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O momento exige remédios amargos e responsabilidade, afirma Papa

26/09/2015 Jornal da Orla
O momento exige remédios amargos e responsabilidade, afirma Papa | Jornal da Orla
Em meio à maior crise política e econômica dos últimos anos, o deputado federal João Paulo Tavares Papa (PSDB) afirma que o momento exige responsabilidades e compromissos com o país e com o futuro das próximas gerações. Medidas amargas precisam ser adotadas e o país tem de sair da armadilha do populismo para evitar o caos. Esses foram alguns dos temas abordados pelo deputado durante entrevista ao programa Jornal da Orla na TV. Abaixo, os principais trechos:
 
O Brasil vive momentos de grande agitação política, em razão de toda essa crise econômica, crise moral e ética. Como o senhor vê esse momento?
João Paulo Tavares Papa – Em primeiro lugar, com muita tristeza. Ver o nosso país, esse grande país que é o Brasil, que superou momentos difíceis, deu passos importantes de modernização, se reorganizou economicamente, superou a hiperinflação, estabilizou a moeda. A partir do Plano Real, quando nós finalmente estabilizamos a moeda, o Brasil começou gradualmente a dar passos para ser uma grande economia, com novas relações comerciais com o mundo inteiro. Passamos a ser um país exportador de tecnologia na área de agricultura, na área do agronegócio. Enfim, o Brasil dava e deu sempre sinais muito positivos de se firmar como uma das grandes economias do mundo. Isso encantou a todos nós, nos contagiou. As empresas passaram a investir aqui, o mercado internacional de valores, quer dizer, os investidores internacionais passaram efetivamente a encontrar no Brasil um bom caminho para novos investimentos e chegamos a um bom patamar, eu diria, em termos de economia mundial. A partir de um determinado momento, e isso está muito claro nos estudos econômicos que estão sendo realizados, o Brasil perdeu a mão, perdeu a direção.

Quando a maionese desandou?
Papa – Eu acho que desandou no momento em que encantados, especialmente o governo, com essa nova posição econômica mundial, o nosso país começou a trabalhar com uma agenda social de padrão europeu. O Brasil esqueceu que todo o processo de desenvolvimento, seja ele numa família, numa empresa, é um processo, é algo que se constrói gradualmente, passo a passo. De repente o Brasil se colocou como uma grande potência mundial e passou a construir uma agenda social, que de fato é uma agenda social padrão europeu. Quer dizer, abrindo programas sociais sem controle, criando uma série de despesas, investimentos e, especialmente, de despesas de custeio que não estavam relacionadas com esse crescimento gradual da nossa economia e, na minha visão, porque o governo brasileiro se esqueceu de que quem gera riqueza não é o governo. 

Quem gera riqueza?
Papa – Quem gera riqueza é o setor privado e à medida e que o Brasil passou a adotar um comportamento de intervencionismo na economia, como aconteceu na área de eletricidade e energia, como aconteceu na área do petróleo, na área do pré-sal, mudando marcos regulatórios importantes, o governo brasileiro passou a dar as cartas em matéria de desenvolvimento econômico. Não deixou o setor privado fluir, crescer. E aos mesmo tempo adotou uma agenda social caríssima, custosa, sem medida, sem cálculos atuariais, sem pensar no futuro, benefícios que foram criados sem olhar o dia de amanhã, a próxima década, a próxima geração. Então, o conjunto de decisões adotadas pelo Governo Federal, especialmente nos últimos três anos, fez a nossa economia desandar, nos trouxe até os dias de hoje. Enfim, infelizmente, estamos à beira de um abismo econômico, um rombo fiscal sem precedentes na história do país.

O governo gasta mais do que arrecada. E isso quebra o país…
Papa – Em palavras simples é isso, o governo brasileiro passou a gastar muito mais do que aquilo que ele arrecada.

Mas a oposição também não tem oferecido propostas. Infelizmente, o governo está perdido, nós estamos vendo. Vamos deixar de lado a roubalheira… do ponto de vista administrativo, o governo está perdido, mas a oposição também não aponta caminhos e isso é preocupante.
Papa – A oposição também está atônita. Ela também não tem todas as respostas para o dilema econômico, social e político institucional que o Brasil se colocou. Ela (a oposição) está tentando. Ainda na semana passada, o PSDB realizou um grande evento, trouxe os maiores e mais importantes economistas do país para discutir o futuro do Brasil, em matéria econômica. Quais os caminhos, que caminhos temos? Aliás, a conclusão desse trabalho, desse seminário praticamente unânime e feita por especialistas e não por políticos, é de que nós nesse momento teremos que adotar, o Brasil terá que adotar, remédios muito amargos.

O mais amargo de todos, doloroso, mas, infelizmente, necessário e que ninguém toca é a questão da Previdência. Hoje nós temos centenas de milhares de pessoas que se aposentam no Brasil com 45 anos, 48 anos. Com o avanço da medicina, as pessoas estão vivendo mais. Então, vai quebrar a Previdência. Nós caímos na armadilha no populismo, ninguém põe o dedo na ferida. Infelizmente, tem que ser criada a regra de que ninguém se aposenta no Brasil com menos de 65 anos, salvo por invalidez. Do contrário, vai quebrar a Previdência. Mas se você defende essa tese, você não é reeleito. Quer dizer, caímos na armadilha do populismo.
Papa – Reeleitos ou não, o fato é que hoje o Brasil vive uma guerra contra o tempo. É um país riquíssimo, é de fato um país que tem tudo para se recuperar, mas precisa fazer sacrifícios e esse sacrifício também abrange a classe política.

Quem vai colocar o guizo no gato?
Papa – Eu acho que quem tem responsabilidade. Todas as lideranças nacionais que têm responsabilidade com o país e responsabilidade com o futuro, especialmente com as próximas gerações, tem que fazer esse sacrifício, tem que fazer esse trabalho de colocar a mão na ferida. Vou te dar um exemplo, o senador José Serra. Já foi candidato a presidente da República, já foi senador, já foi ministro da Saúde, já foi governador de São Paulo, já foi prefeito de São Paulo, tem uma larga experiência política e administrativa. Ele tem defendido uma série de mudanças no regime previdenciário, tem defendido medidas também na matéria de custeio, de benefícios sociais que foram criados. Enfim, porque parte do princípio, como economista, de que essa conta tem que fechar, é óbvio que ela tem que fechar. Então se o Congresso Nacional e o governo continuarem apenas jogando para a torcida, como se costuma dizer, nós vamos aprofundar a crise, nós corremos o risco de aprofundar a crise. Eu acho que é um momento para passar o país a limpo.

Mas o senhor acredita que esse Congresso que está aí vai assumir essa responsabilidade e compartilhar medidas amargas, porém extremamente necessárias para o país?
Papa – Parte dele, sim. A maioria, eu não sei te dizer.
 
O senhor acredita que uma eventual mudança de governo, o impeachment da presidente, um novo governo poderia ser o princípio de uma solução? Ou não?
Papa – Não se trata de ser contra o impeachment. Nós temos de ter responsabilidade com o país. Nós vivemos em um regime democrático construído com muito sacrifício, com perdas de vida, inclusive. A democracia impõe determinados compromissos e um deles é o respeito à Constituição. Aliás, o mais importante deles é o respeito à Constituição e às leis. Um eventual impeachment pode ocorrer, à medida que todas as condicionantes que a lei coloca apontem para a responsabilidade objetiva por parte da presidência da República.

O que senhor está dizendo é que para o impeachment tem que ter um motivo concreto? Fora disso seria um golpe?
Papa – Fora disso é estar caminhando fora da lei. Então aí passa a ser a derrubada de um governo na base da pressão política ou de um golpe político. Se vivêssemos, como eu gostaria, num regime parlamentarista, certamente esse governo já teria sido dissolvido. O governo já teria caído, o ministério dissolvido e já teríamos outras forças políticas e outro grupo técnico, outra equipe tomando conta da crise e procurando propor medidas para que o país saia o mais rapidamente da crise. O nosso regime é presidencialista e é preciso cumprir o rito que a lei determina porque se não fizermos isso nos transformaremos numa república sem lei, de bananas como já se disse por muitos anos.

Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV: