Cena

Poesia, território e resistência em novo livro de autor vicentino

05/06/2025 Isabela Marangoni
Dyego Ogeyd

Entre rimas e traços, o artista visual, psicólogo e escritor Dyego Ogeyd transforma vivências em literatura em seu primeiro livro, ‘Mangue Urbano’. A obra, fruto de mais de uma década de criação entre poemas, desenhos e zines— publicações artesanais de pequena circulação, que combinam textos e imagens —, mergulha no território de São Vicente para construir uma narrativa que atravessa identidade, afetos, periferia e resistência. “Esse livro é muito meu, mas não quis limitar a mim”, resume o autor, que entende a escrita como forma de caminhar com o outro e abrir caminhos.

Desde os 15 anos se aventurando pela escrita, Dyego sonhava, na verdade, com a música. “Sempre quis ter uma banda, viver de música. Mas fui tentando encontrar outros caminhos para os meus talentos”, conta. O primeiro deles foi o zine, veículo que se tornaria central na construção de sua identidade artística e política. “Em 2016 fiz ‘Hipocondria’, meu primeiro zine, com poesias e ilustrações. Produzi no Word mesmo, imprimi em casa e comecei a distribuir”.

Foi a partir dessa experiência que Dyego reconheceu a força estética e comunicativa de seu trabalho. Mas só em 2020, com a chegada dos recursos da Lei Aldir Blanc, ele vislumbrou uma nova possibilidade: transformar seu acervo pessoal em um livro. “Quando descobri o que era um edital de cultura, tentei escrever um projeto. Foi aí que comecei a organizar o que hoje é ‘Mangue Urbano’”, conta.

APOIO CULTURAL

Com o apoio da Lei Paulo Gustavo, o projeto tomou forma. Além da publicação do livro, foram realizadas oficinas de criação poética e de zines. “No lançamento, em novembro do ano passado, não foi só meu livro que chegou ao mundo. Foram lançados também sete zines autorais de pessoas de São Vicente — pessoas negras, pessoas trans. Foi um projeto coletivo, como eu entendo que deve ser um projeto cultural”.

A linguagem direta e o compromisso com o território e com a diversidade de vozes seguem como marcas centrais de sua escrita. “Sempre me expressei de forma independente. Escolhi uma editora independente justamente por isso. O caráter marginal está em mim”, afirma.

O título ‘Mangue Urbano’ surgiu da tentativa de dar conta da multiplicidade de temas que atravessam a obra. “Durante a pandemia, tentei entender quais assuntos orbitavam minha escrita. Cheguei a quatro núcleos principais: família, relações de trabalho, desejo e afeto, e questões político-sociais”.

VIVÊNCIAS E COLETÂNEAS

Recém-formado em Psicologia, Dyego passou a refletir mais intensamente sobre identidade e território. “Fui me voltando para minha quebrada, ali na região da Vila Margarida, perto da Ponte dos Barreiros, em São Vicente. Esse livro é muito meu, mas não quis limitar a mim. É a história de uma personagem LGBT, negra, que emerge desse território”.

Embora composto por poemas, ‘Mangue Urbano’ traz uma narrativa costurada com atenção. “Tem uma progressão. Fui organizando poema por poema, pensando no que se conectava com o anterior e com o seguinte. Foi um processo de engate, de costura”. As ilustrações também desempenham papel fundamental na obra. “Sou artista visual, e percebia que algo estava faltando. Quando vi o livro da Karina Buhr, com ilustrações, pensei: é isso”.

O livro reúne textos criados desde o Ensino Médio. “O poema mais antigo é de 2010 ou 2011. Nunca pensei nisso como uma coletânea, mas hoje vejo que é, sim. Fui selecionando textos e imagens que ajudavam a contar a narrativa que eu queria propor”. Entre os poemas, Dyego destaca Abrir Caminhos, que inicia o livro. “É bem curtinho, mas traduz essa ideia de que a gente vai caminhar junto com a história”.

Apesar de ainda estar iniciando o contato com leitores, o retorno tem sido significativo. “As pessoas se identificam com as temáticas, com a linguagem. O público que mais me acessa é o que se reconhece em mim: pessoas LGBT, negras, do litoral. Às vezes se surpreendem por ser um livro de 300 páginas”.

E o que ele espera provocar em quem lê ‘Mangue Urbano’? Dyego é direto. “Espero que quem for do litoral se perceba nesse território. Que busque suas histórias, suas narrativas. E que compreenda que uma pessoa negra, LGBT, está fazendo essas perguntas, pensando, escrevendo — mas não se resume só a isso. A gente vive, ama, sente, é atravessado por muitas outras coisas”. E deixa um convite. “Ler, questionar, discordar, entender o que esse livro provoca em você. Descobrir sua narrativa também”.