Metrópole

Daruma e os ODS

13/07/2026 Fabio Tatsubo
Reprodução Pexels

Eu era criança quando ganhei meu primeiro Daruma. — Tatsubô, escolha algo que deseja muito. Pense no que precisa fazer para conquistar esse sonho. Pinte um olho e deixe o Daruma ao lado da sua cama. Ele vai te lembrar todos os dias do caminho que precisa percorrer. Quando alcançar o que deseja, pinte o segundo olho e entregue o Daruma a alguém especial. Nesse gesto, o boneco passa a enxergar e iluminar a caminhada de outra pessoa, carregando consigo toda a sua dedicação, esforço e perseverança.

O Daruma é um dos símbolos mais fortes da cultura japonesa e sua origem está ligada à vida do monge indiano Bodhidharma, conhecido no Japão como Daruma Taishi. Ele se tornou famoso por sua disciplina e pela prática intensa da meditação. A tradição conta que Bodhidharma se retirou para uma caverna e permaneceu ali por nove anos, sentado diante de uma parede, em busca de iluminação espiritual. Durante esse período, enfrentou a sonolência e, segundo a lenda, decidiu cortar suas próprias pálpebras para não adormecer. Diz-se que, ao cair no chão, elas deram origem às primeiras plantas de chá, que mais tarde se tornariam parte da cultura chinesa e japonesa. Esse gesto extremo simboliza a ideia de “ver com a mente, em vez dos olhos” e foi associado à paciência, perseverança e obstinação.

Por isso, o Daruma tradicional é representado sem olhos: ao receber o boneco, a pessoa pinta apenas um deles e estabelece uma meta. O segundo olho só é pintado quando o objetivo é alcançado, marcando a realização e reforçando o compromisso com a própria jornada. O formato arredondado e o peso na base fazem com que o Daruma sempre volte à posição ereta quando é derrubado, traduzindo o provérbio japonês “Sete quedas, oito levantadas” (nanakorobi yaoki), que ensina que não importa quantas vezes se caia, sempre é possível recomeçar.

Mais do que um objeto artesanal, o Daruma é um lembrete de que cair faz parte da vida, mas levantar é indispensável. Ele nos inspira a manter a resiliência, acreditar nos nossos objetivos e celebrar cada conquista como fruto da determinação. É um símbolo que une história, espiritualidade e cultura, mostrando que a verdadeira força está em nunca desistir.

Essa mensagem se conecta diretamente ao espírito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Assim como o Daruma só completa seus olhos quando a meta é alcançada, os ODS também dependem de compromisso, resiliência e ação contínua. Pintar o primeiro olho é como definir uma meta clara; pintar o segundo é como cumprir o prazo estabelecido e celebrar a conquista.

O ritual dos olhos mostra que não basta desejar: é preciso acompanhar o processo, manter o foco e trabalhar até que o resultado seja atingido. Essa prática dialoga com a lógica dos ODS, que têm 2030 como horizonte temporal e exigem que cada país estabeleça metas intermediárias, monitore avanços e ajuste estratégias para garantir que os objetivos sejam cumpridos dentro do prazo.

Assim como o Daruma inspira resiliência com o provérbio “Sete quedas, oito levantadas”, os ODS lembram que os desafios globais, pobreza, desigualdade, mudanças climáticas, educação de qualidade, exigem persistência e capacidade de se reerguer diante dos obstáculos. Cada queda é parte da jornada, mas o compromisso com os prazos e metas é o que garante que o futuro seja transformado.

O Daruma, portanto, não é apenas um amuleto da sorte: é uma metáfora poderosa para os ODS. Ele nos ensina que definir metas, cumprir prazos e manter a resiliência são passos indispensáveis para construir um mundo mais justo, sustentável e inclusivo.

Em 2002, pela Secretaria da Cultura de São Vicente, produzi um mangá que contava um pouco dessa história. Desde 2016, quando começou a jornada para os ODS, todos que chegam para integrar a equipe recebem um Daruma acompanhado de uma orientação: ele não realiza desejos por si só, mas simboliza uma meta que você escolhe alcançar. O resultado depende de quanto você está disposto em agir e da sua dedicação para transformar intenção em conquista.