
Em entrevista ao programa Jornal da Orla na TV, o presidente da Beneficência Portuguesa, Ademir Pestana, que também é vereador em Santos, afirma que oferecer um serviço de saúde de qualidade à população exige muitos recursos. Suas declarações acontecem no mesmo momento em que o governo federal admite a possibilidade de recriar a CPMF para garantir mais verbas para o setor. Ademir Pestana reconhece que a saúde precisa melhorar e cobra mais verbas dos governos federal e estadual. Segundo ele, a cidade Santos está fazendo a sua parte, mas tem seu serviço sobrecarregado por receber pacientes de outras cidades da região metropolitana. Além de mais recursos, Pestana defende campanhas de incentivo à medicina preventiva – “isso poderia começar nas escolas”, diz. Abaixo, os principais trechos da entrevista.
A saúde é hoje uma das maiores preocupações dos moradores da Baixada Santista. Como melhorar o atendimento oferecido à população?
Ademir Pestana – Se nós formos falar da saúde pública, a coisa funciona assim, para que as pessoas entendam: Santos coloca 18% de seu orçamento na saúde. É muito dinheiro. O Estado coloca 12% e o governo federal fez um acordo, porque não votaram a PEC 29. Isso traz um prejuízo porque você não sabe quanto vem de dinheiro para a saúde.
Ou seja, a cidade está fazendo a sua parte, mas o governo federal não?
Ademir Pestana – Dos 92 bilhões que o governo federal arrecada e coloca na saúde, um terço desses valores vai para internações e produtividade ambulatorial, o que é muito pouco. A tabela do SUS já não é corrigida há mais de 10 anos. Os hospitais filantrópicos correspondem a 42% de toda a internação no Brasil. É pouco dinheiro, precisa melhorar.
Com o governo federal fazendo ajustes, cortando recursos, a situação tende a se agravar um pouco mais. Qual é o caminho que as cidades e as entidades filantrópicas, como a Santa Casa e a Beneficência Portuguesa, que atendem pelo SUS, devem caminhar? Qual é a saída?
Ademir Pestana – Eu acho que precisava rever a saúde no Brasil. Eu sempre falo que nós precisamos de uma administração nessas entidades que são filantrópicas e que na realidade fazem parte dessa parceria com o governo, até pelas suas histórias. A Santa Casa tem 500 anos e a Beneficência com mais de 155 anos e tantas outras Santas Casas pelo Brasil. Eu acho que elas deveriam ser administradas por uma comissão tripartite, pelo município, o Estado e o governo federal e eles participarem desse atendimento a pessoas carentes. A administração precisa participar para não faltar recursos. Eles precisam ver a realidade de como funcionam essas entidades.
Hoje não há interferência por parte do poder público?
Ademir Pestana – No caso da Beneficência, nós não recebemos recursos nem do Estado, nem do governo federal. Ao contrário de muitas Santas Casas que recebem alguns pacotes fechados. Hoje nós temos 100 leitos SUS dos 200 que nós temos, ou seja, 50% são SUS, além dos outros atendimentos como radioterapia. Ainda nessa semana,nós entramos para a rede Hebe Camargo de Oncologia. Só na Beneficência este ano, nós vamos atender 6.800 casos de câncer de cabeça e pescoço dentro da instituição. Para isso, nós queremos que o governo do Estado nos ajude, coloque mais recursos dentro da entidade porque o cobertor é curto.
O cobertor é curto e a saúde custa muito caro. A alternativa seria investir na medicina preventiva, que reduz os casos de internação e evita que o paciente chegue com uma doença mais grave?
Ademir Pestana – Nós temos que trazer mais responsabilidade para as famílias. Se você tem um idoso em casa, você tem a Lei do Idoso e poderia criar algum mecanismo para caso essas famílias tenham algum doente em suas residências, que fossem preparadas para aquele tipo de doença, que aflige aquela pessoa. Então ela poderia ter um comportamento preventivo com relação a pessoas diabéticas, hipertensas, porque essas pessoas, se não medicadas ou tratadas, com certeza, vão para a rede pública..
Não seria interessante também campanhas educativas mostrando a importância de uma alimentação saudável ou de uma atividade física? Não está faltando um pouco disso?
Ademir Pestana – Eu acho que dentro desse pensamento, que poderia ser do governo federal, nós poderíamos buscar isso, por exemplo, um censo da saúde no Brasil. Aí, sim, poderíamos iniciar um grande programa de educação com relação à saúde, mas eu acho que tem que começar desde a escola.
O ex-ministro da saúde, Adib Jatene, já falecido, que era um grande homem, um grande brasileiro e médico, criou a CPMF para dar mais verbas para a saúde. Foi uma grande ideia, mas no fim acabou que os políticos desviaram o dinheiro, desvirtuaram toda a ideia da CPMF e a saúde continua nessa situação. Quer dizer, se não tivessem desviado aquele dinheiro, a CPMF não teria sido uma boa alternativa?
Ademir Pestana – Sem dúvida é o dinheiro que está faltando na saúde hoje para tentar buscar um equilíbrio. O governo federal também poderia incentivar as empresas a darem planos de saúde para os seus funcionários através de bonificações de impostos como o INSS, PIS. O governo faria a sua parte, a empresa faria a sua e os funcionários a outra. É uma forma de diminuir o custo da saúde pública de alguma maneira.
O senhor tem buscado soluções junto às autoridades em Brasília?
Ademir Pestana – Eu estive em Brasília na Frente Parlamentar da Saúde, que é presidida pelo deputado baiano Antônio Brito e, felizmente, temos agora o João Paulo Papa, que é um novo membro da comissão e estava lá também.. Criou-se aquela Refis para entidades filantrópicas do Brasil que estão endividadas para que pudessem fazer uma anistia. Essa foi uma solução que o governo buscou para resolver alguns problemas dessas entidades filantrópicas. Nos últimos dois anos fecharam-se 282 hospitais filantrópicos no Brasil. Se não derem uma solução, devido até ao abandono do próprio governo com relação a essas entidades, eu não sei como vai ficar a saúde.
Com toda a sua experiência e apesar da crise política e econômica que o Brasil passa hoje, o senhor acha que é possível melhorar a saúde? Principalmente aqui na região metropolitana da Baixada?
Ademir Pestana – Ela tem que melhorar. Eu estive fazendo um cálculo da região metropolitana de São Paulo. O governo do Estado coloca praticamente 77% dos recursos nessa região e o restante, nas outras regiões metropolitanas. Nós temos aqui na região, que apesar de ter o Guilherme Álvaro e várias outras expansões do Estado presentes, nós temos 4% da população de todo o Estado e recebemos 1.5% dos recursos, enquanto a região de SP recebe 77% e tem uma população de 49%. Então há uma injustiça aí, que precisa ser corrigida.
Então além de brigar em Brasília tem que brigar no Palácio dos Bandeirantes?
Ademir Pestana – Eu acho que tem que dividir um pouco mais com as outras regiões metropolitanas. Se fizer proporcionalmente por população, nós teríamos que receber 4%, ou seja, quase duas vezes e meia a mais. O que seria muito importante não só para Santos, mas para outras regiões que são carentes, como Bertioga e São Vicente, que precisam evoluir mais. Essas regiões não têm média ou alta complexidade e o que ocorre? As pessoas acabam sendo encaminhadas para Santos e acabam ficando aqui, sobrecarregando a cidade. Enfim, a saúde precisa ser discutida em um fórum de muitos meses para nós chegarmos a uma conclusão de como ela deve funcionar e melhorar a vida das pessoas.




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