Saúde e Sociedade

A idade do joelho da vovó e as vidas do doutor

24/09/2021
A idade do joelho da vovó e as vidas do doutor | Jornal da Orla

Quem trabalha em regime de plantões sabe o quanto são difíceis as madrugadas, especialmente, dentro de um pronto-socorro. São inúmeros atendimentos, alguns bem complexos, outros nem tanto. 

 

Por ainda não termos um atendimento de saúde consolidado, fora do horário comercial, de modo a atender às necessidades primárias nas proximidades da residência de cada cidadão, alguns usuários, também por uma pretensa comodidade, entendem por bem procurar o pronto-socorro, quer público ou privado, em situações que não podemos chamar exatamente de urgência ou emergência. Com uma grande demanda, o tempo de espera para o atendimento de casos mais simples se prolonga e os profissionais de saúde ficam bastante esgotados. 

 

Foi aí, que uma senhora de 87 anos, impaciente, à espera do agendamento com o ortopedista, procurou o pronto-socorro às 6h30 de uma segunda-feira. Preenchida a ficha de atendimento e seu caso classificado como não sendo de risco, foi atendida às 6h55. O médico não acreditou. 

 

– Meu plantão acaba às 7h. Tenho que estar no ambulatório de outro hospital ainda hoje cedo, pensou. 

 

Após “longa” caminhada de 25 metros, a vovó chega no consultório e diante do médico ansioso com o horário pelo atendimento clínico sem urgência e não esperado, se queixa de dor no joelho. 

 

– Há quanto tempo a senhora está com essa dor no joelho? – afirma visivelmente contrariado. 

 

– Há uns 6 meses – respondeu a senhora, com ar de sofrimento intenso. 

 

– Mas senhora… isso é da idade. 

 

Surpresa e inconformada, a senhora responde: 

 

– Mas doutor, o outro joelho tem a mesma idade e não sinto nada! 

 

Atônito com a resposta, o médico desaba em empatia e carinhosamente sorri para a vovó. 

 

– Então, precisamos examiná-lo e fazer uma radiografia. 

 

– A senhora toma esse remedinho, em seguida irá fazer fisioterapia. 

 

Às 8h, após 13 horas de plantão e visivelmente cansado, o doutor vai para casa descansar? 

 

Não. Rumo a outro hospital, tantos pacientes lhe esperam. Alguns impacientes reclamando do atraso. 

 

Essa é a vida da vovó e do doutor. Nas entrelinhas, solidão, carência e falta de acolhimento. Estudo, exploração de mão de obra, cansaço. Descaso e falta de planejamento de políticas públicas.