Cena

O adeus a um ícone da cultura e da boemia santista: Eduardo Caldeira

24/06/2025 Gustavo Klein
arquivo pessoal/mônica petroni mathias

Morreu na madrugada desta segunda-feira, em Santos, aos 80 anos, o empresário, agitador e produtor cultural Eduardo Caldeira. Nome marcante da noite santista, Eduardo esteve à frente de casas como o Bar da Praia, verdadeiro reduto da intelectualidade com programação eclética, com Bossa Nova, MPB e jazz. Por lá passaram nomes como Johnny Alf, Arismar do Espírito Santo e Dori Caymmi.

Caldeira deixou marcas por onde passou, seja no Bar da Praia, no Barnabé ou no Reciclagem. Criou o Pasteleco, no Parque Balneário, e pilotou iniciativas como o Conversa de Botequim. Tinha amigos, muitos amigos. Johnny Alf chegou a compor uma música para ele e o Bar da Praia, cantando Santos e o próprio Caldeira na letra.

Vazio na cultura

A morte de Eduardo deixa um vazio na cultura da cidade. A jornalista Ivani Cardoso, amiga pessoal, lamenta: “Perdi um parceiro da minha história de vida. Com ele e Mônica realizamos festas históricas como do cinema e TV. Fez dos seus bares um espaço de encontros, boa música e alegria. Vivemos tempos inesquecíveis nas Conversas de Botequim”.

Ela lembra da programação impecável: “Johnny Alf fez música para ele. Nana Caymmi adorava Edu. Até Joãozinho Trinta ele trouxe para falar no Bar da Praia. Eduardo não deixa um vazio, deixa uma multidão que teve o privilégio de conviver com ele”.

A vice-prefeita de Santos, Audrey Kleys, recorda: “O querido Eduardo faz parte da história de Santos e da minha vida. Minha mãe nos levava para visitar minha tia, que trabalhava em uma loja no Parque Balneário, e se tornou tradição ir, logo depois, ao Pasteleco para comer os pastéis criativos que ele inventava. Isso jamais sairá das minhas memórias de criança”.

Geraldo Pierotti, ex-presidente da Fundação Pinacoteca, disse: “Era uma grande figura humana, gentil, elegante e generosa. Deixa uma lacuna difícil de ser preenchida”.

Palco para fantasias

Luis Dias Guimarães lembrou com poesia: “Por muito tempo o Edu propiciou palco para amplas fantasias. No Bar da Praia criamos juntos a célebre Conversa de Botequim, que reunia todas as espécies”. Para Edison Carpentieri, “Santos amanheceu triste. O Bar da Praia foi o retrato dos anos dourados da cidade. Eduardo deixa um legado de alegria, honradez e felicidade”.

O escritor Flávio Viegas Amoreira comparou Eduardo a um personagem de cinema: “Era a elegância encarnada nos trópicos, um Bogart à porta do Rick’s Bar de Casablanca. Um agregador, que recuperava nossa autoestima nos anos de chumbo”.

A presidente da Academia Santista de Letras, Taís Curi, frisou: “Santos sofre uma de suas maiores perdas na vida cultural noturna. Eduardo construiu ao longo dos anos um ambiente único de amizade e arte. Guardo as melhores lembranças, especialmente da gentileza dele”.

Julinho Bittencourt lembrou: “Com ele não colava aquela história de que quem gosta de beleza interior é decorador. Eduardo foi o homem mais bonito de Santos. E tudo o que ele fazia era lindo. Era inovador. Os bares dele sempre tinham algo diferente e marcante”.

Julinho destacou também o Conversa de Botequim: “Foi pioneiro, um programa de entrevistas ao vivo, com personalidades. Ele subia o sarrafo, porque tudo o que fazia tinha muita qualidade”.

Talentos despertados

Entre os artistas, a cantora Mariana Azzi disse: “O melhor anfitrião que já conheci. Uma honra ter começado no Barnabé”. Tite Franco afirmou: “O cara que me colocou na cena musical santista. Uma perda irreparável para a Cultura Zero Treze”.

Jamir Lopes afirmou: “A cidade amanheceu mais triste, bruta e cafona sem o admirável amigo Edu”. O psicólogo Arlindo Salgueiro reforçou: “Ele marcou gerações com seus ideais e exemplo”. Zerri Torquato disse: “Um grande empreendedor e, acima de tudo, uma pessoa extraordinária”.

A Secretaria de Cultura de Santos lamentou a perda. O secretário Rafael Leal resumiu: “A história da cultura em Santos tem a marca de Eduardo em muitos momentos”. O prefeito de Santos, Rogério Santos, lamentou a morte de Eduardo Caldeira e ressaltou sua importância para a cultura local: “O Caldeira representa a cultura santista no sentido mais amplo. A cultura acessível a todos, a boa música, a boa gastronomia, o empreendedor que investiu no entretenimento, nos grandes bares que fizeram tanto sucesso. Fica a saudade de muita gente que frequentou o Bar da Praia, um símbolo da cidade”.

O velório de Eduardo Caldeira aconteceu ontem, das 18 à meia-noite, na Beneficência Portuguesa. Ele será cremado em Jacareí, em cerimônia restrita à família.