Metrópole

Ponta da Praia chega aos 59 anos de olho no próprio futuro

28/06/2026 Marcos A. Ferreira
Fernando Yokota/Jornal da Orla

Do vai e vem dos barcos de pesca e dos pescadores e peixeiros aos milhares de veículos e seus condutores (de carros, motos, bicicletas) – no último Carnaval, a travessia de balsas Santos/Guarujá chegou a registrou 26 mil usuários por dia. Das ruas de areia, casas e chalés com suas hortas e quintais, aos arranha-céus sobre um chão cada vez mais valorizado – ultrapassa R$ 20 mil o metro quadrado, em algumas áreas. Assim, o bairro Ponta da Praia chega aos 59 anos nesta segunda-feira (29), Dia de São Pedro, padroeiro dos pescadores.

“A Ponta da Praia girava em torno da pesca. Havia o entreposto, que ´bombava`, a cooperativa Nipo. Dono de barco ficou rico aqui. Depois, veio o mercado, agora melhorado, como novo prédio. Hoje, a gente vê esses ´elefantes` enormes, altos. Embelezou. Valorizou a área, mas há bastante comércio fechado, porque os aluguéis ficaram caros. O meu comércio caiu cerca de 80%. Mas tudo faz parte da modernidade”, conta resignado Nilton Ribeiro Lara, 79 anos, proprietário de um comércio de material para pesca, há mais de 40 anos no bairro.

A aposentada Gisele Pinheiro, 64 anos, mora na Ponta da Praia desde 1988 e lembra de bairro tranquilo, arejado e bastante iluminado pelo sol, com prédios pequenos, casas. “Eu lembro quando meu filho Gabriel, hoje com 30 anos (ele “nasceu” no bairro), era pequeno e a gente ia à praia onde hoje não se tem ideia de que havia areia ali, de tanto que o mar avançou. Agora então, com essa possibilidade de dragar para 16 metros, imagino que a gente não vai ter praia até o Canal 6, daqui a uns anos”.

No entanto, para Gisele, a principal modificação é crescimento do setor imobiliário. “Primeiro, há o impacto na paisagem – dependendo do lugar que você anda, há muita sombra. Antes, era um bairro aberto e está ficando bastante fechado. A movimentação das ruas, muito carro. Essa questão da mobilidade urbana preocupa, assim como todo esse boom de construções, vários prédios, me preocupa saber como ficará a questão do esgoto, do saneamento.”, diz.

Mas Gisela aponta “uma coisa que foi bem legal”: a reforma feita no calçadão à beira mar. “É um espaço muito aproveitado. Eu não conseguia caminhar à noite, porque a iluminação era péssima, pouca gente andando. Depois dessa nova Ponta da Praia, é assim que eles chamam, ficou muito bacana, enfim, é uma coisa que nos trouxe um outro espaço para lazer. E tem também a melhora muito grande no Rebouças”.

 

ELITIZAÇÃO

O comerciante Roberto Otani, de 53 anos, aponta duas mudanças que considera importantes na Ponta da Praia: “Com a pesca, o bairro era mais popular, com movimento intenso de pessoas nas ruas ainda de terra, algumas. A pesca caiu, o bairro ficou mais elitizado, o que trouxe mais infraestrutura. Isso é necessário”, afirma ele que nasceu e cresceu na Ponta da Praia.

Roberto é filho de Iolanda e Akira Otani, ambos com 81 anos. O casal instalou seu carrinho de pastel na Rua Henrique Soler em 1967, negócio interrompido pela pandemia, o que levou o filho, em 2020, a sair da rua para um espaço físico, ali mesmo. “Nos anos 1980, isso aqui era uma passarela de gente, circulando para lá e para cá. Eram uma abundância de peixe, as pessoas prosperavam com a pesca e nos comércios locais. No carrinho, vendíamos o dobro de hoje”, conta Roberto, que diz cumprir uma “cisma” do pai e deixar oculto o volume de pastéis vendidos diariamente. Porém, diante da insistência da reportagem, cede um pouco: “Vou ser bonzinho: são mais de 300”.

SOVACO DA MULA

A família da aposentada Márcia Azevedo, 68 anos, também sempre viveu na Ponta da Praia. A avó portuguesa e o avô vindo de Cananéia, no Vale do Ribeira, se instalaram ali em 1939, na Comendador Alfaia Rodrigues, rua com os famosos chalés. Ela conta histórias que viveu e outras que lhe foram passadas pelo pai e a mãe. Por exemplo, foi Maristela de Azevedo Ferreira, 88 anos, quem contou sobre uma rua apelidada de Sovaco da Mula.

“Onde hoje é a Avenida Governador Fernando Costa, que começa na Praça José Rebouças e termina na Avenida Rei Alberto, era uma ruazinha estreita de mato. A maioria dos residentes eram espanhóis que trabalhavam na pesca ou no cais. Nessa rua, passavam muitas carroças puxadas por mulas, que vinham coletando latões com sobras de comida (lavagem, como se dizia). Com os solavancos da carroça, restos de alimentos caiam no chão, deixando um mau cheiro. Então, chamavam-na de Sovaco da Mula”.
Márcia Azevedo diz, ainda, que havia sítios de japoneses, muitos imigrantes portugueses, espanhóis. “Do Canal 5 para cá era tudo areia. Aproveitava-se os terrenos para fazer horta. Até os anos 1980, a Avenida Rei Alberto era um areião. Era como se fosse outra cidade”, conclui.

INVESTIMENTOS

Para a Prefeitura de Santos, a Ponta da Praia faz aniversário “em franco desenvolvimento”. Por intermédio da Assessoria de Imprensa, a Administração destaca investimentos em equipamentos como o Centro Esportivo e Recreativo Rebouças, “que passa por ampla modernização e transformação estrutural e ampliará em cerca de 2 mil vagas a oferta de atividades para a população”.

Outro destaque são as obras do Aquário Municipal, fechado há mais de um ano. Também ressalta a entrega, este ano, do conjunto Residencial Novo Horizonte, com 136 unidades habitacionais para as famílias da Vila Sapo, e o fato de que, no último mês, as 89 vias passaram a contar com iluminação 100% em LED.

“Ainda, nos últimos anos, a orla da Ponta da Praia foi totalmente revitalizada, ganhando um novo Mercado do Peixe e novo Deck do Pescador para os amantes da pesca, além de um ponto instagramável com o nome da Cidade, que ganhou o coração dos santistas e turistas. Também foi entregue o Santos Convention Center e a revitalização da Rua Trabulsi”, desta texto enviado pela Assessoria.

ARRANHA-CÉUS

Enquanto os chales esbanjavam espaço, os arranha-céus em construção na Ponta da Praia vendem luxo e conforto nas alturas. Um exemplo é o Residencial Navegantes, sobre o qual a Construtora Miramar (Grupo Mendes) exalta o fato de que será “o edifício mais alto do litoral paulista”, com 155 metros de altura e 45 pavimentos: 309 apartamentos em duas torres na Avenida Rei Pelé.

Ressalte-se que a mesma construtora tem um empreendimento (San Martin) próximo ao Canal 7, com 46 andares e apenas dois apartamentos por andar.