A voz da consciência

Eu quero entender quando foi que jornalismo brasileiro se tornou o lugar de stand up comedy

05/02/2026 Bruno Oliveira
Eu quero entender quando foi que jornalismo brasileiro se tornou o lugar de stand up comedy | Jornal da Orla

 

Será que essa moça, a jornalista Daniela Lima, sabe a gravidade de um traumatismo craniano, independente de qualquer coisa? Não interessa se é leve, moderado ou grave: traumatismo craniano é traumatismo craniano, e precisa ser atendido com rapidez para que os danos não sejam mais graves do que parecem ser.

Quando digo que não brigo com o fato nem com a opinião, é porque o fato é simples: ele teve um traumatismo craniano em virtude de uma queda na cela onde está na Polícia Federal. Essa informação já é suficiente. O que chama a minha atenção é a vontade de agradar a bolha à qual se pertence, a vontade de ser aplaudida de pé. Por isso que algumas pessoas dão risada da situação alheia. Talvez “tragédia” não seja a palavra certa. Também não sou a melhor pessoa do mundo para ensinar ninguém a trabalhar, muito menos em jornalismo. Estou falando como espectador.

Ainda bem que não assisto aquele canal. Se assistisse, ficaria muito mal. Confesso que esse tipo de comportamento me faz pensar se o jornalismo, em qualquer segmento, é um ambiente saudável e positivo para se conviver. Os fatos em si já deixam a gente intoxicado mentalmente.

Eu perguntei se Daniela Lima sabe a gravidade de um traumatismo craniano porque já passei por isso. Quando era criança, jogando handebol em aula de educação física: a escola tinha trocado o piso de areia da quadra por cimento. A bola ficou presa entre eu e um colega maior que eu, e eu caí de costas no chão. Fiquei das 11h da manhã às 15h em observação no Hospital Santa Casa de Santos. Foi uma experiência marcante. Depois disso, nunca mais participei de aulas de educação física.

Eu não sou um budista de jornalismo para querer ficar analisando o comportamento profissional de ninguém. Mas eu fico pensando: uma certa corrente política sempre tenta carimbar o rótulo de discurso de ódio na corrente política oposta. Eu fico me perguntando o que será uma gargalhada sobre um acidente no caso não seria doméstico né? Por uma questão óbvia. Veja que eu não estou entrando em questão política.

Eu não sei o momento em que o fato virou menos importante do que a opinião. Eu não tenho assistido muito no televisivo, confesso, para manter ansiedade mental no lugar. A sensação que eu tenho assistindo TV às vezes é de estar assistindo a distribuição de panfleto político partidário em época de campanha eleitoral para determinado nome que eu não preciso dizer aqui. Vocês são inteligentes.

Eu sou do tempo em que jornalista relatava o fato. Tinha poucos comentaristas para aprofundar o fato, de explicar o que estava acontecendo. Mas a ancoragem é relativamente uma posição nova no jornalismo brasileiro tradicional, tô falando de televisão né? Ancoragem quer dizer você ao mesmo tempo que dá uma notícia ao final você faz um comentário breve. Essa nova posição do jornalismo brasileiro vem estragando a profissão na minha opinião. Assim o fato perdeu a importância para a opinião política. Não existe veículo de comunicação sem viés político, partidário, ideológico no Brasil, pelo menos.

Agora falando especificamente do fato em si: eu só vi um corte, ou seja um trecho do vídeo. Eu não vi a íntegra do vídeo e nem preciso na verdade. Porque a sensação que eu tenho no primeiro momento é de que essa moça Daniela Lima fala para bolha a qual pertence e me espera que receba aplausos pelo comentário que fez. A sensação que eu tive vendo esse corte, esse trecho do vídeo, é de asco. Me embrulhou o estômago, me deu vontade de vomitar.Essa atitude dela na minha opinião é asquerosa. Se eu fosse integrante da família Bolsonaro, apesar de saber a resposta negativa, eu entrava na justiça contra essa moça que acha que pode fazer tudo só porque tem boas fontes, que é bem informada. Vou me permitir fazer uma metáfora aqui: que é amiga do rei, dos influentes, dos poderosos e que isso a protege de qualquer coisa. Então ela pode tudo, ela acaba acreditando que pode tudo. Mas precisa entender que na vida existem alguns limites. Novamente eu quero deixar claro que eu estou falando como espectador.

“Assim, sem graça. Não, vamos falar de Brasil. Vamos falar de Brasil. Vou botar todo mundo aqui. Dona Carla, quem caiu da cama? Como assim? Quem caiu da cama? Aí teve um traumatismo craniano leve. Traumatismo craniano leve. Peraí, eu pensando aqui. É que eu não sei. Pois é, Dani. Pois é, Dani. Caiu da cama o crânio leve. Eu demorei. Eu demorei. Demorou para cair a ficha.” O clima esquentou, e muito.

Após uma piada feita por Daniela Lima sobre a queda de Jair Bolsonaro, a reação foi imediata e explosiva. “Voltar todo mundo aqui. Dona Carla, quem caiu da cama? Como assim? Quem caiu da cama? Aí, tá, teve um traumatismo craniano leve. É um traumatismo craniano leve. Encerrando aqui. É que eu não sei. Caiu da cama e virou mãe. Pois é, Dani. Caiu da cama e virou mãe.”

O ex-dono da RedeTV, Marcelo de Carvalho, perdeu a linha, partiu para o ataque e xingou a jornalista, provocando forte repercussão nas redes sociais. Em declaração pública, Marcelo foi ainda mais duro. Ele afirmou que não existe veículo de comunicação totalmente isento, mas que os mais sérios mantêm curadoria, limites editoriais e o compromisso de ouvir os dois lados. Segundo ele, o que mais chamou atenção nesse episódio, independentemente de gostar ou não de Bolsonaro, foi a falta de editoria e o que ele classificou como um aparente endosso ao conteúdo exibido.

“A PF bate na porta da cela, entre aspas, da suíte onde está encarcerado o Bolsonaro e vê um hematoma e fala o que foi que aconteceu. E aí diz que caiu, diz o ex-presidente que caiu. Aí o que acontece? A PF chama os médicos e Bolsonaro não queria que eles o vissem. Isso está registrado na reportagem do UOL. E aí vai o médico que visita Bolsonaro todos os dias, que é da família inclusive, e pede esses exames.”

Marcelo ainda acusou o programa de insistir em manter no ar uma pessoa que, segundo ele, age de forma reiteradamente irresponsável, cometendo excessos sem qualquer freio editorial.

Eu quero entender uma coisa: quando foi que jornalismo passou a ser stand up comedy? Porque o que ela fez foi com o fato do ex-presidente Bolsonaro sofrer um acidente. Jornalismo não é comédia. Um dos comentaristas pergunta: você percebe no vídeo, no trecho melhor dizendo, que cair da cama virando importante agora. Até entendo a postura dele porque ele fez parte do governo, acho que na primeira vez que o presidente Lula chegou ao poder em 2003. Ele chama Ricardo Kotscho e teve passagem pela Record depois.

Eu gostaria de dizer o seguinte para esse jornalista: a partir do momento que se trata de uma pessoa pública, uma simples queda é notícia, ainda mais sendo um ex-presidente da República, gosto de você ou não. Ele é ex-presidente da República.

Mais uma vez eu quero deixar claro que eu não tô aqui para analisar comportamento profissional de ninguém de jornalista algum. Eu entendo que você pode não gostar de alguém, mas deve tratar o personagem da notícia com respeito independente de quem seja. O jornalismo entrou numa fase em que permite que as pessoas sejam des – humanizadas simplesmente pelo fato de determinada jornalista não gostar da pessoa. Esse é um momento muito perigoso para a profissão na minha opinião.Ou não pertencer a sua tendência ideológica não te dá o direito de você esquecer o aspecto humano. Qualquer pessoa não deixa de ser ser humano só porque você não gosta dela. O fato não pode ser desfigurado só porque você quer, entendeu? E eu não tô falando isso por causa do personagem. Quando eu percebo que as pessoas estão perdendo a noção que o ser humano ainda existe, eu acho da mesma forma sempre.

Eu nunca disse que sou jornalista até porque não sou formado, não tenho curso universitário algum. Sempre disse que sou cronista e eu não brigo com o fato. Por isso é que eu falo o que eu tento trazer os argumentos para as pessoas que me assistem, o que me lem ou que leia as minhas colunas. A minha função é trazer os documentos, os argumentos para que elas formem a sua própria opinião. De novo eu não tenho direito de manipular a opinião de ninguém por respeito à profissão. Aliás eu vi muita gente preocupada.

A diferença entre o que acontece nas redes sociais e o que é feito pelo jornalismo profissional é fundamental. Com base nos documentos fornecidos, não há registros de veículos de comunicação profissionais ou jornalistas fazendo piadas ou deboches com o acidente de Lula. A cobertura dos veículos como InfoMoney, CNN Brasil e G1 foi focada nos fatos: detalhes do acidente, estado de saúde do presidente, procedimentos médicos e impactos em sua agenda.

Já no caso de Bolsonaro, a situação foi diferente. Houve uma jornalista profissional fazendo piadas sobre o traumatismo craniano durante uma transmissão, o que gerou polêmica e críticas, inclusive do ex-dono da RedeTV! Marcelo de Carvalho, que destacou a necessidade de limites editoriais e respeito na cobertura jornalística.

Essa diferença reforça a preocupação de que, enquanto as redes sociais podem ter um tom mais livre, o jornalismo profissional deve se pautar por princípios de seriedade e respeito, independentemente do sujeito da notícia. Essa distinção não é apenas uma questão de formato, mas de responsabilidade: enquanto as redes são espaços de expressão individual, com diferentes níveis de rigor e curadoria, o jornalismo como profissão carrega a missão de informar com precisão e dignidade, sem deixar que tendências ideológicas ou a busca por engajamento obscureçam o respeito pelo fato e pela pessoa envolvida.

O caso em questão evidencia como o desvio desse princípio pode gerar desconfiança na classe jornalística como um todo. Já que quando profissionais utilizam tom inadequado para tratar temas sérios como saúde, acaba minando a credibilidade que é essencial para que a sociedade confie na informação que recebe. É justamente essa credibilidade que construiu ao longo de décadas o papel fundamental do jornalismo na sociedade – como um pilar que ajuda a população a compreender o que acontece ao seu redor, tomar decisões e fiscalizar poderes.

Quando essa linha é cruzada, não só o profissional em questão é questionado, mas todo o setor sofre com a perda da confiança pública. É preciso lembrar que, mesmo em tempos de velocidade e engajamento nas redes, os valores que norteiam o jornalismo profissional – veracidade, imparcialidade e respeito – permanecem essenciais para que ele continue cumprindo sua função de serviço público.

Com isso, fica claro que o desafio atual para o jornalismo profissional é conciliar a adaptação às novas formas de comunicação com a manutenção dos seus valores essenciais. Em um cenário onde a informação circula a uma velocidade sem precedentes, é mais importante do que nunca garantir que a busca por atenção ou alinhamento com determinados grupos não substitua o compromisso com a verdade e o respeito humano.

É importante destacar: por mais que Ricardo Kotscho tenha uma trajetória respeitável no jornalismo, há um ponto crucial a ser considerado – como ele foi Secretário de Comunicação Social da Presidência da República durante um mandato do presidente Lula, qualquer comentário ou análise sua sobre temas relacionados ao governo ou a figuras políticas ligadas a esse período carrega consigo uma tendência ideológica inerente à sua passagem pelo cargo. Não se trata de desqualificar seu trabalho, mas sim de reconhecer que sua atuação anterior no governo implica que sua visão não pode ser considerada totalmente neutra. Como se houvesse um núcleo da análise que carrega marcas dessa experiência, e eventuais comentários que possam soar como críticos ou favoráveis devem ser vistos sob essa ótica, com a devida cautela para não tomar como uma avaliação imparcial, mas sim como uma perspectiva que carrega traços de sua formação e vivência políticas – nada demais, mas algo que deve ser levado em conta ao avaliar suas opiniões e falas.