
Em uma esquina do Gonzaga, entre livros, café, conversas e também muita música, existe um espaço que há 25 anos transforma a literatura em ponto de encontro em Santos. A Realejo Livros chega às duas décadas e meia celebrando muito mais do que a permanência de uma livraria independente: celebra histórias, amizades, descobertas e conexões construídas ao longo do tempo.
Quando abriu as portas, a Realejo ainda era uma livraria “crua”, conta o livreiro José Luiz Tahan. Sem fórmulas prontas ou grandes projeções de futuro, o espaço amadureceu e se consolidou como um dos principais polos culturais da cidade. “Entreguei minha juventude para cá”, resume.
Para ele, a construção da livraria aconteceu de forma orgânica, acompanhando suas próprias transformações pessoais e profissionais. “Uma livraria não nasce pronta. Acho que a Realejo tem um pouco de ser um espelho, de passar a identidade que eu persigo”, afirma.
Tahan destaca não apenas a longevidade do negócio em meio às profundas mudanças tecnológicas e culturais das últimas décadas, mas também a permanência do encontro presencial e da experiência do livro físico. “Fazer 25 anos é notar que a Realejo está amadurecendo, assim como eu. O trabalho nunca está pronto, mas todos os dias a gente colhe um pouquinho dos frutos dessa dedicação”, diz.
Ao longo dos anos, a livraria se consolidou como um espaço de convivência e circulação cultural, reunindo lançamentos literários, debates, shows intimistas e o já tradicional chorinho das sextas-feiras, realizado há mais de duas décadas. “Tudo isso é também um agradecimento a Santos. A Realejo só floresce porque tem quem ouça essa música. Não é uma produção unilateral”, afirma.
Mesmo diante do avanço das plataformas digitais, Tahan acredita que o livro físico vive um momento de redescoberta — especialmente entre os mais jovens. “Existe um tipo de refúgio na leitura física. A relação com o livro é mais completa. Você se conecta mais com o que está fazendo”, observa.
Segundo ele, a aceleração constante da vida contemporânea tem levado muitas pessoas a buscarem experiências mais lentas e concentradas. “Estamos tão demandado por aceleração no mundo… Ler um livro virou quase um remédio. As pessoas estão percebendo como é prazeroso ter relação com esse objeto que deu muito certo”.
Ao contrário da ideia de que as novas gerações estariam afastadas da leitura, Tahan enxerga o cenário com otimismo. “A molecada de 18 a 24 anos é a maior consumidora hoje. Eu vejo isso como uma descoberta. A leitura ativa um tipo de imaginação que só vem com a prática do livro”.
Identidade
Na Realejo, a seleção dos títulos segue uma curadoria cuidadosa, guiada por três pilares: os clássicos da literatura, os lançamentos contemporâneos e os livros que marcaram a equipe da livraria. “O primeiro pilar é o cânone, aquilo que tem um lugar na história da literatura. O segundo são os livros do momento. E o terceiro são os livros que nós lemos e adoramos”, explica.
Mais do que vender livros, Tahan entende o ofício do livreiro como uma ponte entre leitor e obra. “Eu não imponho o que o leitor vai ler. Tento ser uma ferramenta. Quando alguém chega aqui querendo uma indicação, eu procuro entender o que aquela pessoa sentiu no último livro que leu. A partir disso, faço sugestões”.

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Realejo Edições
Além da livraria, a Realejo também celebra os 20 anos de sua editora, que inicia uma nova fase com a entrada de dois sócios: Avanir Neto e Victor Valente. “Eu construí algo intuitivamente aqui que é como se fosse um ecossistema”, define Tahan. “Tem a livraria de rua, que faz os eventos; depois veio a editora; depois a Tarrafa Literária, que radicaliza os eventos; e eu como autor também. Você vai empilhando frentes que, juntas, acabam virando um organismo todo em torno do livro”.
200 títulos
Ao longo de duas décadas, a editora publicou cerca de 200 títulos, reunindo autores brasileiros e estrangeiros. “Já publiquei autores portugueses, argentinos, mexicanos, santistas. Uma editora não trabalha só para uma cidade. Ela conversa com o país — e, às vezes, com outros países também”.
Segundo ele, a chegada dos novos parceiros representa um movimento de amadurecimento e estruturação. “Eu me meti a ser editor e fiz coisas muito legais, mas chegou uma hora em que falei: ‘agora a coisa ficou séria’. A editora está me chamando para estruturar mais”.
Tahan destaca que os novos sócios possuem formações complementares. “O Victor é professor de literatura, formado na USP, com especialização em literatura africana e história da arte. O Avanir vem da parte financeira, administrativa e jurídica. E uma editora tem muitos contratos, relações internacionais, gerenciamento de autores. Não dá para fazer sozinho”.
Mesmo com a expansão da editora, Tahan reforça que o coração do projeto continua sendo a livraria. “A nossa obsessão continua sendo cuidar da Realejo. Se a livraria não estiver bem, nada faz sentido”.
Resistência
Apesar das múltiplas frentes, o contato cotidiano com os leitores segue sendo o maior prazer do livreiro. “Toda vez que conheço um novo leitor, eu me sinto desafiado e renovado no meu ofício. Eu não posso perder minha musculatura de livreiro”.
As noites de sexta-feira, embaladas por música e chorinho, se transformaram em uma das marcas da casa. “Tem gente que praticamente só vem às sextas. Vem pela música, pelos livros, pela convivência”.
Tahan enxerga a Realejo como um espaço de formação humana, convivência e resistência cultural. “A busca pelo conhecimento é o melhor caminho. Em um mundo em que tentam colocar a gente em pé de guerra o tempo todo, os livros, pela própria reflexão que provocam, nos afastam do ódio, do radicalismo e da burrice”.
O nome da livraria também nasceu carregado de afeto e simbolismo. “Eu queria um nome mais quente, mais simpático. O tocador de realejo é esse personagem raro que anda pelas ruas, leva música, sorte e muito boas histórias. Achei que era um nome que reunia coisas muito bonitas”, conta. “O resto é história”.


A livraria Realejo é muito legal!! que dure muitos anos ainda! virou um marco santista e da Baixada santista!!