
As histórias de quem vive do mar ganharam um espaço para permanecer vivas. Criado para preservar a memória e os saberes da pesca artesanal, o projeto Estação de Memórias: Porto & Pesca inaugura sua primeira unidade em Santos com uma exposição gratuita na Casa das Culturas (Rua Sete de Setembro, 49, Vila Nova). A mostra reúne relatos de pescadores, marisqueiras e moradores da região, transformando experiências de vida em patrimônio cultural.
A iniciativa é da VLI, administradora do Terminal Integrador Portuário Luiz Antonio Mesquita (Tiplam), em parceria com o Museu da Pessoa, a Prefeitura de Santos e a Fundação Arquivo e Memória de Santos. O objetivo é registrar narrativas que atravessam gerações e ajudam a contar a história da Baixada Santista por meio daqueles que construíram sua relação com o mar.
Segundo Elizabeth Pimenta, analista de Responsabilidade Social da VLI, o projeto surgiu da ampliação de uma iniciativa voltada à preservação da memória ferroviária. Ao chegar às cidades portuárias, a empresa identificou um rico patrimônio ligado às comunidades pesqueiras. “Em Santos, a convivência histórica entre o porto e as comunidades pesqueiras revelou uma riqueza cultural que merecia ser registrada e compartilhada. Assim nasceu o Estação de Memórias: Porto & Pesca”.
As oito histórias apresentadas na exposição surgiram de entrevistas com pescadores, marisqueiras e outros profissionais da região.
Além dos depoimentos, a mostra reúne oito vídeos documentais gravados em cenários marítimos e portuários de Santos e uma ambientação interativa inspirada no cotidiano da pesca. Todo o conteúdo também passa a integrar o acervo digital permanente do Museu da Pessoa.
Para Elizabeth, preservar esse legado significa reconhecer um modo de vida que vai muito além da atividade econômica. “A pesca artesanal representa cultura, identidade, conhecimento tradicional e um modo de vida transmitido entre gerações. Contribuir para preservar essas memórias é uma forma de reconhecer a importância dessas comunidades e fortalecer o desenvolvimento sustentável e inclusivo da região”.
Organizada em três partes — Sobrevivência, Apuro e Reflexão —, a exposição aborda desde os conhecimentos transmitidos entre gerações e a leitura das marés até os desafios enfrentados atualmente pelas comunidades e sua convivência com o complexo portuário.
Entre os personagens está a marisqueira Cleide Gomes Reis, que relata a rotina no manguezal e os desafios para garantir o sustento da família. “Fico lá sozinha. Demora mais ou menos uma hora, uma hora e meia para encher uma lata e, dependendo do lugar, eu pego quatro, cinco latas”. Ela conta que o trabalho exige enfrentar lama, mosquitos, cobras, raízes e até o risco de ficar presa no mangue. “Tem tudo isso, mas eu não ligo. Já me acostumei”.
Outro personagem é o pescador Ricardo Yumoto, que praticamente passou toda a vida no mar. Ainda criança, começou a acompanhar o pai nas pescarias e, aos 15 anos, já comandava o próprio barco. “Trabalho desde os meus 8 ou 9 anos. Depois comecei a pescar sozinho e hoje posso dizer que tenho cerca de 40 anos dedicados à pesca”.
Para ele, integrar o projeto é uma forma de eternizar uma trajetória construída por sua família. “Poder compartilhar memórias e experiências que vivi na pesca e ver isso virar história é incrível.” Ao visitar a exposição, Ricardo se emocionou ao encontrar seu relato ao lado do de outros trabalhadores do mar. “Fico honrado em ser escolhido no meio de centenas de pescadores artesanais. Ter a oportunidade de apresentar a trajetória da minha família na pesca é uma grande honra”.
Programação
Além da mostra, a Casa das Culturas recebe neste sábado (11), a partir das 14h30, o espaço recebe ainda a oficina literária ‘Como se tornar um escritor: a poesia segundo Paul Valery’ com o escritor e curador Flávio Amoreira. Em seguida, às 16h, a casa recebe a oficina de Haicai com Cristina Chinen e Carlos Martins.


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