Metrópole

Aquela companhia

08/07/2026 Sergio Rezende
Reprodução Pexels

Ela entra em nossas vidas de forma sorrateira. E, cada vez mais, sua chegada acontece precocemente. Num primeiro momento, apresenta-se como uma companheira nota dez. Porém, por trás de uma aparência descontraída e reconfortante, a convivência prolongada revela caminhos tortuosos, muitas vezes sem volta.

Lares se desmoronam por causa de sua estadia prolongada. Famílias inteiras são desfeitas sob sua influência. Quantos homens, mulheres, crianças e adolescentes não tiveram sonhos roubados e alegrias interrompidas em razão das consequências dessa companhia enganosa.

Ligamos a televisão e lá está mais uma notícia com seu envolvimento. Um grave acidente tira vidas e destrói famílias. Folheamos o jornal e encontramos outra manchete marcada por sua atuação. Em muitos casos de violência, ela aparece nos bastidores, silenciosa, mas influente, como uma sombra que se alonga ao cair da tarde.

Nas escolas, crianças com dificuldades emocionais são encaminhadas para acompanhamento especializado. E, não raramente, ela reaparece. Manifesta-se nos relatos, nas ausências, nos medos e nas noites mal dormidas. Uma criança conta que o pai chega em casa diferente, irritado, e as discussões se tornam frequentes. O rendimento escolar cai, o sono desaparece e a tranquilidade do lar vai embora.

Mas seus danos não se restringem aos lares e aos afetos. Com a paciência de quem trabalha nas sombras, ela também vai deixando marcas no corpo. Aos poucos, enfraquece a saúde, rouba o vigor dos dias e abre caminho para enfermidades que, muitas vezes, só denunciam sua existência quando o estrago já está feito. Também deteriora a vida financeira e profissional de muitos, interrompendo projetos, enfraquecendo carreiras e comprometendo conquistas construídas ao longo de anos.

O mais assustador é observar jovens estreitando laços com uma companhia traiçoeira e, aos poucos, desenvolvendo uma dependência silenciosa que, a qualquer momento, pode lhes cobrar um preço alto demais.

Ela adora marcar presença em celebrações, principalmente em competições esportivas. Movimenta mercados, patrocina eventos e estimula o consumo. Recebe aplausos. Veste-se de cores vibrantes, de trilhas alegres e de rostos famosos para se apresentar como sinônimo de alegria, liberdade e descontração, conquistando novos admiradores por onde passa.

Alguns dizem que basta cautela para manter tudo sob controle. Outros, que um dia acreditaram dominar a situação, deixaram apenas lembranças e saudades. Seu passatempo predileto parece ser colecionar arrependimentos e distribuir lágrimas.

Apesar de tudo, ela continua sendo convidada para aniversários, casamentos e tantas outras celebrações, como se sua verdadeira face permanecesse oculta aos olhos de muitos. É recebida com sorrisos, fotografias e brindes. Muitos a tratam como símbolo de felicidade, liberdade e amizade. Ela chega sem pedir licença, senta-se à mesa e conquista espaço com uma facilidade impressionante.

Muitos acreditam que conseguem conviver com ela sem consequências, mas nem todos têm a mesma sorte. Eu retirei essa companhia nefasta da minha vida há alguns anos.

Por isso, deixo aqui um alerta ao leitor.

Essa companhia tem nome.

Chama-se álcool. Cuidado!