Metrópole

14 de julho

14/07/2026 Luciano Cascione
Divulgação

Há datas que pertencem à História. Outras pertencem à nossa vida. O 14 de julho ficou conhecido quando a Bastilha caiu e a Revolução Francesa anunciou ao mundo que nenhuma fortaleza é maior do que o desejo de liberdade. Desde então, a data simboliza a coragem de enfrentar o poder e a esperança de construir um tempo novo.

Para mim, porém, o 14 de julho tem outro significado. Foi nesse dia, em 1942, que nasceu meu pai, Vicente Cascione.

Enquanto a História celebrava uma revolução coletiva, a vida preparava outra, silenciosa, feita de exemplo, estudo e coragem. Não havia muralhas para derrubar, mas injustiças para combater. Não havia um reino a enfrentar, mas preconceitos, arbitrariedades e condenações precipitadas.

Meu pai escolheu a advocacia criminal, profissão que exige independência quando tantos preferem o conforto da unanimidade. Fez da palavra um instrumento de defesa e da inteligência uma forma de servir à Justiça. Tornou-se um dos grandes criminalistas de sua geração, respeitado por colegas, adversários e magistrados.

Também encontrou no jornalismo outra maneira de defender ideias. Escreveu com a firmeza de quem nunca teve receio de contrariar consensos fáceis. E, eleito deputado federal por dois mandatos, levou para o Parlamento a mesma coerência que sempre marcou sua atuação profissional: a convicção de que princípios não podem ser negociados conforme a conveniência do momento.

Mas os cargos e os títulos jamais resumem uma vida.

A verdadeira grandeza está naquilo que permanece quando as homenagens terminam.

Ela está nos cinco filhos que criou, no amor à família, nas lições transmitidas sem discursos grandiosos. Está no exemplo diário de amor, honestidade e dedicação. Está na biblioteca que formou, nas conversas que despertavam curiosidade, na elegância com que sempre exerceu a inteligência, sem jamais transformá-la em arrogância.

A Revolução Francesa deixou como legado as palavras liberdade, igualdade e fraternidade. Meu pai jamais precisou proclamá-las. Procurou vivê-las. Defendeu a liberdade nos tribunais, respeitou a dignidade das pessoas e fez da fraternidade um compromisso silencioso com a família, os amigos e seus clientes.

Há revoluções que acontecem em um único dia. Outras levam uma existência inteira para serem construídas.

Por isso, quando o calendário anunciar mais um 14 de julho, muitos lembrarão da Bastilha.

Eu lembrarei de um homem que nunca precisou conquistar um país para deixar seu nome na história daqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado.

Parabéns, papai!