
Nas ruas do Centro Histórico de Santos, um passeio noturno vem ganhando destaque ao unir teatro, terror e história local em uma experiência única. Idealizado pelo escritor e cineasta Dino Menezes, o Passeio Assombrado conduz o público pelos mistérios que inspiraram seu livro ‘Contos de Terror e Lendas Macabras da Ilha de Santos’, revelando as histórias sobrenaturais e lendas que permeiam a cidade.
Embora passeios de terror pelas ruas sejam comuns em algumas cidades do mundo, Menezes, que também é ator, imprimiu ao projeto um tom teatral especial. “A ideia inicial envolvia atores e produção, mas os custos ficaram inviáveis. Então adaptei para um formato mais direto: eu, com um megafone, contando as histórias para o público”, explica.
O diferencial do passeio está justamente em narrar as histórias nos locais onde os eventos aconteceram, criando uma imersão visceral que marca os participantes. “O percurso dura cerca de duas horas e passa por pontos como o crime da mala de Maria Fea, o espírito do pirata Thomas Cavendish e até o fantasma de Zé Bonifácio. Visitamos locais emblemáticos, como o Pantheon dos Andradas e a Prefeitura, o que confere uma dimensão única à experiência”, conta Menezes.
CONTOS E LENDAS
As histórias são fruto de extensa pesquisa, combinando fatos históricos, lendas locais e uma pitada de ficção para manter o público curioso até o final. “Misturo documentos e relatos reais com elementos criativos. Por exemplo, a história da Maria Fea e a Casa da Frontaria Azulejada têm base documental, mas dou um toque ficcional para torná-las mais atraentes. Ao fim, a verdade e a ficção se misturam, formando uma grande narrativa da cultura local”.
O projeto é gratuito graças ao apoio da Prefeitura de Santos, por meio da Secretaria de Cultura (Secult), e busca preservar a tradição oral em uma cidade que, por ser grande, tende a perder esse tipo de memória. “Cidades pequenas mantêm essas histórias vivas com mais facilidade, mas aqui elas se dispersam. Meu livro ajudou a catalogar essas narrativas que antes estavam espalhadas”.
Mais do que contar histórias, o passeio provoca sensações e reflexões no público. “É muito interativo, converso com quem participa e pergunto o que estão sentindo. Às vezes, acontecem coincidências que dão um ar quase sobrenatural ao percurso. Brinco que os fantasmas da cidade estão nos observando”, conta.
A repercussão tem sido muito positiva, e o passeio atrai público de várias regiões e até do exterior. “Já tivemos pessoas do Nordeste, de São Paulo e estrangeiros, mesmo sem tradução. O público de Santos abraçou o projeto com muito carinho”.
A organização do passeio conta com uma equipe dedicada e o apoio da Guarda Municipal, garantindo a segurança dos participantes. “Temos um trabalho grande que vai do atendimento e segurança até a produção de material de divulgação. Atualmente, conseguimos fazer um passeio por mês, mas o sonho é ampliar a frequência”.

Durante o percurso, que inclui caminhadas e paradas em pontos preparados especialmente para o público, o clima é de respeito e emoção. Na Prefeitura de Santos, por exemplo, ocorre uma votação divertida para saber quem acredita em fantasmas. “Desde o início, explicamos o respeito pelos espíritos. Ninguém brinca com isso — é incrível. Claro, há momentos de humor, mas predomina a emoção”.
O sucesso, segundo Menezes, está na fluidez do passeio, que mistura história e ficção sobrenatural, permitindo que cada participante tenha sua própria leitura. “Tem gente que sente, que acredita, e outros que não. É como tocar violão: algumas pessoas têm sensibilidade, outras não”.
Além do entretenimento, o projeto tem forte valor cultural e turístico. “Santos tem 479 anos de história — desde invasões de piratas como Thomas Cavendish até a independência do Brasil. Caminhamos sobre a história do país”. Menezes acredita no poder da arte para transformar a relação das pessoas com o espaço urbano. “Quero que mais gente viva, estude e frequente o Centro. Santos precisa de um centro mais habitado e culturalmente vibrante”.
ALTA DEMANDA
A demanda pelo passeio, no entanto, supera a oferta. “As inscrições abrem uma semana antes e acabam em minutos — três mil pessoas tentam, mas só 150 conseguem participar. Lutar para ampliar é um desafio por conta da segurança e do percurso a pé”, diz. Os ingressos são serão distribuídos pela plataforma Sympla a partir das 17 horas de hoje (6).
Para o futuro, Menezes sonha alto. “Quero que Santos seja a ilha mais fantasmagórica do Brasil, com festivais, filmes e exposições de terror. A arte, para mim, é levar nossas histórias para o público, perpetuá-las e inspirar novas gerações”.


Deixe um comentário