Cena

Zélia Gattai, uma contadora de histórias em textos e imagens

02/07/2025 Gustavo Klein
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Quem vê Zélia Gattai sorrindo em tantas fotos espalhadas pelo Brasil talvez não imagine o turbilhão de vidas que ela carregava por trás dos óculos discretos. Filha de imigrantes italianos, nasceu em São Paulo em 2 de julho de 1916, no bairro do Belém, aquele reduto operário que pulsava entre fábricas, bares e reuniões políticas. Desde cedo, Zélia já misturava na veia a coragem anarquista herdada do pai com a delicadeza poética que logo explodiria em páginas e mais páginas, numa prosa que parecia conversa de varanda em fim de tarde.

A infância de Zélia foi marcada pelas reuniões agitadas na casa cheia de vozes e ideias. O pai, Ernesto Gattai, era um revolucionário anarquista, militante ferrenho que sonhava mudar o mundo a partir do quintal. A mãe, Angelina, segurava as pontas com firmeza e afeto, mantendo a casa viva, cheia de panelas borbulhando, crianças correndo e conversas acaloradas sobre política, literatura e pão fresco. Essa atmosfera efervescente moldou a personalidade curiosa, contestadora e ousada de Zélia, que desde pequena preferia observar o mundo pelas frestas das janelas do que ficar quieta em canto nenhum.

Na juventude, frequentou cursos de francês, literatura, artes e outras atividades para arejar a mente. Nunca teve diploma universitário, mas isso não a impediu de aprender mais que muita gente graduada. Foi no Rio, em 1945, que a vida virou de cabeça para baixo: conheceu Jorge Amado, recém-separado, e ali começou uma das parcerias literárias mais comentadas do país.

AMOR E INTELECTO

O relacionamento com Jorge não era só amoroso: era uma parceria intelectual vibrante. Juntos, viveram no exílio em Paris, em Praga e em outros lugares, fugindo da repressão política que assombrava o Brasil nas décadas de 1940 e 1950. A convivência com artistas, militantes e intelectuais pelo mundo foi alimentando a bagagem de Zélia, que ia registrando tudo com seu olhar atento e um afeto quase fotográfico.

Apesar de passar anos dedicada a apoiar Jorge e cuidar dos filhos, Zélia não ficou só no bastidor. Foi fotógrafa apaixonada, documentando as viagens, festas, visitas e toda a vida pulsante da lendária casa do Rio Vermelho, em Salvador. Essas imagens ajudaram a formar o acervo que hoje integra o Instituto Jorge Amado e serviram de base para livros, exposições e muitas lembranças que ainda circulam por aí.

ANARQUISTAS

Só em 1979, aos 63 anos, Zélia estreou como escritora com “Anarquistas, Graças a Deus”. O livro, escrito com um tom quase de prosa falada, narra a infância no bairro operário paulistano e a saga de sua família anarquista. O sucesso foi imediato — tanto que virou minissérie na TV Globo em 1984, dirigida por Walter Avancini. A adaptação, em quatro capítulos, aproximou ainda mais o público brasileiro da história de Zélia, criando uma legião de leitores curiosos por aquela voz doce e rebelde ao mesmo tempo.

Depois disso, ela seguiu firme. “Um Chapéu para Viagem” (1982) aprofunda as memórias do exílio, já mostrando sua habilidade em costurar lembranças pessoais com as feridas e alegrias do país. Em seguida vieram “Jardim de Inverno” (1988), “Senhora dona do baú” (1992), “Chão de Meninos” (1992) e “Códigos de Família” (1997). Em todos, Zélia manteve o tom confessional, simples e cheio de emoção, como se estivesse contando causos num café demorado, com bolo saindo do forno.

ACADEMIA

Em 2001, Zélia assumiu a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, vaga deixada por Jorge. Foi a terceira mulher a ocupar uma cadeira na instituição, num feito que coroou, para muitos, sua independência intelectual construída com paciência, afeto e muito humor.

Fora das páginas, a vida de Zélia era um romance com capítulos longos, repletos de visitas, amigos, gatos e histórias. A casa do Rio Vermelho virou ponto turístico antes mesmo de abrir oficialmente, tamanha a mística que envolvia o casal. Ali, entre plantas e esculturas, ela recebia de artistas famosos a vizinhos curiosos.

Zélia morreu em 17 de maio de 2008, em Salvador, aos 91 anos. Pouco antes de partir, pediu que suas cinzas fossem jogadas no jardim da casa do Rio Vermelho, junto às de Jorge. Ali, entre as plantas, os gatos e as histórias que continuam ecoando, descansam juntos para sempre.

AFETO

Na literatura brasileira, Zélia Gattai foi muito além de “a esposa de Jorge Amado”. Foi cronista da própria vida, guardiã das memórias de uma geração, fotógrafa das pequenas grandezas e narradora que soube transformar simplicidade em arte. A cada página, a cada clique da câmera, ela deixava pistas de uma mulher que viveu intensamente, riu das próprias contradições e transformou a vida num álbum cheio de afeto.

Na certa, se ainda estivesse por aqui, Zélia diria que não foi nada além de uma contadora de histórias. Mas, para quem lê ou assiste a “Anarquistas, Graças a Deus”, fica claro: ela foi também a própria história em si.