
Ativista, escritora, coordenadora da iniciativa Feminismos Plurais e caiçara de coração, Djamila Ribeiro voltou a Santos, cidade que adotou como sua, para gravar um documentário biográfico que revisita sua trajetória e os laços com a Baixada Santista. Confira o bate-papo.
O que te motivou a se tornar uma ativista do feminismo negro?
Eu brinco que não tive muita opção. Meu pai era ativista do movimento negro aqui em Santos e minha mãe também sempre foi muito ligada aos movimentos culturais da cidade, do Balé Afro de Santos. Não tive muita opção, desde criança. Eu cresci dentro desse tipo de atmosfera e meu pai e minha mãe, desde cedo, falavam que tínhamos que ser conscientes do que significava ser negro nessa sociedade e da importância de se envolver coletivamente.
Como você definiria o feminismo negro em poucas palavras para quem está começando a se interessar pelo tema?
Não é uma divisão. Não estamos dividindo, não estamos competindo. Quando falamos de feminismo negro, estamos ampliando o debate e dizendo que todas as mulheres importam. Estamos dizendo que a pauta não é para um tipo específico de mulheres. É para mulheres brancas, negras, indígenas. Falamos de todas as intersecções de raça, de classe e da importância de ampliarmos as possibilidades de ser mulher e entender que, se somos feministas e existem mulheres negras, o movimento feminista necessariamente tem que ser antirracista. Se existem mulheres que são pobres, o movimento feminista necessariamente precisa ser um movimento que luta contra esse tipo de opressão. Então, ao contrário do que as pessoas pensam, estamos aqui para ampliar essa visão do que é o feminismo.

Como você enxerga o papel da educação na luta contra o racismo estrutural?
É fundamental que se tenham políticas públicas na área da educação, para trabalhar desde o ensino de base, para formar cidadãos que já saiam da escola com essa visão de entender o que é o racismo, porque durante muitos anos o nosso país se escamoteou esse debate, entender que o racismo não é um problema individual, estamos falando de uma estrutura, de um país que teve séculos de escravidão. A importância do reconhecimento desse passado para que a gente possa agir no presente, para ter ações de fato que contribuam para diminuir essas desigualdades no nosso país.
O que significa para você ser uma mulher negra escrevendo e ocupando espaços na academia e na mídia?
É importante, mas é um desafio também, porque às vezes as pessoas não estão tão acostumadas com esse tipo de presença. Ao mesmo tempo que é importante, não estou representando só a mim mesma. Essa visão é sempre fundamental, eu também sou fruto de uma luta coletiva. Para eu estar aqui hoje, foram muitas mulheres que lutaram. Ter essa visão sempre de que é fruto de lutas históricas, para mim, é sempre importante como um guia, para a gente não se achar acima, uma luta é sempre maior do que todas nós.
Que conselhos você daria para jovens negras que desejam escrever e publicar suas ideias?
Estude muito. Conhecer quem veio antes é muito importante. No meu trabalho, nos meus livros, eu sempre cito as mulheres que vieram antes. É importante saber que não estamos começando agora. Eu tenho uma filha da geração Z, e às vezes eles são muito apressados, sobretudo com as redes sociais.Eu sempre digo: ‘conheça a sua história, conheça a história do Brasil’, para você saber como que você vai se posicionar dentro disso, como que você vai levar adiante essa história. Porque é uma responsabilidade da nossa geração – e da mais nova – entender como fazer essa história ir adiante, não parar por aqui.
Como você vê a presença e o impacto das mulheres negras na política brasileira?
Tem um impacto que poderia ser maior. Somos poucas dentro desses espaços, acreditamos que precisamos ter mais apoio, mais fortalecimento dentro da política, mas sabemos também que quando têm, vemos mudanças que são importantes, porque essas mulheres trazem, não só nas suas experiências, mas uma visão mais ampla de olhar a sociedade por uma perspectiva que muitas vezes as pessoas não estão olhando. n


Uma reflexão importantíssima , clara e objetiva para guiar as mulheres o caminho que devemos seguir .observavoes super relevantes . Estou feliz de ter encontrado Djamila , verdadeira inspiração !