Saúde e Sociedade

A saúde necessária

09/05/2022
A saúde necessária | Jornal da Orla

Profissionais de saúde, como regra, são vocacionados para a ajuda. Do ponto de vista racional, a satisfação pelo desempenho exitoso de um procedimento clínico ou cirúrgico. Pessoalmente, o acolhimento, quando impossível a cura, a mitigação do sofrimento.

Antes vestíamos branco; hoje, o jaleco é o símbolo maior de um segmento profissional que ainda confere credibilidade social. Ainda, porque estes profissionais trabalham com a vida e a maior expectativa humana que é sua preservação. Em busca, também, de sucesso profissional e estabilidade econômica, a grande procura por cursos de graduação na área de saúde faz as faculdades de medicina, em especial, proliferarem nos quatro cantos do país, formando jovens ansiosos por adquirem uma especialidade que possa os inserir mais facilmente no mercado de trabalho, palavra mágica em tempos de crise econômica, desemprego e desalento. O resultado, a coisificação da prática médica pela utilização em demasia de exames complementares, mesmos os mais invasivos. A consulta médica se transformou numa mera interpretação de exames. Acabou a conversa e o acolhimento.

Muito se fala em economia neoliberal, diminuição do tamanho do estado e incentivo a atuação da iniciativa privada, mesmo num país que possui o maior programa de saúde pública do mundo, o SUS – Sistema Único de Saúde. Uma contradição do discurso hegemônico no capitalismo, amplificado por seu porta voz, a grande imprensa. Esquecem que dar prioridade à iniciativa privada, neste caso, significa estratificar a atenção à saúde conforme o tamanho do bolso de cada indivíduo, pois seu princípio é o lucro. E aí vai acontecer que quem paga mais caro terá um atendimento de primeira linha, um privilégio de meros 5% da população com plano de saúde privado. À classe média, geralmente lhe resta os convênios de segunda linha, que oferecem uma rede de atendimento intermediária. E o que é pior, 80% das pessoas com convênio são usuários de planos de saúde de terceira linha, mais restritivos ainda; sem qualquer direito de escolha, pois são planos coletivos, oferecidos pelo empregador. E, apesar de lhes conferir certa sensação de segurança, sabe-se que 95% desses usuários, em algum momento, vão precisar do SUS.

Não vou aconselha-lo a não pagar pelo plano de saúde. Por pior que seja, neste caso, você não vai precisar pedir ao vereador que interfira para a realização daquela cirurgia que te obriga a ficar na fila de espera por muitas vezes 6 meses. Mais devastador que a privatização dos serviços de saúde, é a privatização dos profissionais de saúde, em especial dos médicos, que querem sustentar a premissa de que são “profissionais liberais”, mas que são submetidos a remuneração vil, trabalham por produção e não recebem benefícios sociais. De seus consultórios, veem o mundo e se veem como máquina de produção, que precisa girar em quantidade, por suas sobrevivências. Por outro lado, só do ano de 2021 para este, de 2022, o Ministério da Saúde perdeu 20% de seu orçamento, mesmo após um banho de eficiência no tratamento da Covid-19.

O que fazer? Entender que a política é o único instrumento que possa transformar essa realidade. É através dela, e tão somente, que a sociedade pode exigir o enfrentamento necessário à nossa saúde e a dignificação de nossos profissionais.

Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.