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Entrevista com José Luiz Tahan: “Livraria não pode ser depósito, tem que ser lugar vivo”

21/05/2025 Gustavo Klein
Gustavo Klein

Nos 24 anos da Realejo Livros, seu fundador José Luiz Tahan passeia pela história e reflete sobre a trajetória da mais charmosa livraria de rua da cidade de Santos, comenta os desafios – como a Amazon – e projeta crescimento –
não em metros quadrados mas em conteúdo: em outros núcleos da Tarrafa Literária e em novos livros que tenham alcance e influência nacionais. Confira os principais trechos da entrevista.

Como você analisa a transformação a Realejo e do mercado editorial nestes 24 anos?

Quando começamos em 2001, o modelo era o das megastores americanas, aquela ideia do ‘deixe o cliente à vontade’ que sempre me pareceu desculpa para cortar custos. O sistema de consignação inchava as livrarias – as editoras emprestavam estoques e as livrarias ficavam abarrotadas. A virada veio em 2013 com a Amazon no Brasil. Eles criaram uma concorrência desleal – digo desleal por que operam em outra lógica, não dependem só de livros. As redes tradicionais definharam, e o pior: as livrarias se afastaram dos leitores. O livreiro parou de analisar estoques, perdeu a intimidade com os títulos. Some isso ao declínio do jornalismo cultural… Hoje, uma livraria como a nossa tem que reconquistar o leitor dia após dia.

Como a Realejo se estruturou para enfrentar esses desafios?

Fomos camadas sobre camadas. Em 2006 viramos editora – hoje são 200 títulos, alguns internacionais como o Monty Python. Em 2009 criamos a Tarrafa Literária. Recentemente, comecei a escrever crônicas. Mas o núcleo segue sendo a livraria física. Errei quando tentei crescer só em metros quadrados – percebi que nosso diferencial estava na relação pessoal, não em virar rede. Como editora, nosso alcance é nacional; como festival, criamos conexões únicas. É como aquelas bonecas russas – cada parte se encaixa na outra.

Por que o livro físico resiste quando outros suportes caíram?

O livro tem algo que música e filmes não têm – é objeto e conteúdo ao mesmo tempo. Uma estante te representa, um autógrafo cria vínculo. O Kindle tenta imitar isso e falha – é como comparar videoconferência com abraço. Nas bienais, você vê adolescentes chorando ao encontrar autores. Isso é mágico que não se digitaliza. Trabalhamos com objetos que carregam séculos de história – desde Gutenberg até hoje, passando por ‘As Mil e Uma Noites’. Não é nostalgia, é funcionalidade: o livro é perfeito como é.

A Amazon joga sujo?

Joga sujo. Primeiro inflaciona preços, depois oferece ‘descontos’ que são armadilhas. Eles podem operar no prejuízo indefinidamente – nós não. A Lei Cortez, que tramita desde 2015, regularia isso: limitaria descontos em livros novos por 1 ano, como já ocorre na França, Alemanha, Argentina, Coréia. Só 5% dos títulos seriam afetados – justamente os lançamentos que atraem leitores. Isso daria fôlego para as livrarias respirarem. O pior é ver até mesmo editores importantes sendo coniventes com esse sistema.

Como foi o processo de publicar os Monty Python no Brasil?

Foi pura cara de pau. Na época em que editamos este livro, o Rodrigo Simonsen trabalhava comigo. Mandamos um email direto para a Orion, a editora inglesa. Eles responderam: ‘Pague o adiantamento’. Pagamos. A coisa se desenrolou rápido, até. Quando o livro chegou, esgotou em semanas. Ainda temos os direitos sobre ele e agora estamos na batalha para reimprimir – outro desafio, porque editora pequena tem que escolher onde investe.

Além do comercial, qual é o papel das livrarias hoje?

Somos espaços de descoberta. Um algoritmo nunca vai te sugerir algo realmente surpreendente. Eu lembro dos gostos dos clientes – quando chega um livro novo, já penso: ‘Esse é para tal pessoa’. Construo o estoque pensando nisso. As redes sociais até ajudam – veja os booktokers – mas não substituem a conversa olho no olho. Por isso fazemos eventos como o chorinho das sex tas-feiras há 20 anos. Livraria tem que ser lugar vivo, não depósito.

Quais são os próximos passos?

A ideia é expandir não em metros quadrados, como já pensamos, mas com geração de conteúdo e produtos culturais que movimen tem o varejo de livros. Mas sempre tendo o cuidado de manter nossa essência: uma livraria de rua com personalidade, que emite opinião. O livro já deu todas as demonstra ções de força ao longo dos séculos. Nós estamos aqui para continuar essa história.