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Dilma vendeu a alma ao diabo, afirma Vicente Cascione

17/10/2015 Jornal da Orla
Dilma vendeu a alma ao diabo, afirma Vicente Cascione | Jornal da Orla
O escritor, advogado e ex-deputado federal Vicente Cascione faz uma análise sombria do futuro do país. Ele está convencido de que caminhamos para uma conflagração social. Na opinião de Cascione, “Dilma vendeu a alma ao diabo” para tentar permanecer no poder, e faltam nomes de grandeza à oposição. Abaixo, os principais trechos da entrevista:
 
Cascione, há poucos meses o senhor disse neste programa que a presidente Dilma não resistiria e não terminaria o ano comendo castanha de Natal no Palácio do Planalto, mas parece que segue esse balança-mas-não cai, e a presidente resiste.
Vicente Cascione – Do ponto de vista institucional ela não deixou o cargo, mas a presidente já caiu, na medida em que vendeu a alma ao diabo, trocou ministros de sua confiança, entregou ministérios para quem não era de sua confiança, fez todos os tipos de concessões. Em se tratando de Dilma Rousseff isso significa uma queda. Eu a vejo como uma alpinista pendurada no ar, pela cintura. Já não se firma na rocha, e só não caiu porque quem poderia derrubá-la definitivamente pode cair antes, ou junto com ela.
 
Eduardo Cunha?
Cascione – Eduardo Cunha, o presidente da Câmara. E ele personifica o fato imponderável. Acho que a minha previsão estava correta, Dilma estava indiscutivelmente caminhando para a sepultura do ponto de vista político, do exercício do seu cargo. Mas, de repente, seu inimigo, que parecia forte, não o era. Além disso, a oposição está assustada. Se a oposição estivesse absolutamente limpa, transparente, e não tivesse nenhum tipo de temor, ela estaria como os cães raivosos ladrando intensamente. A oposição fala com muito cuidado.
 
Por que deve também?
Cascione – Todos devem. Não há setor de atividade política no Brasil em que não haja devedores. Como regra, os políticos importantes estão, evidentemente, na parte mais insegura. O baixo clero normalmente não deve nada, quem deve são os graúdos. O quadro atual é esse: a oposição com medo, o presidente da Câmara vulnerável, o Supremo interferindo de forma nem sempre exclusivamente jurídica, e a presidente vendendo a alma ao diabo. Dilma pode manter-se no cargo, não porque eu errei na previsão, mas porque no Brasil não se pode prever nada para o dia seguinte, em razão dos fatos imponderáveis, e das surpresas que já nem sei se são surpreendentes.
 
Mas nós vamos ter um custo social e um custo econômico muito elevado para o país, não?
Cascione – Eu acho que o Brasil atravessa a pior crise da sua História, antes de tudo pela inexistência de peças de reposição. Além de não haver lideranças, você não encontra peças de reposição, mesmo inexpressivas. A quem você recorreria, hoje, para tampar esse buraco aberto no poder, embora os personagens ainda estejam em função? Quem pode, hoje, substituir, de uma forma absolutamente lídima, limpa, transparente, com credibilidade e competência, as pessoas que estão no poder, em sua larga extensão? Quem você tem hoje para dizer: este é o homem, esta é a mulher?
 
Mesmo que tivéssemos, essa pessoa teria que chegar ao poder pelo voto popular? Nem sempre isso é possível.
Cascione – Sim. E a perspectiva é a de uma crise que vai prolongar-se sem correção de rumo, portanto o Brasil  entrará num processo de afundamento maior do que já estamos percebendo. Crise política, crise social, crise econômica, crise de valores, crise de ética, e o pior de tudo é que se perdeu a credibilidade. Primeiro, como consequência do cansaço, da exaustão, e de tantas coisas ruins acontecendo. E não se perdeu apenas a credibilidade. Perdeu-se qualquer tipo de esperança, perdeu-se a capacidade de indignação. Existe hoje uma passividade nacional, uma passividade perigosa, porque nós estaremos indo passivamente para o pântano, para a areia movediça, afundando cada vez mais, até o momento do estouro de uma conflagração social que não se sabe qual direção e dimensão terá.
 
Mas Cascione, alguns países que deram certo, como, por exemplo, o Japão, Alemanha, foram destruídos pela guerra, chegaram ao caos. No Brasil essa “guerra” política nos levará ao caos. Não seria possível a reorganização do país, o resurgimento da nação, a partir do caos?
Cascione – Você deu a resposta. Eu estive em São Petersburgo, na Rússia, antiga Leningrado. A cidade ficou cercada durante dois anos pelos nazistas, morreu uma parte imensa da população, 1 milhão de pessoa morreram, pelo cerco imposto. Comiam os próprios animais domésticos, e chegaram a alimentar-se da cola das mobílias. Veja, hoje, como pensam e como vivem os habitantes da cidade. Você acabou de mencionar o Japão, destruído e a Alemanha, destruída. É esta destruição que, pela dor, leva as pessoas a mudarem de comportamento e a terem outro tipo de consciência.
 
Nós estamos caminhando pra isso?
Cascione – Nós vamos caminhar para uma conflagração social, que é inevitável, sangrenta e, pior, caótica. Uma conflagração caótica não tem um rumo, uma direção. Será uma conflagração em que cada um vai puxar para seu lado, para seu interesse. Depois que o país entrar num regime sangrento, num processo de dor, as pessoas vão entender ser preciso reconstruir, em cima dos destroços. A História mostra isso. Não sou apocalíptico. A Historia é assim. Não há nenhum país no mundo que se reconstruiu na base da conversa política, do acerto político. Você pode evitar, corrigir rumos, evitar males conjunturais, pela política, mas, quando a política chegou ao ponto de absoluta podridão e de falta de credibilidade, você não vai conseguir nunca que elementos podres, frágeis, corruptos, incompetentes, cheguem a ter a condição de colocar o país nos trilhos. Não há como. Existe um descontentamento, no Brasil, e um confronto entre classes, e de interesses. O que a gente espera é que não ocorra, um dia, um golpe militar, como já aconteceu. Porque isto abafa tudo, não ocorre conflagração, mas quando passa o golpe, voltamos a 85 com Tancredo Neves, que era o candidato do general Geisel. Parecia que recuperávamos a democracia porque o povo foi para as ruas. Coisa nenhuma.
 
O senhor acha que Dilma, na Presidência da República, e o Eduardo Cunha, na Presidência da Câmara, têm condições políticas e morais de permanecer nos respectivos cargos?
Cascione – Essa pergunta que você fez é importante porque a Dilma outro dia indagou: -“quem é que tem integridade moral para acusar a minha honra?”
 
Quando ela disse isso o pessoal dela fez a claque: “Dilma/guerreira/do povo brasileiro”. Eu lembro que isso também foi feito exatamente com o Zé Dirceu: “Dirceu/guerreiro/do povo brasileiro”, e ele acabou na Papuda.
Cascione – Sim, mas quando ela perguntou “quem é que tem integridade moral para acusar a minha honra”, ela sugere o seguinte: que tanto na oposição, quanto aqueles que estão no meio do seu caminho, são todos farinha do mesmo saco. E quando ela diz isso, ela está dando a entender o seguinte: quem aponta o dedo pra mim está podre, então…
 
Nivelou por baixo, é isso?
Cascione – Nivelou. E quando ela diz isso (quem tem integridade moral?), a pergunta que a gente faz é: e quem está do lado dela? Quem tem integridade moral no time que esteve e está no poder? A gente já viu quantos desse time que está no poder, quantos deles já caíram e estão ou estiveram na Papuda. Então hoje para qualquer lado que você olhar neste poliedro político, você vê fragilidade moral, fragilidade da honestidade das pessoas. E quando ela faz essa pergunta, ela diz assim: pelo menos contra mim não há uma acusação concreta e todos os que me acusam estão devendo. E eu digo que é relativo o fato de não haver nenhuma acusação concreta, pois ela estava na presidência do Conselho de Administração da Petrobras quando aquela gigantesca negociata foi feita passando pela assinatura dela.
 
Portanto, ela tem responsabilidade?
Cascione – Só que não a acusaram. E aí entra o Janot, o procurador Janot, que parece ter um olho que enxerga, e outro olho que não quer ver, porque se o Janot abrisse os dois olhos e olhasse para todo o espectro, provavelmente, não escaparia ninguém, talvez nem ele… se olhasse no espelho.
 
Para encerrar nossa conversa: quais são as perspectivas para o Brasil para os próximos meses?
Cascione – Não tenho nenhuma expectativa positiva.  Costumo dizer que a expectativa é para uma coisa de curto prazo, coisa imediata A expectativa é para agora, para amanhã, para depois de amanhã. Não tenho nenhuma expectativa. E da soma das ausências de expectativas, (tenho a impressão de que há um consenso nacional) você acaba tendo desesperança. Eu não tenho nem expectativa nem esperança de que a situação se normalize sem, lamentavelmente, que um dia isso estoure numa conflagração social, em algo muito doloroso, que é a única maneira, historicamente provada, que faz um povo sair da condição de subgente, de subpovo, de subnação, de subestado, para uma condição mínima de reerguimento, como aconteceu com os derrotados na guerra  ou os que saíram de revoluções sangrentas. Foram construções feitas encima do sacrifício das veias abertas. Não tem outro jeito.

Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV: