Crônica

O legado de Armênio Mendes

21/07/2024
Mundo Lusíada

O empresário Armênio Mendes costumava dizer que as provas de triatlo estavam n topo do ranking anual de ocupação dos hotéis dele em Santos. Lotavam. “Nem o Réveillon”, ele enfatizava. “Nem o Réveillon”.

Havia um segredinho de parceria por trás desse sucesso hoteleiro. Um segredo que talvez tenha se perdido, mas que o organizador das provas de triatlo em Santos, o pioneiro Núbio Lima, revela. Armênio Mendes descobriu, numa conversa com Núbio, quais as condições que atrairiam a trupe dos triatletas, parentes deles, membros das equipes e jornalistas. E essas condições passaram a ser seguidas à risca nos hotéis do empresário: tarifa abaixo do valor de balcão, café da manhã às 5h00 no dia da prova, check-out estendido até as 15h depois e esquema especial de segurança.

Detalhes? Sim. Detalhes que Roberto Carlos diria que “são coisas muito grandes pra esquecer”. Com razão. A concentração, a atenção de um empresário nos detalhes da atividade dele faz uma baita diferença.

No dia em que conheci Armênio Mendes, na primeira metade da década de 90, ele estava muito bravo comigo. Era uma segunda-feira. No sábado, O Mar em Manchete, telejornal do qual eu era editor-chefe, tinha apresentado uma reportagem sobre as reclamações de barulho dos vizinhos da danceteria Totem, dele, na Ponta da Praia, em Santos. E, naquela segunda-feira, uma decisão judicial tinha fechado a danceteria.

Alma com grandeza, Armênio não guardou rancor desse episódio. Tanto que alguns anos depois me convidou para ancorar um jornal na Rádio Jovem Pan Santos. Eu dizia, brincando, que era sócio dele. Porque naquela hora diária do jornal, nós tínhamos um contrato de divisão de despesas e das receitas. Sócio numa horinha só da rádio, empresa com faturamento muito menor do que o dos shoppings, hotéis, prédios que ele erguia… Mas sócio.

De outro aspecto da grandeza de alma do empresário, eu só tive a percepção clara neste ano, no Seminário Internacional de Café, promovido pela Associação Comercial de Santos. O evento, bienal, tradicionalmente promovido em Guarujá, ganhou outra dimensão neste ano em Santos. E isso só foi possível porque a cidade tem um centro de convenções como o Blue Med. E só tem esse espaço graças ao lado visionário de Armênio Mendes.

Uma frase batida é a de que a atividade empresarial é mobilizada somente pelo lucro. Isso vale só para o empresário que não tem a visão social e o sentimento do futuro. O Mendes Convention Center, um sonho da cidade, que se transmutou depois no Blue Med, só se materializou porque Armênio Mendes bancou o investimento, milionário. E só sobreviveu e ganhou a musculatura atual porque ele bancou durante 16 anos, de 2001 a 2017, os prejuízos mensais que um equipamento pioneiros na região inevitavelmente exigiria até se consolidar.

Armênio era um autodidata. Aprendeu a pensar grande realizando. Não repetia erros. E foi crescendo continuamente, não só como empresário, mas também como ser humano. Só isso pode explicar a dimensão do legado que deixou para Santos e região.

É provável que a percepção da ocupação dos hotéis durante as provas de triatlo tenha sido decisiva para a decisão de materializar um centro de convenções com a magnitude necessária para que a cidade ganhasse a capacidade de sediar eventos de porte no turismo de negócios.

Neste 2023, o empresário não estava mais de corpo presente para acompanhar a primeira das 24 edições do Seminário Internacional do Café realizada em Santos. Mas com um pouquinho de sensibilidade, você, leitora/leitor, podia sentir ali a presença do espírito de Armênio Mendes, sorriso feliz de sonho realizado, de missão cumprida, iluminando a expressão.