
Por trás da leveza e da disciplina que moldam os movimentos de uma bailarina clássica, costuma existir uma história de encantamento ainda na infância. Com a professora, coreógrafa e fundadora da Escola de Ballet Lúcia Millás, não foi diferente — embora o impulso para dançar tenha surgido de forma espontânea. “Minha mãe conta que estava folheando uma revista e eu, muito pequena, vi uma bailarina. Perguntei se também poderia ser uma. Ela riu e disse que, se eu quisesse, podia”, relembra.
Desde então, não houve um dia sem pliés ou piruetas. “Tinha uns 8 anos quando descobri que havia uma escola perto de casa. Convenci minha mãe a me levar ao Studio de Ballet Gláucia Wagner”, conta. Aos 14, já faltava às aulas escolares para estudar dança em São Paulo, onde ingressou em uma companhia profissional. Paralelamente aos palcos, descobriu uma nova vocação: ensinar. “Gostava muito de dançar, mas me apaixonei pelo ensino”, diz.
A paixão pelas salas de aula crescia junto com a vontade de estudar fora. Quando surgiu a oportunidade de cursar o ensino médio integrado à formação profissional na Alemanha, a jovem bailarina se preparou — mas a ditadura militar interrompeu o programa de intercâmbio. Determinada, mudou-se para São Paulo ainda adolescente, decidida a juntar dinheiro e investir no próprio caminho. Em 1969, aos 19 anos, abriu sua primeira escola. “Meu pai, que trabalhava no Banco do Brasil, ficou assustado. Comprou um pequeno apartamento achando que, se desse errado, ao menos teria um imóvel. Mas foi ali que comecei”, conta.

A formação inicial era baseada no método russo, mas Lúcia buscava algo mais sólido como professora. Foi então que conheceu a Royal Academy of Dance (RAD), prestigiada instituição britânica de ensino em ballet clássico.
Participou do primeiro curso da Royal em São Paulo, fez os exames como bailarina, tornou-se professora registrada e pioneira na introdução do método na Baixada Santista. Com o tempo, foi convidada a integrar o seleto grupo de examinadores da RAD, avaliando escolas ao redor do mundo.
Já consolidada como educadora, Lúcia decidiu arriscar mais uma vez: foi a Londres para um curso de férias e, incentivada por uma professora, participou de uma audição para um curso profissionalizante. Ganhou uma bolsa. “Estava perto dos 30 anos e achei que já era velha demais, mas fui. Deixei a escola sob os cuidados de alunas e me joguei na experiência”, conta. Em Londres, formou-se no The Place — uma das principais escolas de dança contemporânea da Europa — e, por dois anos e meio, viveu nesse vai e vem entre Brasil e Inglaterra, mantendo a escola funcionando com esforço.
Durante 28 anos, atuou como examinadora oficial da Royal Academy, avaliando escolas filiadas em diferentes países. “Do mesmo jeito que recebia examinadores aqui no Brasil para avaliar meus alunos, passei a fazer isso com os alunos dos outros. Foi uma grande honra”.

Neste ano, sua trajetória foi reconhecida com o título de Membro Honorário da Royal Academy of Dance — o mais alto grau concedido pela instituição a profissionais que contribuíram de forma marcante para a difusão da dança. “Fiquei lisonjeada. Jamais imaginei. Recebi um e-mail, mas nem vi na hora. A representante da Royal aqui no Brasil me ligou perguntando se eu já tinha aberto minha correspondência”, relembra, sorrindo. Ganhou a passagem para ir a Londres e recebeu o título em uma cerimônia oficial. “Foram só cinco dias, mas maravilhosos”.
Lúcia explica que a metodologia da Royal se destaca por respeitar os limites e as potencialidades individuais, oferecendo uma formação completa — física, emocional e social — tanto para quem busca a carreira quanto para quem enxerga a dança como formação para a vida. “A dança ensina ritmo, convivência, perspectiva, disciplina mental e corporal. E a Royal oferece isso a qualquer tipo físico, não só aos considerados ‘ideais’ para o ballet”, destaca.
Ao refletir sobre sua jornada, Lúcia se orgulha de ter feito tudo com paixão e generosidade. “Sempre achei que tudo que aprendi devia ser transmitido. Me sinto bem em ver o crescimento dos meus alunos e professores. Hoje, aprecio ainda mais dar aula para professores, porque acho que essa é uma das maiores lacunas na formação de dança: gente preparada para ensinar quem ensina”.
Apesar dos avanços da dança clássica no país, lamenta a fuga de talentos brasileiros para o exterior. “Já levamos alunos para concursos na Inglaterra, eles ganharam bolsas e fizeram carreira fora. Queriam voltar, mas não conseguiram. Isso dói. O Brasil ainda não oferece estabilidade para bailarinos. Não faz parte da nossa cultura”.
Entre os momentos mais marcantes, ela destaca os espetáculos da escola. “Ver a plateia emocionada, achando que ia assistir a uma apresentação de fim de ano e saindo com a sensação de ter assistido a um musical da Broadway… Isso é maravilhoso”.
Hoje, com a sede da escola na Rua Mato Grosso, no Boqueirão, Lúcia segue transmitindo o legado de uma vida dedicada à arte. E se pudesse deixar um conselho a novos bailarinos e professores, resume o que a prática lhe ensinou. “Técnica é condução. É preciso paixão, entrega, emoção. É isso que faz a arte tocar o outro. Não é só ter o dom, é tirar alguém da cadeira. Fazer o outro sentir. Isso é o mais importante”.


Tive a oportunidade de conhecer Lúcia. Quando estudava com Glaucia Wagner . Admirava seu talento e algumas vezes fizemos aulas juntas.
Tive a oportunidade de conhecer Lúcia. Quando estudava com Glaucia Wagner . Admirava seu talento e algumas vezes fizemos aulas juntas.