Cena

‘Superman’ é tudo o que se espera de uma boa adaptação das HQs

16/07/2025 Allanis Rebelo
Divulgação/Warner

Essa com certeza não é apenas uma crítica. É quase uma carta aberta de agradecimento a James Gunn, vinda de uma fã apaixonada por filmes de super-heróis. Superman (2025) estreou na última quinta-feira (10) nos cinemas do Brasil e, como era de se esperar, já é um sucesso.

Superman é tudo o que se espera de uma adaptação de quadrinhos, especialmente quando falamos de um dos maiores ícones da cultura pop: é nostálgico, inteligente, recheado de referências, mas sem cair na armadilha do fanservice fácil. O filme é uma verdadeira aula sobre como trazer as páginas ilustradas, cheias de fantasia e emoção, para as telas do cinema com propósito.

E o que dizer do novo Superman de David Corenswet? Que carisma! Em vários momentos, me senti como uma cidadã de Metrópolis, esperando ser salva, cheia de esperança em meio ao caos. Os elogios vão do retorno do clássico uniforme (sim, a cueca por cima da calça está de volta!) até a delicada construção da relação do herói com suas famílias – tanto os pais biológicos kryptonianos quanto os adotivos humanos.

O elenco parece ter nascido para os papéis. Rachel Brosnahan e Nicholas Hoult brilham como Lois Lane e Lex Luthor. Nem todo mundo fica bem careca, mas Hoult entrega um Luthor que exala inveja e ambição. Em certos momentos, é impossível não sentir raiva do personagem, o que apenas prova a força da atuação. Já a química entre Rachel e David é impecável, vibrante, do tipo que a gente torce para ver o beijo de final feliz, e spoiler: ele acontece.
Outro grande acerto do filme foi a construção de Lois Lane. Ela finalmente volta a ser o que sempre deveria ter sido: uma jornalista destemida, perspicaz e essencial para a narrativa. Nada de papel secundário ou interesse romântico apagado. Lois investiga, questiona, desafia autoridades e influencia diretamente os rumos da história.

Em tempos em que o jornalismo é colocado à prova, vê-la como uma mulher poderosa dentro da redação e fora dela, exercendo sua profissão com coragem e inteligência, é não só fiel às origens da personagem como também extremamente relevante. James Gunn entendeu que Lois não é coadjuvante. Ela é protagonista ao lado do Superman.

Krypto, o supercão, é um dos grandes acertos de Superman. Mais do que um simples alívio cômico, ele rouba a cena com carisma. A escolha de incluir o personagem reforça a habilidade já conhecida de James Gunn em transformar figuras, especialmente criaturas e animais, em peças centrais da narrativa. Basta lembrar de Rocket e Groot em Guardiões da Galáxia e de Tubarão-Rei em O Esquadrão Suicida.

Mas nem tudo é perfeito. Um dos arcos envolvendo os kryptonianos pode dividir opiniões. A decisão de revelar que Superman foi enviado à Terra com o propósito de governar, mesmo que Kal-el só venha descobrir mais tarde, é ousada, e pode desagradar fãs mais tradicionais do universo DC. Ainda assim, a escolha adiciona camadas interessantes à história, levantando questionamentos sobre livre-arbítrio, legado e poder.

POLÍTICA

Outro ponto forte do filme é a abordagem geopolítica. Pela primeira vez em muito tempo, os Estados Unidos não ocupam o papel central da narrativa, e talvez até sejam parte do problema. A guerra entre as nações fictícias de Borávia e Jarhanpur, com tanques, soldados e civis em situação de extrema vulnerabilidade, ressoa uma metáfora clara para conflitos contemporâneos, como o embate Israel-Palestina.

A crítica não é sutil. O filme nos força a pensar: quem realmente representa a ameaça? São os alienígenas? Ou os próprios humanos, alimentando guerras que se repetem há décadas?

James Gunn sempre teve um olhar aguçado para temas políticos e sociais. Declaradamente crítico de figuras como Donald Trump, o diretor já foi alvo de boicotes por suas posições. Hoje, à frente da DC Studios, Gunn assume o desafio de reinventar o universo cinematográfico com coragem e uma boa dose de provocação.

Num mundo onde líderes autoritários voltam a ganhar espaço e bilionários com delírios de grandeza, como Elon Musk (é bom citarmos o paralelo com o Lex aqui), tentam se colocar como salvadores da humanidade, o filme levanta uma questão incômoda: o que acontece quando confiamos demais em figuras de poder? Quando acreditamos que alguém, por vir de outro planeta (ou de um lugar de privilégio), está automaticamente apto a nos guiar?

Superman de 2025 é mais do que um blockbuster. É entretenimento com consciência política. Um filme que entende seu tempo e seu público, e, acima de tudo, respeita a inteligência de quem está assistindo. Um ótimo filme não apenas por sua qualidade única, mas por ser um ponto de partida eficiente para o novo Universo DC.