um marco da ficção moderna e um campo fértil para interpretações feministas e sociais.

Emily morreu aos 30 anos, em 1848, sem saber do futuro que teria sua obra e sem deixar outros romances ou diários. A escassez de registros pessoais contribui para o fascínio duradouro por sua figura. Quem foi, de fato, essa mulher reclusa de Yorkshire que escreveu um dos romances mais perturbadores da literatura? Como um livro tão estranho à sua época conquistou status de clássico e influenciou autores, cineastas, músicos e leitores ao redor do mundo?

Vida de silêncio

Emily Brontë nasceu em 1818 em uma região rural do norte da Inglaterra. Filha de um pastor anglicano e de uma mãe que morreu cedo, cresceu com os irmãos Charlotte, Anne e Branwell em uma casa isolada cercada por pântanos, colinas e vento. O cenário inóspito moldou seu imaginário. Desde cedo, os irmãos criaram mundos ficcionais com regras e personagens próprios. Emily, em especial, desenvolveu um apego visceral à solidão e à natureza. Passava horas caminhando pelos campos, lendo e escrevendo.

Teve experiências breves como aluna e professora, mas sempre retornava à casa da família. Era avessa à convivência social e desconfiada da vida fora de Haworth. Sua personalidade reservada se refletia no modo como lidava com a literatura. Quando Charlotte descobriu que Emily escrevia poemas, ficou impressionada com a força das imagens e a densidade emocional dos versos. A publicação conjunta de poemas das irmãs sob pseudônimos masculinos foi o primeiro passo para o surgimento do romance.

Tempestade

O Morro dos Ventos Uivantes foi lançado pela editora Thomas Cautley Newby quase ao mesmo tempo que Jane Eyre, de sua irmã Charlotte. Os dois livros foram comparados, mas enquanto Jane Eyre agradou o público vitoriano com sua heroína moral e sua ascensão social, o romance de Emily foi acusado de brutalidade, perversão e mau gosto. Os críticos da época não estavam preparados para personagens tão duros, para a presença constante da morte e para uma história que não propunha redenção nem consolo.

Heathcliff, um órfão de origem incerta, e Catherine Earnshaw, herdeira da propriedade, vivem uma paixão que não cabe nas regras do mundo. A ligação entre os dois é absoluta, mas também destrutiva. Quando Catherine decide se casar com Edgar Linton para manter seu status, Heathcliff parte e volta anos depois, transformado em um homem sombrio, disposto a se vingar de todos que o afastaram de seu amor.

O romance, narrado por dois personagens que contam a história em camadas, mistura elementos góticos, crítica social e uma visão radicalmente trágica da existência. Ao contrário das convenções do romance vitoriano, não há personagens bons ou ruins: todos são atravessados por ambivalências, ressentimentos e escolhas que conduzem à dor.

Redescoberta

Com o tempo, a crítica começou a reconhecer a originalidade de Emily. A força da narrativa e a ousadia de seu estilo foram mais fortes do que a crítica despreparada. Para críticos feministas, o romance é uma denúncia da violência doméstica, da opressão de classe e das imposições sociais sobre as mulheres. Catherine se recusa a ser contida por seu papel na família e na sociedade. Heathcliff, com sua origem marginal e sem linhagem, escapa das normas sociais e desafia o modelo de herói romântico.

Autoras como Virginia Woolf, Simone de Beauvoir e Jean Rhys enxergaram em Emily uma pioneira da escrita de mulheres sobre o desejo, o corpo e a morte. Woolf chegou a dizer que ela escrevia “não para agradar ou convencer, mas porque precisava”.

Influência

A presença de O Morro dos Ventos Uivantes na cultura popular não parou de crescer. A adaptação de 1939, com Laurence Olivier e Merle Oberon, deu ao romance um tom mais sentimental, mas manteve a força da relação entre os protagonistas.

A canção de Kate Bush, Wuthering Heighs, lançada em 1978, tornou Catherine uma figura fantasmagórica e consolidou a imagem gótica da obra. O romance foi citado por músicos, estilistas, artistas e aparece em filmes, séries e livros contemporâneos.

Além da clássica adaptação de 1939, dirigida por William Wyler, O Morro dos Ventos Uivantes foi levado várias vezes ao cinema e à televisão. Em 1992, Ralph Fiennes e Juliette Binoche protagonizaram uma versão mais fiel ao romance completo, incluindo a segunda geração de personagens.

Na televisão, as versões foram ainda mais numerosas, com produções feitas pela BBC e por emissoras dos Estados Unidos e da Europa. A minissérie da ITV exibida em 2009, estrelada por Tom Hardy como Heathcliff, deu ênfase ao caráter destrutivo do protagonista e atraiu nova geração de fãs.

Em 2003, a MTV produziu uma versão contemporânea do romance, ambientada na Califórnia, com jovens ricos e tramas de vingança no estilo soap-opera adolescente. Apesar da recepção morna, essa adaptação escancarou o quanto a estrutura da história original — paixões obsessivas, ressentimentos familiares, confrontos entre classes — segue eficaz.

Na cultura pop, os nomes de Heathcliff e Catherine ultrapassaram os limites do romance e viraram referência. Os pais do ator australiano Heath Ledger escolheram o nome do filho inspirados no protagonista de Emily Brontë, e o mesmo aconteceu com sua irmã, Catherine.

O romance também aparece em músicas de bandas como The Cure e HIM, em referências sutis em séries como Friends, Gossip Girl e Skins, e na construção de personagens de filmes como Crepúsculo e O Segredo de Brokeback Mountain. A ideia de um amor impossível, autodestrutivo e inesquecível, tão central ao livro, continua reverberando em muitas camadas da cultura contemporânea.

A figura de Emily Brontë — uma mulher que escreveu uma obra única, morreu jovem e viveu à margem do mundo — também se tornou símbolo de liberdade artística. Quase dois séculos após sua morte, ela continua sendo lida. Um feito extraordinário para quem escreveu apenas um romance, sem nunca ter saído do interior da Inglaterra.