
O médico Ricardo Hayden, um dos mais respeitáveis infectologistas do Brasil, afirma que eliminar o mosquito da dengue, agora, é praticamente impossível, mas diz que reduzindo a quantidade dos insetos os casos das doenças provocadas pelo transmissor (dengue, febre chikungunya, problemas neurológicos e má formação em fetos) serão reduzidos. É possível, portanto, acabar com a epidemia. Mas, para tanto, é fundamental a participação de toda a sociedade, diz Hayden, que concedeu entrevista ao programa Jornal da Orla na TV.
A ação do mosquito Aedes aegypti é cada vez mais preocupante, pois agora provoca outras doenças e transmite o zika vírus. O que é preciso fazer para vencer essa guerra?
Ricardo Hayden – O Aedes aegypti voltou com tudo. Há sempre uma questão relativa sobre as questões climáticas nessa época do ano, então houve um recrudescimento. De um tempo para cá, transmitindo outros vírus além do vírus da dengue, que já nos assola há anos, mais recentemente o chikungunya e, de forma ainda mais recente e assustadora, o zika vírus, capaz de causar má formação no sistema nervoso central de bebês. Também está sendo linkado com outras doenças neurológicas, capaz de ser causada até em pessoas de idade avançada por esse vírus zika.
No Nordeste, o Ministério da Saúde está recomendando que as mulheres evitem engravidar. Já em São Paulo, o secretário estadual de Saúde disse que essa providência não é necessária, por enquanto. Aqui na região da Baixada Santista, o que o senhor acha? O que aconselha para mulheres que querem ter um filho?
Hayden – Eu sou moderado por extremo, eu acho que nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Talvez, você possa ser assim mais enfático com respeito a isso dentro de um contexto de planejamento, de chegar e falar sabe “Repense, aguarde um pouco ou coisa do gênero”. Porque, afinal, nada desse tipo é mandatório: “Ah, eu tenho que ter um filho até daqui a dois meses”. Só gente desmiolada poderia entrar em um negócio deste. Isso tem que ser individualizado, tem que ser explicado no âmbito dos consultórios. Então, dentro de um esquema de planejamento familiar, esse negócio é muito tranquilo, tem sido questionado por algumas pacientes minhas. Você não pode aguardar seis meses para ver o que vai acontecer, esperar que o governo tome essas medidas que estão sendo propostas, que essas medidas surtam efeito? .Hoje, a medicina moderna permite que as pessoas engravidem até quarenta e tantos anos, sem grandes riscos. Eu acho que é uma atitude prudente, obviamente, se a mulher quiser levar isto avante tem algumas estratégias, alguns cuidados, mas vai ficar sempre sujeita algum grau de risco, seja de contrair dengue, seja de contrair chikungunya, mesmo que não tenha essa conotação de má formação. E com respeito ao Zika,que é uma coisa muito nova, que os estudos estão começando a aparecer no mundo inteiro, eu acho que seria prudente. Agora nada impede, como disse o nosso amigo o professor Davi Uip, nosso secretario estadual de Saúde: de a mulher engravidar, tomando alguns cuidados.
A dengue surgiu no Brasil a partir dos anos 1980, e foi avançando…
Hayden – Mais ou menos isso, foi um pouco antes. Foi na virada da década de 19 70 para 1980 lá no sul da Bahia, por esses navios que vinham dos portos africanos. As larvas dos mosquitos ficavam em cima dos containers, das lonas, com a água de chuva, e eclodiram. Esse cenário, que nós temos na Baixada Santista, na costa da mata atlântica, que vai de fora a fora, acontece praticamente no Brasil inteiro.
O mosquito mesmo, o transmissor, surgiu no Egito, não é? Daí o nome Aedes aegypti, que traduzindo para o português seria ‘Odioso do Egito’ …
Hayden – Exatamente, isso aí ‘Odioso do Egito’. Ninguém sabe ao certo, imagina-se que ele pudesse ter outros tipos também…
E foi avançando…
Hayden – É, exatamente, em florestas subtropicais. A gente vê isso na Ásia, em outros países da região,poderíamos citar Malásia, Vietnã, Tailândia… Tem todo um cinturão e o mosquito, hoje, está domiciliado em praticamente todos os lugares, aparece até no sul da Itália, Ilha do Norte da África.
Então eliminar hoje é impossível…
Hayden – Hoje, nesse cenário atual, com os recursos que a gente dispõe, podemos reduzir, que melhora muito, diminui muito o risco da epidemia.
O Governo do Rio de Janeiro adotou uma campanha incentivando a população a se dedicar 10 minutos por semana no combate aos focos do mosquito. O senhor acha que uma campanha semelhante daria bons resultados aqui na nossa região?
Hayden – Acho, e no mínimo 10 minutos. Esse é um problema de todos nós. Não adianta ficar esperando a providência divina e nem o governo, que não tem meios para tanto. O governo deve fomentar, coordenar as ações, propor, ceder matérias e métodos, gente, talvez apoio das forças armadas, de forma organizada. Está propondo em uma espinha dorsal com a realização de mutirões disso, daquilo e daquilo outro. A coisa começa na casa da gente.Lá no meu prédio, meu edifício de apartamentos, eu conversei com as síndicas, uma delas é até mulher de médico. Expliquei a situação e elas propuseram que o faxineiro vá ver lá os telhados, uma vez por semana, vá ver o poço do elevador, porque às vezes ele (o mosquito) fica em uma água que tem embaixo do elevador, em uma água por infiltração dos canos do elevador e pega carona na cabine do elevador e vai parar no 9° andar, nessas áreas. Precisa ter cuidado.
Nessas áreas têm que jogar cloro, sal grosso. Qual é a providência?
Hayden – Pode usar cloro.Tem que tentar, às vezes, drenar aquela água, eliminar aquela água.
Mas a ação do cloro é suficiente para impedir?
Hayden – A ação do cloro é momentânea. Isso tem que ser renovado, não adianta colocar cloro e esquecer, como em uma piscina abandonada, não vai dar certo. Sal grosso nos ralos, tampar, colocar isolantes, aquelas mantas que impedem que a fêmea deposite seus ovos, por exemplo, em um ralo que tem aquela caixinha plástica, que retém a água ali no fundo, são criadouros evidentes. Então, todos esses ralos nas casas, nos prédios, em especial as calhas, devem ser revistadas as caixas-d’agua.
Buracos em calçadas, bueiros desnivelados, também não são propícios para os criadouros?
Hayden – Teoricamente, sim. Aliás, essas bocas de lobo, que eles chamam, se for possível colocar aquelas mantinhas vazadas, como se fosse uma peneira, colocar aquilo ali,diminui bastante o risco.O ciclo do mosquito é muito rápido. Então a crítica que se faz é que depois da casa arrombada, é que se corre atrás. Esse plano de ação do governo federal, esquecendo essa entrada desse Zika vírus, que não é exatamente uma surpresa, já vem acontecendo há meses. No mínimo, ele deveria existir para a dengue, porque se você faz o plano de ação contra a dengue, como o vetor é o mesmo, você elimina o vetor, que é o grande lance, eliminar o vetor. Só que o vetor veio para ficar. As condições subtropicais do país inteiro, da mata atlântica em especial, favorecem a domicialização do Aedes aegypti.




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