Em Off

Estão todos na lama, no chiqueiro, diz Nicolau Obeidi

18/07/2015 Jornal da Orla
Estão todos na lama, no chiqueiro, diz Nicolau Obeidi | Jornal da Orla
Presidente da CDL (Câmara dos Dirigentes Lojistas Santos Praia), Nicolau Obeidi, afirma, em entrevista ao Programa Jornal da Orla na TV, que as pessoas estão com medo de tudo, de comprar, de sair às ruas, em razão do clima de insegurança que vive o país. Ele critica o aumento constante das taxas de juros, as mais altas do planeta, e diz que o desemprego atinge mais a indústria. Apesar do agravamento da crise política, Obeidi não acredita no impeachment da presidente Dilma, porque os escândalos chegaram ao Congresso :”Está todo mundo na mesma panela, na mesma lama, no mesmo chiqueiro”, diz ele. Abaixo, os principais trechos da entrevista:
 
O comércio, que gera muitos empregos e é fundamental para economia do país, está sofrendo muito com essa crise?
Nicolau Obeidi –  A crise existe, nós estamos aí como um déficit de faturamento, o faturamento tem caído um pouco, em torno de 10%, em relação ao ano passado. É um número bastante alto. Nós temos visto lojas vazias, shoppings vazios. Eu acredito que existe uma crise mais política. As pessoas ficam pouco contidas em se aventurar, em gastar também uma pequena reserva que elas têm. Elas estão esperando para ver o que acontece.

A crise, no caso, é de confiança, é isso? As pessoas não acreditam mais no governo e têm medo do que possa ocorrer daqui para frente?
Obeidi –  As pessoas estão com medo do governo, de sair de casa, com medo de andar com bens, de andar com relógios, roupas. As pessoas estão com medo de tudo. A sensação de insegurança que nós estamos vivendo é muito ruim. Haja vista que você vai a um shopping no domingo, você vê o shopping lotado por quê? Porque as pessoas estão optando no lazer dentro de um shopping, circulando, passeando, mesmo que não comprem nada. É pela questão de se sentir mais segura dentro de um shopping. Então, essa sensação prejudica o comércio como um todo e as pessoas acabam ficando na internet, ficando dentro de casa. Tanto que a Internet tem aumentado o seu faturamento ano a ano, que é uma situação normal, mas está acima da média exatamente por as pessoas optarem a ficar mais dentro de casa.

E o desemprego?
Obeidi –  Agora essa questão do desemprego está existindo, existe dentro da indústria. A indústria está desempregando porque está reduzindo a sua produção, consequentemente, porque o comércio está vendendo um pouco menos. A indústria automobilística, eu acho que é em função do problema do IPI. Os preços dos carros baixaram bastante, as pessoas se empolgaram e compraram para financiar. Ontem eu estava conversando com um amigo e ele fez um financiamento de 72 meses. Eu acho isso uma coisa descabida. É muito tempo para você pagar um carro.

Outro agravante que complica a situação do comércio é o aumento constante das taxas de juros. Nós temos patamares que chegam a ser abusivos no cartão de crédito, por exemplo, quem fica devendo é mais de 300% ao ano. O sujeito que ficar devendo no cartão de crédito quebra. Os bancos também com o cheque especial. Esses juros também inibem a ação do comércio?
Obeidi – Com certeza. Porque o cartão de crédito, como você falou, 300% ao ano, o que eu acho que deve dar até um pouco mais. Eles cobram juros sobre juros. Quem entrar naquela onda de pagar o mínimo, e quero pagar no mês seguinte o mínimo, só fica pagando o mínimo e não consegue abater a dívida. O que acontece: uma hora ele pega o cartão e quebra, fala que se dane e não paga. Aí ele sabe que o nome dele vai sujar, vulgarmente como a gente fala, aí suja o nome e se precisar de alguma coisa, pega o cartão de outro, e assim vai. 

Nós vivemos em um sistema de capitalismo selvagem…
Obeidi – E a nossa dívida interna aumentando cada vez mais. Por exemplo, lá fora não existe esse negócio de comprar em 10 vezes sem juros. Porque 10 vezes sem juros, na realidade, as pessoas têm que entender que é um ‘me engana que eu gosto’. As pessoas têm que entender que é óbvio que os juros estão embutidos naquele preço.

Para resolver a questão da política econômica, da crise econômica, nós temos que resolver a crise política. O que você acha que vai acontecer? Fala-se muito no impeachment da presidente Dilma. Você acredita nessa possibilidade?
Obeidi – Não, eu não acredito. Eu acho que a possibilidade é muito remota, nós vimos um impeachment do Collor em 1992 e foi um impeachment totalmente diferente. Ele desafiou o Congresso, e desafiou as pessoas a saírem na rua. Então, existia uma vontade política que ele saísse porque ele estava pondo o dedo na ferida de muitos interesses dentro do Congresso, que não é o caso hoje. Nós estamos vendo todos os dias uma delação premiada, todo dia tem uma revista Veja, uma revista Época e várias outras que são mais contundentes, soltando um escândalo. Geralmente esses escândalos estão dentro do Congresso, então é óbvio que está todo mundo na mesma panela, na mesma lama, no mesmo chiqueiro. 

Quais são as sugestões do comércio para o governo na questão da mudança da política econômica, para combater o desemprego, para fazer com que a vida das pessoas melhorem?
Obeidi – Desemprego no comércio não existe isso eu falo e às vezes as pessoas me olham espantadas. Não existe porque o comércio está trabalhando com um número de funcionários abaixo do que necessita. Não tem qualificação, as pessoas não querem trabalhar no comércio. A CDL recebe constantemente mil, mil e quinhentos, dois mil currículos e você chama metade que fala: vou ver, vou pensar. Começa a trabalhar um dia e depois não trabalha mais. O comércio tem uma carga horária um pouco mais extensa, trabalha no fim de semana, muitos locais trabalham no domingo. Infelizmente, eu sou brasileiro e tenho que falar, parece que essa geração nova realmente veio ao mundo a passeio. Não querem trabalhar como trabalhavam as outras gerações. Estão aí dependentes, morando com a mãe e o pai. Querem achar aquele emprego ideal, que hoje é ser funcionário público, é o que todo mundo quer ser. Trabalha pouco. Sem criticar, porque eu sei que tem gente no funcionalismo que trabalha, mas a maioria é um curto espaço de tempo de trabalho. Eu sou de uma descendência, o meu avô quando veio pro Brasil, ele era mascate, batia de porta em porta e teve uma vida sacrificante. Eu acho que quem quer conquistar seu sonho, tem que trabalhar, abrir o caminho. Antigamente era mais fácil? Mentira, hoje é mais fácil e eu acho que pra você abrir o seu caminho, tem que buscar o que você quer. Se você sonha, tem que buscar o seu sonho. Todo mundo tem que ter o seu sonho e eu acho que é assim que eu fiz na minha vida, e é o que eu ensino para os meus filhos.

Confira a entrevista completa no Jornal da Orla na TV: