
Em entrevista ao programa Jornal da Orla na TV, o advogado e comentarista político Ronaldo Serápicos afirma que as prisões de grandes empresários, de um senador no exercício do cargo e de um grande banqueiro representam um momento histórico para o país. Ele elogia a atuação do juiz Sérgio Moro, do Poder Judiciário, mas entende que a população precisa dar respaldo às ações da Justiça. Serápicos critica o ex-presidente Lula que, segundo ele, perdeu a oportunidade de mudar o Brasil e de entrar para a história. Abaixo, os principais trechos da entrevista:
Durante a semana nós tivemos a prisão de um senador no exercício do cargo, de um banqueiro e já tivemos a prisão de grandes empreiteiros, grandes lideranças políticas, como o todo poderoso ex-ministro José Dirceu. O Brasil está mudando?
Ronaldo Serápicos – No mínimo é um momento histórico que o Brasil vive porque são coisas que nunca aconteceram no combate à corrupção como acontece hoje. É a primeira vez que um senador no exercício do cargo é preso. Recentemente nós tivemos ministros, como o José Dirceu, o João Paulo Cunha que já havia sido presidente da Câmara, enfim. Nunca aconteceram prisões e condenações como essas nos últimos tempos. O Brasil vive um momento histórico que pode ser uma marca, uma mudança na forma como esse país é dirigido e isso pode para o resto da vida ou a gente pode perder essa oportunidade. É um momento muito delicado e, sem dúvida, uma marca histórica.
Do ponto de vista político, quais serão as consequências dessa ação da Lava Jato?
Serápicos – As consequências já estão acontecendo. Essas prisões, as formas como elas estão sendo conduzidas, em termos de investigação, já são um marco importante porque não vai acontecer da mesma forma a corrupção daqui para frente. Seria muita ingenuidade nossa imaginar que a corrupção vai acabar no Brasil, mas, com certeza, ela não vai ser nunca mais a mesma como vinha sendo anteriormente. Era uma corrupção descarada, havia absoluta certeza da impunidade, havia absoluta certeza de que nada viria à tona. Era uma engrenagem que se autoprotegia, se autoblindava. Então isso mudou, agora, instrumentos como a delação premiada, como a prisão temporária para evitar ingerências na investigação e a forma como os processos são conduzidos criaram um novo patamar, um novo paradigma na história da investigação brasileira. Isso com certeza mudou. Agora, mudanças mais profundas, aquelas que vão fazer uma significativa alteração na forma como o Brasil conduz a sua política e a sua economia, isso nós só vamos saber nos próximos meses, quando as investigações começarem a chegar ao Judiciário e quando a população começar a reagir.
Então não vai depender, basicamente, da sociedade, da reação da sociedade a este momento histórico?
Serápicos – Com certeza, nós hoje estamos dependendo de uma instituição importantíssima que é o Judiciário, mas que sozinho não faz a mudança no Brasil. O Judiciário pode coibir a corrupção, punir os culpados, mas a grande mudança no país acontece com a população. Hoje está muito claro para todo mundo que ficar esperando o Congresso fazer mudança é absolutamente inútil.
Até porque o presidente da Câmara e o presidente do Senado estão acusados de envolvimento na Lava Jato…
Serápicos – Sim, além das denúncias de corrupção que envolvem as duas casas, nós temos também um comprometimento político do sistema. São 30 partidos que não se entendem, que não estão dispostos a fazer nenhuma reforma política porque todos são beneficiados com isso, a crise política ajuda determinados partidos. Têm determinados partidos que pedem para o Governo Federal votar que tenham mais verba, mais cargos, o próprio PMDB tem feito muito isso. Quanto maior a dificuldade do governo federal, mais os partidos ganham. Então isso não vai mudar no Congresso. Ou a população começa a cobrar também essas mudanças, nós estamos cobrando impeachment da presidente, mas temos de cobrar também mudanças no Congresso Nacional, reforma política, mudança de postura. Para a mudança ser duradora, dependemos basicamente da reação da população e isso é muito volátil, nós não temos como medir se vai acontecer mesmo.
O Brasil também teve muita sorte de ter o juiz Sérgio Moro comandando a Lava Jato. A pressão é muito grande, a pressão econômica, as ameaças, quantas ameaças de morte esse homem já não deve ter recebido? Ele tem família! Quer dizer, tem que ter muita coragem para tomar as decisões que esse homem está tomando…
Serápicos – Sim, mas não é suficiente. Nós não podemos depender de uma única pessoa. De qualquer maneira, tem muita pressão nos ombros de uma pessoa só. O Judiciário e o Ministério Público têm que começar a se cercar de mais instrumentos para dividir essa responsabilidade. Não dividir a investigação, como tentaram fazer, porque aí perde o fio da meada. É importante você ter um grupo de apoio, que esteja se revezando e que a instituição se sobressaia mais do que os nomes individuais. Evidente que o juiz Sérgio Moro já ocupou uma função absolutamente destacada, mostrou que é um homem competente para a sua função, mas ele não pode ter essa responsabilidade sozinho. O Judiciário e o Ministério Público, com as instituições, têm que estar à frente desse processo. A população tem que acreditar nisso.
É a hora de a sociedade dar o respaldo…
Serápicos – A crise brasileira é basicamente uma crise política. É uma crise de corrupção que envolve instituições ligadas ao Executivo e ao Legislativo. O Brasil é um país rico, em termos de recursos. O Brasil, provavelmente, é um dos países mais ricos do mundo, equiparado aos EUA, talvez mais rico até que a China, porque nós temos aqui mais condições para agronegócio, pecuária, coisa que a China tem dificuldade. O que falta ao Brasil é achar o caminho certo. A população, primeiro, precisa acreditar nisso, saber que a crise é necessária nesse momento, que nós precisamos fazer esses ajustes e que o Brasil pode ser uma grande potência se nós caminharmos nesse sentido.
A pergunta que não quer calar e que a gente ouve nas ruas todos os dias: vai chegar ao Lula? Porque o Lula, até agora, diz que não sabia que o Zé Dirceu fez, o que o Zé Genoíno fez e ele não sabia, todo mundo fez e ele não sabia. Os filhos ficaram ricos, são gênios do meio empresarial. Agora o Bumlai foi preso e usou o nome dele sem ele saber. Será que o Lula é o maior tonto que o Brasil já produziu?
Serápicos – De duas, uma: Ou o presidente Lula é o maior corrupto da história do Brasil, porque conseguiu se safar de todas as acusações até agora, ou é o presidente mais incompetente da história do Brasil. Qualquer que seja o resultado, eu acho que ficou muito ruim para a história, para a biografia do ex-presidente Lula, o resultado desse período. Eu, particularmente, não vejo muita diferença de ele ser preso ou não. Eu acho que já ficou claro que aquele modelo que ele adotou, que é o poder a qualquer preço, se manter no poder de qualquer forma. Seja pela corrupção ou pela incompetência, porque já ficou claro que é uma das duas alternativas, é a alternativa que descreve o presidente Lula.
Você concorda que o Lula jogou uma belíssima biografia no lixo? Uma belíssima história de vida de um retirante nordestino, que passou fome na infância e que venceu inúmeros obstáculos na vida até chegar à presidência da República. E jogou no lixo toda essa história. É triste…
Serápicos – O que eu reclamo do presidente Lula é a oportunidade que ele perdeu, não só para o país, mas para ele também. Você precisa de uma grande liderança, que tenha suporte em sua maioria no Congresso e suporte popular. É a única maneira de você fazer uma grande mudança no Brasil. Naquele momento em que o presidente Lula foi eleito, ele tinha os dois: uma maioria significativa no Congresso e um maciço apoio popular. Ele podia ter usado essa força para fazer uma grande transformação no Brasil. Ele trocou isso por um projeto de poder. O presidente Lula perdeu a oportunidade de mudar o Brasil e de entrar para a história.
Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV:




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