Cena

Morre aos 91 anos o ator Francisco Cuoco, ícone da televisão brasileira

20/06/2025 Gustavo Klein
Arquivo pessoal

Francisco Cuoco, símbolo eterno dos galãs da nossa tevê, se foi nesta quinta‑feira, 19 de junho de 2025, aos 91 anos, deixando uma lacuna imensa na dramaturgia brasileira. Internado por cerca de 20 dias no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, Cuoco lutava bravamente contra os efeitos da idade avançada e uma infecção decorrente de um ferimento, o que acabou agravando seu estado de saúde. Reconhecido por sua voz grave e expressão marcante, o ator construiu uma carreira sólida a partir dessa presença forte, que se tornou sua marca registrada.

Nascido em 29 de novembro de 1933, no Brás, em São Paulo, em uma família de origem italiana humilde, Cuoco começou a trabalhar desde cedo na feira, ao lado do pai, antes de se dedicar à Escola de Arte Dramática. A transição para os palcos e, logo em seguida, para a televisão, se deu com teleteatros na TV Tupi, até que chegou ao estrelato com a novela Marcados Pelo Amor, em 1964, na TV Record, e depois definitivamente com a Globo a partir de 1970.

O auge da sua popularidade veio com personagens icônicos que marcaram gerações. Em Selva de Pedra (1972), contracenou com Regina Duarte num par romântico inesquecível; em Pecado Capital (1975), viveu o carismático Carlão, um taxista que conquistou o Brasil; e em 1977 eternizou-se como Herculano Quintanilha, o místico do O Astro — papel que ajudou a consolidar a teledramaturgia como algo quase mitológico em nossas vidas. Papéis como Alex Garcia em O Semideus, Victor Amadeu em Duas Vidas, Salviano Lisboa em Pecado Capital e muitos outros compõem um currículo invejável.

Em maio deste ano, em uma conversa sincera, o ator já debilitado, com cerca de 130 kg e dificuldades de locomoção, expressou orgulho de sua trajetória e disse, com simplicidade e serenidade, que agora só queria “tocar o barco”. Mesmo com limitações físicas, Cuoco manteve o espírito ativo e a mente afiada, dizendo que assistia mais a jornal e cinema do que novelas — as mesmas que o consagraram anos atrás.

A importância de Cuoco para a cultura nacional é enorme: ele foi pilar da transição da novela para um fenômeno popular, trabalhando em perfeita sintonia com Janete Clair para criar emoções coletivas, momentos de delírio nacional que até hoje se conversam no imaginário de quem cresceu assistindo. Para críticos e colegas como Rodrigo Lombardi, Cuoco era “uma síntese de todos os grandes”, prova viva de que energia e talento podem vencer o tempo.

Além da televisão, teve atuações fortes em cinema e teatro, participou de séries e reprisal de personagens que marcaram época — incluindo o remake de ‘O Astro’, em 2011, onde encarnou um personagem referencial, e fez parte de novelas até o início dos anos 2020. Sua voz rouca e presença imponente atravessaram décadas, e seu legado é, antes de tudo, humano: artista que estudou, batalhou, conquistou o público e se reinventou até o fim.