E um dia, afinal
Tinham direito a uma
alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Chico Buarque de Holanda
A música é da época da ditadura militar no país, mas veste como uma luva nos tempos atuais. Durante quatro dias, o povo esquece as crises econômica e ética, as maracutaias políticas, as dificuldades do dia a dia, para celebrar e festejar a alegria. É tempo de dançar até cansar, vestir a fantasia, assumir personagens, deixar a inibição de lado. Afinal, é Carnaval!
A proposta da festa, que costuma ser associada à liberalidade e à sexualidade, é a brincadeira. Nestes dias a sociedade assume um caráter mais permissivo. Homens se vestem de mulher; mulheres preferem vestir menos roupas, deixando o corpo mais à mostra; desejos encobertos podem se revelar e são aceitos com mais facilidade; enfim, desloca tudo e todos do lugar. Como definiu o antropólogo Roberto Damatta, autor do livro “Carnavais, Malandros e Heróis”, é por poder colocar tudo fora do lugar que o Carnaval é frequentemente associado a uma grande ilusão ou uma grande loucura.
Mas o que torna as pessoas mais liberais e desinibidas nestes quatro dias de folia? Para a psicoterapeuta sexual Márcia Atik, assim outros feriados, é a oportunidade que as pessoas têm de afrouxar o cinto das pressões e dificuldades cotidianas. “No Carnaval, como existe a possibilidade das fantasias, muitas pessoas querem vivenciar situações que não se permitem no dia a dia”.
A sexóloga Carla Cecarello, do site C-date, acredita que a motivação da maioria dos foliões é entrar no clima e relaxar. “As pessoas nos dias de folia gostam de estar mais à vontade, brincar, descontrair e extrapolar alguns limites. Não creio que, na realidade, elas gostariam de ser aquele personagem o ano inteiro”.
O peso do álcool
Márcia Atik ressalta que o abuso do álcool e outras drogas pesam neste comportamento. “O ideal seria que a manifestação decorresse da liberdade de expressão, da alegria, mas o álcool é um flagelo o ano inteiro e, no Carnaval, seu uso é potencializado”.
Carla Cecarello lembra que o álcool atua no estado de consciência do indivíduo. “É uma forma da pessoa se sentir mais animada e relaxada, porque o álcool e outras substâncias possibilitam isso. Então é uma maneira de a pessoa ficar mais vulnerável através dessas reações que o álcool traz, algumas podem até ser prejudiciais dependendo da quantidade da dose”.
Carnaval e sexo casual
Riscos de doenças e gravidez indesejada são consequências de sexo sem proteção e este é o aspecto mais grave apontado por Márcia Atik nos amores de carnaval. “O sexo casual já não é mais novidade, ele pode até ocorrer desde que se pratique sexo seguro para prevenção e também para as emoções, sabendo distinguir o que é desejo de Carnaval daquilo que pode ser o começo de uma relação”, alerta.
Como festa pagã, no Carnaval as pessoas tendem a ser mais liberais e, no Brasil, a tendência em mostrar mais os corpos aumenta a atração e faz crescer a euforia. “Nesta época do ano, o sexo casual se torna mais comum. Os dias de folia aumentam o desejo da paquera, que pode ou não terminar em uma cama, sem compromisso. Apesar de ainda ser um tabu para muitas pessoas, é uma prática que vem se tornando mais sólida e comum nos últimos tempos. O fato de as pessoas estarem mais liberais acaba de alguma forma contribuindo para isso”, concluiu Carla.
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