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Afinal, o que significa ter saúde?

20/08/2021
Afinal, o que significa ter saúde? | Jornal da Orla

Esse é um questionamento cuja resposta parece ser óbvia, e é. 

 

Mas sempre quando nos referimos à saúde, para muita gente o que vem à mente primeiro é a doença e tudo o que se refere a ela. Prevenção, tratamento, recuperação. 

 

Ter saúde é muito mais que não estar doente.

 

Como médico sanitarista, tive uma excelente experiência quando fui professor de escola de medicina. A disciplina era de saúde coletiva e medicina preventiva; e dava aula para os alunos de primeiro e segundo anos. Em uma das primeiras aulas, o tema era exatamente esse, conceituar saúde. De início, não foi muito fácil preparar a aula, pois corria o risco de, sendo muito objetivo, transmitir o conceito de saúde já consagrado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) de forma automática; e não queria fazer isso, pois sempre entendi o processo ensino/aprendizagem como algo que deva ser dinâmico. Professor e aluno, dialeticamente, participando da construção de conceitos. Ambos ensinando, ambos aprendendo. Se conseguimos partir de uma realidade já conhecida e vivida, o processo pedagógico caminha de modo mais intenso, por mais que, ao contrário, seja mais fácil escrever uma definição na lousa e os alunos a repetirem. E vão repetir decorado, até o dia da prova. 

 

Dividi a classe em duplas e pedi que eles saíssem pelo campus da Universidade e que perguntassem para as duas primeiras pessoas que encontrassem o que eles entendiam por saúde. Acostumados, no ensino médio, como modelos mais tradicionais de ensino, custaram um pouco a entender. Como é que é professor? Você está nos dizendo para fazermos uma pesquisa de campo? Isso mesmo. Escrevam literalmente o que lhes for dito. Retornem à sala de aula em 30 minutos e faremos uma discussão em seguida. 

 

Meninos e meninas recém-saídos da adolescência, tudo era motivo para barulho; situação que o diretor da escola não gostou nem um pouco. Depois da aula, fui chamado no gabinete da direção e questionado: “Nossa proposta é de formar futuros médicos. Precisamos de mais formalidade neste ambiente. Não entendi sua atividade de hoje!”. Estamos de acordo, diretor, disse eu. A intenção é de formar profissionais sensíveis para exercer nossa profissão. Depois de umas gaguejadas, o diretor encerrou a conversa sem concluí-la. Mas não precisou. Eu entendi tudo.

 

Os alunos voltaram. Surpresos com as respostas espontâneas que lhes foram oferecidas.

 

Professor, o vigilante falou que ter saúde é não precisar tomar remédio.

 

A secretária disse que para ela ter saúde era não ter dor de cabeça.

 

O rapaz da limpeza disse que para ele é poder trabalhar e jogar bola no final de semana.

 

Eles iam falando e eu anotando na lousa.

 

Perguntei para o técnico do laboratório o que ele entendia que era ter saúde. Ele falou: “é ter alegria e ser amigo de todos”.

 

Para a senhora do posto bancário, ter saúde era dormir e se alimentar bem.

 

E assim foi até encher toda a lousa com respostas mais simples que as outras. A juventude e a alegria com que estavam desenvolvendo aquela atividade estimulavam seus entrevistados a serem espontâneos e originais.

 

Feito isso, encerrei a aula. Como assim professor? Sim. A aula está encerrada. Vocês descobriram o conceito de saúde proposto pela OMS: “Saúde é um bem-estar biopsíquico e social e não somente a ausência de doença!”. 

 

Aula dada. Tema que cairá na prova e que vocês não vão precisar estudar. Até semana que vem e aquele abraço.

 

Imaginem a excitação e o barulho que fizeram?!