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A festa acabou, diz professor de economia

01/08/2015 Jornal da Orla
A festa acabou, diz professor de economia | Jornal da Orla
A festa acabou e as pessoas devem repensar seu modo de vida, evitando gastos supérfluos e, principalmente, contrair dívidas, uma vez que os juros estão na estratosfera. Mas a crise pode também gerar oportunidades para quem tem capacidade de entender as dificuldades do momento e souber usar de criatividade em sua atividade profissional. É o que afirma o professor de economia, João Carlos Gomes, em entrevista ao programa Jornal da Orla na TV. Para ele, a corrupção é um fator bastante negativo para a economia do país por inibir novos investimentos. Abaixo, os principais trechos da entrevista:
 
O Brasil vive hoje a sua maior crise política e econômica dos últimos 30 anos. Até que ponto essa crise afeta a vida das pessoas?
João Carlos Gomes – Ela afeta a vida das pessoas no aspecto que é sempre doloroso. Você vivia num ambiente de abundância, consumia, tinha o que queria, aprendia a consumir e agora a novidade que ela sugere é que cada um de nós temos de represar o consumo.
 
É como se tudo fosse uma grande festa, que, de repente, acabou?
João Carlos – Essa metáfora é perfeita. Nós estamos vivendo um momento em que a festa em que nós vivíamos, agradável, e que todos prosperavam, agora precisa de um momento de reflexão. Vamos ter que reduzir consumo, ter que olhar para nossa vida com um outro olhar. Um olhar que talvez seja muito benéfico. 
 
Quais conselhos o senhor dá para o pequeno comerciante?
João Carlos – Eu vejo que o pequeno comércio, aquele que emprega dois ou três funcionários, o que ele vai precisar, necessariamente agora, é colocar uma energia muito grande no seu negócio. Seus funcionários, seus empregados, seus colaboradores, precisam ter com clareza o entendimento do que é o negócio e se relacionar com aquele que compra.
 
Ou seja, aumentar a eficiência com um atendimento de qualidade?
João Carlos – Perfeitamente. Aí a eficiência não é uma racionalização, não é uma coisa complicada. Eficiência é bom atendimento, é presteza, é estar disponível para o cliente a qualquer hora, é se relacionar com ele pelo negócio, mas mantendo uma relação humana com que você possa levar o cliente, ao sair de sua loja, se sinta bem e tenha vontade de voltar. Isso é um esforço pessoal que cada um vai ter que desenvolver dentro de si mesmo.
 
Isso também não passa pela qualificação dos funcionários?
João Carlos – A qualificação hoje não é necessariamente uma técnica complexa. O mundo dos serviços, como é o caso da nossa região, comércio e serviço, a qualificação em serviços pressupõe domínio de algumas competências pessoais que se aprende em casa, não necessariamente na escola. Então essa coisa que eu chamo de reciprocidade, pontualidade, presteza, que são elementos fundamentais no tratamento daquele que compra, você precisa desenvolver. Desenvolver é trabalhar junto com os seus funcionários, de forma que eles entendam que isso hoje é relevante no negócio, e ter um esforço muito grande para trabalhar e nesse momento. Nós vivemos num momento em que adiar recompensas é saudável e inteligente. Quando nós estávamos em um ambiente de abundância, nós não sabíamos o que era adiar recompensas e queríamos tudo pronto na mesma hora..
 
O senhor entende que um pequeno comerciante pode aprender com a crise e ganhar dinheiro a partir daí?
João Carlos – Pode, porque o pequeno comerciante, quase sempre, é aquele que vende produtos de preços unitários relativamente baixos. Ele ganha na escala, como se fala. Eu vendo produtos que não são de preços unitários elevados, tenho um volume de clientes que frequentam o meu estabelecimento e, com isso, eu faço as minhas vendas. Quando os clientes somem, eu preciso ser criativo, saber que valor o meu cliente dava para o produto que eu vendia. Se eu entender claramente qual era o valor que ele dava e como eu posso resgatá-lo.
 
Criatividade é uma palavra chave nesse momento?
João Carlos – Exatamente. E o que é a criatividade? É uma percepção do outro no valor que ele dá para aquilo que ele usa. Ser criativo é ir ao outro e perceber nele que valor ele dá para aquilo que ele estava acostumado a usar e se apropriar desse valor e pensá-lo de uma forma diferente. Criativo não é inventar uma nova coisa, é fazer melhor o que antes não era feito.
 
Com relação à alta dos juros, o Banco Central anunciou durante a semana uma nova elevação das taxas de juros. O que podemos esperar? Mais aperto, mais recessão? 
João Carlos – Comprar fica caro no crediário. Quando as taxas de juros são elevadas, fazer financiamento é caríssimo. 
 
Então  as pessoas devem evitar financiamento?
João Carlos – Sem dúvida nenhuma, evitar se endividar. Porque quando você compra, embora as lojas façam propaganda de 10 vezes sem juros, há juros embutidos. Então se você puder evitar não financiar as coisas que você compra é o desejável. E, aí, você precisa ter energia, olhar em várias lojas o produto que você quer comprar, ver a diferença de preço, pedir descontos porque é o momento de se pedir desconto, criar produtos alternativos para aqueles produtos que você consumia e agora se tornaram caros.. Esses esforços você tem que realizar agora e não se endividar como palavra chave porque se você criar financiamento, você vai pagar muito caro por esse financiamento. Esse é o aspecto do lado da procura. Do lado da oferta, a taxa de juros alto inibe os investimentos. Ninguém toma dinheiro de banco para ampliar a sua loja, ninguém vai tomar dinheiro de banco para ampliar o seu negócio porque também se tornou caro.
 
Mas também existe uma crise de confiança. O governo não tem credibilidade, as pessoas ficam com medo de investir…
João Carlos – Esse é o fato mais relevante nesse exato momento. Há uma expectativa negativa de que não se tem uma solução clara para onde vamos. Isso cria um sistema de instabilidade, de insegurança, onde o trabalhador evita consumir com a perspectiva do desemprego futuro. O investidor evita investir sem a certeza de que terá um lucro no prazo em que lhe convém. 
 
Também tem a questão política. Muita gente graúda envolvida nesses escândalos, nessa roubalheira que não choca apenas o país, choca o mundo, o maior escândalo de corrupção da história da humanidade. Esse efeito não acaba atrasando, atrapalhando a retomada dos investimentos?
João Carlos – A corrupção é um fator que afeta negativamente a estabilidade do ambiente de negócios. Negócios corroídos pela figura da corrupção são negócios em que o investidor sério deixa de participar porque a corrupção implica situação adversas em que os negócios são comprometidos por custos “adicionais” e por um ambiente onde as pessoas não têm seriedade.  Isso é problemático para o futuro do Brasil.

Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV: